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Socialização de cães é destacada por especialista da Cão Cidadão

Acertos devem resultar em recompensas e erros devem ser ignorados

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

“Adestramento inteligente é um método baseado no reforço positivo, ou seja, a busca pela recompensa do cão após o comportamento correto para que valha mais a pena acertar do que errar”. Essa definição foi passada pelo médico-veterinário com especialização em comportamento animal, que atua na Cão Cidadão, Fábio Antônio, em sua palestra “A importância da socialização como prevenção de problemas comportamentais”, na Feipet.

Segundo ele, o tutor ou adestrador não deve utilizar nenhum tipo de punição. “Nós, da Cão Cidadão, empregamos, no máximo, um susto, como borrifador com água ou lata que faz barulho. Mas o que friso é que o que vai fazer o cão aprender é a recompensa na hora certa e não a punição, isso porque a repreensão, uma hora, para de funcionar, já a recompensa na hora certa vai valer mais a pena pra ele continuar repetindo aquele comportamento”, explica.

fabio antonio
Profissional da Cão Cidadão explica que a socialização começa desde
o nascimento até os seis meses de idade (Foto: C&G VF)

O profissional expõe que a convicção da empresa é que, por meio da educação, é possível integrar o animal na família e melhorar a convivência entre cães e humanos. “Quando falo de educação não é só do cão, é do tutor, do tosador, do banhista e do médico-veterinário, porque existem muitos pontos que estudamos e aprendemos com o comportamento, que, na verdade, não é o foco na faculdade de Medicina Veterinária. Os graduandos aprendem a tratar da saúde dos cães, nós aprendemos a ser psicólogos desses animais”, pondera.

A socialização é o principal processo na vida de um cachorro, segundo Antônio, porque é algo que ele vai levar para a vida inteira e é o que faz com que ele tenha um problema comportamental ou não. “Nosso objetivo é orientar tutores para os filhotes serem bem socializados, além de criar uma comunicação eficiente entre proprietários e cães. A missão do veterinário é saber orientar o tutor em relação ao comportamento ou, se não souber passar essas orientações, pelo menos não dizer algo que possa atrapalhar, o que acontece bastante”, destaca.

Antônio diz que sempre conversa com médicos-veterinários a fim de frisar a importância de um trabalho em parceria: “Eu não vou medicar e clinicar o animal e espero que os veterinários também não tentem resolver problemas de comportamento. Médicos-veterinários são formadores de opinião, quando o proprietário tem qualquer dúvida é para eles que perguntam primeiro. Então, com a comunicação fluindo, conseguimos prevenir problemas de comportamento”, considera.

O adestrador explica que a socialização começa desde o nascimento até os seis meses de idade, mas o momento crítico é dos 21 dias até os três meses. “Nessa fase, o cão está em aprendizagem. Existem alguns estudos que dizem que os filhotes já começam a aprender na gestação, mas ainda não é socialização porque é efeito químico: a mãe passa por algum estresse, eleva o nível hormonal e o animal já nasce um pouco estressado”, comenta. Ele discorre que, na fase de 21 dias a três meses, o cão precisa ser apresentado ao maior número de estímulos possíveis, porque é nesse momento que, se ele ouvir um barulho e ficar com medo, dependendo da reação do tutor, ele pode ser traumatizado e depois que fecha a janela de socialização, com três meses de idade, não é mais possível reverter isso.

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Existem alguns tipos de manipulação que o pet precisa
se acosumar antes de uma consulta (Foto: reprodução)

Quando Antônio cita estímulos está se referindo aos auditivos, visuais, olfativos e táteis. “Assim que o animal ouve um barulho novo, em um ambiente novo, as primeiras rações são: começar a latir ou paralisar e olhar para o tutor. Quando olha, está buscando uma referência de comportamento. Se o proprietário fizer algo que demonstre que está com medo, ele vai achar que vai morrer, porque nós, humanos, somos referência para eles. Se o cão interpretar nossa reação como medo, ele também terá”, revela. O tutor também não deve agradar nestes momentos. “Ele pode achar que o dono está com medo também. Então, o melhor nessas situações é ignorar o barulho ou começar a brincar, jogar petisco para ele ver que isso faz parte da vida”, orienta.

Outro fator que o especialista cita como essencial na fase de socialização é a habituação a manipulações diversas. Ele explica que existem alguns tipos de manipulação que precisam ser realizadas em uma consulta, por exemplo, para ver se o cão está com alguma dor ou se tem algum problema articular. “Caso o cão sinta alguma dor, vai pensar que só vai à clínica para sentir dor, então é legal que os donos sejam orientados a realizar essa manipulação em casa: pegar o animal e dobrar as patinhas, mexer na orelha. Orelha é algo complicado, porque a maioria das pessoas deixa para encostar quando o cão está com otite aí ele associa que colocar a mão na orelha causa dor e, mesmo depois do problema tratado, ele vai achar que vai doer. Precisamos acostumar o cão, mostrar que podemos pegar nele, manipular e que isso não causará, necessariamente, a dor”, aconselha.

Desta forma, o filhote deve se acostumar a ter todas as partes do corpo manipuladas. De acordo com o especialista, o tutor deve pegar as patas, massagear, dobrar, esticar, mexer nas unhas, pegar na coluna, como se fosse um exame, mas para o tutor fazer em casa. “O proprietário também deve manipular os dentes. Essas são manipulações que ele terá a vida inteira e que podemos acostumar desde filhote para não ter experiências negativas”, explana.

A fase crítica da socialização parte para outra etapa crítica: a das vacinas. Para Antônio, a saída é tentar balancear os riscos. “Foi realizada uma pesquisa nos Estados Unidos que mostra a principal causa de eutanásia em cães: problemas comportamentais, como latido em excesso e agressividade. As pessoas não são capazes de lidar com isso na fase de socialização, o animal cresce e levam para a eutanásia. Por isso sempre pergunto o que vale mais a pena: apresentar o animal para outros cães para que sejam socializados ou deixar ele crescer com problemas e abandonar, por exemplo? Temos que colocar isso na balança”, analisa.

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