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Tutor de aves deve estar atento a possibilidade de contrair Psitacose

Zoonose é confundida com gripe. Manejo é a melhor maneira de prevenção

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Muitos desconhecem, mas, com sintomas que podem ser inespecíficos, a psitacose é uma doença que há muito tempo passa despercebida dos diagnósticos e é, frequentemente, confundida por uma gripe. No entanto, uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP, São Paulo/SP), em parceria com o Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER, São Paulo/SP), analisou pacientes suspeitos da doença e registrou que 27% deles eram soropositivos para a bactéria Chlamydia psittaci. Leia mais sobre a contaminação neste link.

Desses casos, 100% tinham algum contato com aves, seja em casa ou no trabalho. Isso porque a psitacose é, também, uma zoonose, ou seja, uma doença que acomete tanto animais quanto humanos. Nas aves, a C. psittaci pode levar a desenvolver a clamidiose aviária, embora também seja comum que elas sejam portadoras da bactéria sem apresentar sintomas.

Quanto antes a doença for diagnosticada, mais cedo será realizado o tratamento específico, sempre a critério do médico responsável pelo paciente humano. Além disso, mais cedo também poderá ser realizada uma investigação epidemiológica para detectar e tratar a fonte de infecção (a ave infectada) e evitar que outras pessoas adquiram a doença, de acordo com a médica-veterinária doutora FMVZ-USP, Vivian Lindmayer Ferreira Cisi. “Nesse sentido a atuação em conjunto do médico e do veterinário é essencial”, frisa.

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Antibióticoterapia pode interferir de forma
negativa nos testes diagnósticos da
clamidiose aviária (Foto: reprodução)

Vivian cita que cabe ao médico-veterinário, além de avaliar, pesquisar e tratar a ave doente, orientar o proprietário sobre o manejo correto de seu animal de estimação, assim como alertá-lo sobre zoonoses, como a psitacose, e, se necessário, a procurar um médico caso sua ave esteja infectada pela bactéria. “Ressalto que o manejo adequado é essencial para a manutenção de uma ave saudável, isso inclui levar a ave regularmente ao médico-veterinário (pelo menos uma vez ao ano), evitar fatores de estresse, como, por exemplo, aglomeração de aves e mudanças bruscas na temperatura. Ainda, fornecer uma alimentação saudável e balanceada, manter a gaiola e os utensílios sempre limpos e nunca fornecer medicamentos sem a recomendação de um profissional”, enumera. Vivian também afirma que é importante que uma ave recém-adquirida seja testada para a presença da bactéria antes de ser introduzida no local.

Uma das principais dificuldades ao longo do desenvolvimento do trabalho, segundo Vivian, foi obter material das aves para a pesquisa. “Muitas vezes, quando o proprietário procurava auxílio médico, sua ave de estimação já havia ido a óbito e sido descartada ou, ainda, recebido antibióticoterapia sem orientação de um veterinário. A antibióticoterapia pode interferir de forma negativa nos testes diagnósticos da clamidiose aviária, portanto o material da ave para diagnóstico deve ser coletado antes do início do tratamento”, sinaliza. Outra situação descrita pela profissional ocorreu nos casos de aves portadoras assintomáticas: “Alguns proprietários não permitiram que suas aves fossem testadas por não acreditarem que estivessem infectadas pela bactéria. Nesse sentido, o trabalho de educação sobre zoonoses foi muito importante para melhor compreensão da doença”, insere.

Como medida de prevenção, a médica-veterinária alerta para o manejo correto desses animais. “Manter boas práticas de manejo é a melhor forma de prevenir a doença. Ainda tomar algumas medidas como trocar o forro das gaiolas das aves com frequência, tomando o cuidado de umedecê-lo ou usar uma máscara de proteção durante esse processo, evita a inalação do pó de excretas ressecadas”, menciona. Outras recomendações incluem a realização de exames nas aves antes de incluí-la ao lar ou a um grupo já estabelecido de animais. A pesquisadora traz o conceito de Saúde Única, que engloba a saúde animal, humana e ambiental, para explicar esses cuidados: “Precisamos ter um olhar abrangente, não uma visão linear, que recai apenas sobre aquele hospedeiro, mas, sim, sobre todo o ambiente e os envolvidos no contato com aquele animal”, argumenta.

Vivian também acha válido lembrar que o Brasil possui o segundo maior mercado pet no mundo, segundo dados Associação Brasileira da Indústria de Produtos de Animais de Estimação (Abinpet, São Paulo/SP), e estima-se que 37.9 milhões de aves sejam mantidas como animais de estimação no País. “No entanto, ainda são poucos os proprietários que levam suas aves para serem avaliadas por um médico-veterinário, prática importante tanto para a saúde da ave como para a do tutor. Nos Estados Unidos apenas 12% dos proprietários o fazem, no Brasil não temos esses dados. Além disso, a legislação sanitária, no que tange a criação e comercialização de aves de estimação, ainda é precária. Dessa forma, ainda há muito a ser feito para melhorar a manutenção sanitária desses animais, seja para o bem-estar destas aves assim como para a não transmissão de doenças para outros animais e/ou proprietários”, finaliza.

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