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Veterinários apontam o limite do atendimento a distância para pets

A praticidade para tutores pode ser um “tiro no pé” para profissionais

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Já é comprovado que bom atendimento e relacionamento com o tutor de animais de companhia é a chave para o sucesso do médico-veterinário. Porém, pode surgir um problema quando este cliente começa a ultrapassar barreiras e espera que o profissional também faça o mesmo. O atendimento a distância, muito comentado pela facilidade que a internet oferece hoje em dia, pode prejudicar o clínico e, acima de tudo, ser um agravante para a saúde do animal.

O médico-veterinário de Animais Silvestres, Lucas Santos Amaral, acredita que todo e qualquer atendimento veterinário deve ser feito presencialmente. “Independentemente da ‘simplicidade’ da doença ou estado clínico do animal, outras complicações podem ser encontradas em uma palpação ou auscultação, por exemplo, o que pode alterar totalmente o protocolo a ser utilizado, abordagem do paciente e prognóstico do animal”, aponta.

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Orientações referentes a comportamento, alimentação e
dicas de bem-estar são mais indicados em
atendimento a distância (Foto: reprodução)

O médico-veterinário, Fabiano Oliveira, também afirma que, como na Medicina Humana, também na Medicina Veterinária é imprescindível que as consultas contem com a presença física do paciente. “Isso porque para o mesmo sintoma existe uma gama de patologias. Por essa razão, é necessário uma boa anamnese (que inclui uma conversa com o tutor e o histórico do animal), exames físicos (palpação, auscultação, avaliação de mucosas, mensuração de temperatura, entre outros) e, se necessário, exames complementares. Para Oliveira nada substitui a presença física do paciente junto ao seu tutor em uma consulta. “Uma orientação dada por meio de Facebook, Whatsapp ou outra mídia social seria muito superficial, contando apenas com o relato leigo e suposições do tutor”, adiciona.

O que Amaral pensa ser necessário são as orientações emergenciais para um animal em estado crítico até a chegada do mesmo na clínica. “Claro, orientar com muita cautela e segurança sobre os conteúdos passados, pois caso o animal não resista, todas as informações passadas poderão ser utilizadas contra o profissional”, alerta. Outro fator a ser considerado, na visão dele, são as orientações gerais sobre manejo para prevenção de doenças, que, em sua concepção, não há problema em serem passadas por meio de redes sociais. Oliveira também acredita que nada impede, de uma forma generalizada, o médico-veterinário de sanar dúvidas e orientar os tutores quanto a assuntos referentes a comportamento, alimentação, dicas de bem-estar, entre outros assuntos genéricos.

Sobre casos de envio de imagens de receitas ou remédios, o veterinário julga que, desde que o animal tenha sido previamente avaliado presencialmente, em uma consulta, não há problema. “Este é um documento destinado ao proprietário, sendo indiferente o meio em que chegará ao mesmo”, adiciona. Oliveira também não vê problemas em envios após a consulta, porém chama atenção para um fator: “As redes sociais se tornam um bom aliado ao tratamento, porém, atualmente, os tutores tendem a distorcer e querer substituir a consulta por ‘uma olhadinha’, solicitando prescrições de medicamentos e tratamentos on-line”.

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Profissional afirma que há grandes chances
de um diagnóstico errôneo nesse tipo
de atendimento (Foto: divulgação)

Demanda crescente. Esse apelo de tutores está se tornando cada vez mais frequente, segundo Oliveira, pois os mesmos procuram se isentar do valor da consulta com essa prática, porém a maioria dos veterinários busca inibir essa tendência. “A melhor maneira é conscientizar os proprietários da precariedade de um atendimento via rede social, não por questões financeiras, mas, sim, pelo comprometimento à saúde do animal com grandes chances de um diagnóstico errôneo”, expõe. Amaral também conta que, infelizmente, a procura por esse tipo de “consulta” é muito alta, seja pela distância do proprietário ou pelo custo da consulta presencial. “Um aspecto muito interessante a ser mencionado é a abordagem do proprietário que sempre é de forma vitimizada e apelativa para nossa comoção. Todo o veterinário precisa aprender a lidar com esse tipo de situação”, destaca.

Apesar disso, o especialista em animais silvestres afirma que, em alguns casos, é possível disponibilizar algumas informações a distância. “Podemos passar em certas situações de instrução de manejo e conduta com o animal. O organismo de qualquer pet é muito complexo para nos basearmos apenas em informações fornecidas pelo proprietário leigo e que, em muitos casos, distorce a realidade dos fatos. Avaliar presencialmente o paciente é indispensável para qualquer atendimento clinico”, atesta.

Aprendendo a dizer não. Para não chatear o cliente, Amaral dá algumas dicas de como transmitir a ideia de que uma consulta presencial é a melhor forma de observação do animal. “É preciso explicar que não é possível a avaliação plena do animal a distância, sem nenhum tipo de exame semiológico ou complementar. Também é importante expor os inúmeros riscos de prescrever uma medicação sem saber os mínimos detalhes do estado do animal. E por fim, sempre utilizo do fato de ser uma atividade ilegal perante nosso órgão normativo. Essa abordagem completa faz com que o proprietário entenda um pouco da complexidade de um atendimento clínico e não julgue o profissional por estar agindo de forma ética”, menciona.

Sobre isso, Oliveira ainda destaca o papel do médico-veterinário em ter “tato” para saber abordar o cliente de uma forma que o mesmo entenda a importância da consulta convencional, como parte fundamental para um diagnóstico preciso, visando exclusivamente a saúde e o bem-estar do animal.

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Para veterinário quem atua dessa maneira age de
forma antiética e irresponsável com a
vida do animal (Foto: divulgação)

Para Amaral, assim como o tão julgado estudo a distância para Medicina Veterinária, no atendimento clínico valem-se as mesmas regras. “É impossível entendermos o estado geral de um animal, sabermos como está o hemograma e bioquímico, a necessidade de uma fluidoterapia, aspectos cardiológicos, doenças associadas, entre outros fatores, sem ter o animal em nossa avaliação presencial. Por esses e inúmeros outros fatores, quem atua como médico-veterinário e realiza atendimento a distância está agindo de forma antiética e irresponsável com a vida do animal”, critica.

A utilização de redes sociais como ferramenta de apoio, na concepção de Oliveira, pode oferecer benefícios e proximidade entre o tutor e o médico-veterinário. “Isso, uma vez que seja focado na saúde do animal, como o feedback da evolução do tratamento, entre outros assuntos pertinentes, sendo uma complementação a uma consulta convencional já realizada”, finaliza.

Atenção redobrada. O advogado Giuliano Miotto destaca tipos de mau uso da internet na hora do atendimento de pacientes. Além de evitar indicação de medicamentos por mensagens, o profissional frisa que é importante prestar atenção em tudo que responder ao cliente, já que a pessoa pode pegar frases sem contexto e tentar prejudicar o veterinário em uma ação judicial. Na visão de Miotto, são pequenas atitudes e levar em conta a necessidade de se ter cuidado com o que se escreve e como se interage com os clientes, podem evitar problemas futuros com clientes.

Como esclarecido pela assessoria de imprensa do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV, Brasília/DF), toda essa questão é abordada claramente no Código de Ética, tanto na versão antiga como na nova. O Art. nº 8, item XV diz que é vedado ao médico-veterinário receitar sem prévio exame clínico do paciente. O Conselho também destaca o Art. nº 9, que diz que o profissional será responsabilizado pelos atos que, no exercício da profissão, praticar com dolo ou culpa, respondendo civil e penalmente pelas infrações éticas e ações que venham a causar dano ao paciente ou ao cliente, principalmente se atribuir seus erros a terceiros e a circunstâncias ocasionais que possam ser evitadas, mesmo quando solicitadas pelo cliente.

O presidente do Conselho, Benedito Fortes de Arruda, afirma em artigo publicado no site do CFMV, que também é preciso ficar atento para a confiabilidade de vídeos, podcasts e outros meios que podem ser utilizados para divulgar informações que pertencem ao consultório. Esses casos estão previstos na Resolução CFMV nº 780, que estabelece critérios para a publicidade no âmbito da Medicina Veterinária e que proíbe consultas, diagnóstico ou prescrição de tratamentos por meio de veículos de comunicação de massa.

Vale lembrar que o médico-veterinário que descumprir o Código de Ética está sujeito a sofrer um processo ético-profissional.

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