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Veterinários de exóticos apontam as peculiaridades das espécies

Tutores devem estar atentos à boa alimentação e manejo desses pets

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Nem só de latido e miado se faz um animal de estimação. Suas peculiaridades, instintos e aparências se apresentam de formas diferentes. Com pelos ou escamas, com pele ou penas, a função do pet é única: tornar o cotidiano do proprietário mais feliz e receber a atenção e cuidados que ele merece. No entanto, a vida selvagem ainda pode ser uma incógnita para muitas pessoas e isso vai influenciar no dia a dia destes animais em cativeiro.

A primeira indicação, quando alguém adquire um pet não convencional, é procurar o auxílio de um profissional capacitado a fim de especular sobre suas características e cuidados. Como comenta o médico-veterinário e sócio proprietário da Animal Inc Clínica Veterinária (Sorocaba/SP), Enore Augusto Massoni, os animais exóticos possuem particularidades fisiológicas, nutricionais e de manejo que exigem atenção específica para cada espécie. “Apenas um veterinário de animais exóticos pode conduzir uma avaliação clínica e terapêutica de qualidade, levando em conta os conhecimentos básicos necessários e as patologias específicas”, aponta.

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Tumores de mama e piometra também são bastante
recorrentes em ratos (Foto: C&G VF)

Escolhas. O médico-veterinário responsável pelo Parque Zoológico de Sorocaba e pela Clínica Veterinária Iguatemi (Sorocaba/SP), André Luiz Mota da Costa, entra no debate e salienta que, primeiramente, é preciso entender os perfis de pessoas que procuram por pets exóticos. “Existem os que gostam de coisas diferentes, já possuem cães e gatos e, ainda assim, querem algo incomum ou existem aqueles que querem ter um animal de estimação, mas não possuem tempo e espaço para um cão, por exemplo. Daí a escolha, já que alguns desses animais não convencionais não requerem tanta atenção, carinho, alimentação diária, entre outros fatores”, assinala.

Alguns tutores, leigos, desconhecem que os mesmos cuidados que têm com cães e gatos não serão repassados aos animais exóticos. Segundo Massoni, a primeira diferença é que cães e gatos são animais domésticos, ou seja, espécies exclusivamente criadas para serem mantidas como pets, enquanto lagartos e cobras, por exemplo, são considerados animais silvestres, porém mantidos como pets. “Seguindo esse fato, a segunda diferença é a grande disponibilidade de protocolos terapêuticos e exames existentes para cães e gatos, em comparação aos animais não convencionais, onde ainda estão sendo estudados e estabelecidos protocolos, o que, às vezes, dificulta diagnósticos precisos”, adiciona.

A falta de conhecimento sobre as espécies também é mencionada por Costa, que aponta o grande número de consultas apenas porque o proprietário identificou um comportamento diferente do animal como o princípio de uma enfermidade. “É comum, com as serpentes, os tutores chegarem preocupados dizendo que os olhos do animal estão esbranquiçados, achando que pode ser sinal de catarata. Mas, o que eles não sabem, é que isso é considerado normal na fase de troca de pele”, exemplifica.

Outra diferença importante, citada pelo profissional, é que cães e gatos são mamíferos, enquanto répteis, por exemplo, têm a fisiologia completamente alterada, bem como a alimentação, hábitos e manejo. “Estes possuem um metabolismo diferenciado e exigem atenção e cuidados específicos com relação à temperatura”, expõe.

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Enore Massoni é especialista em atendimentos
de animais exóticos (Foto: divulgação)

Os animais exóticos, segundo Costa, escondem com mais facilidade as doenças do que pets convencionais, por conta do instinto asselvajado. “Na natureza, os predadores observam os ninhos ou bando de determinadas espécies para diferenciar os mais espertos e os que estão mais vulneráveis para, então, atacá-los. Assim, os pets desenvolvem a aptidão de esconder sintomas negativos para parecerem fortes”, explana.

Atenção, profissional. Segundo Massoni, o maior erro cometido durante o atendimento destes animais é na elaboração da dieta. “Pode-se dizer que o clínico de silvestres é um nutricionista em potencial, onde é preciso saber, exatamente, a dieta na natureza para simular em cativeiro o mais aproximado possível”, destaca. Outro erro é realizar o suporte veterinário, mas não oferecer um manejo adequado à espécie. “No caso dos répteis por exemplo, mesmo que o animal seja medicado corretamente, se não for mantido sob a temperatura ideal, não irá resolver, pois o metabolismo não funcionará corretamente”, completa.

A realização de exames laboratoriais sem o conhecimento prévio da fisiologia do pet também pode trazer problemas, pois os valores hematológicos, bioquímicos e formas de coleta se diferem muito. “Além disso, deve-se levar em consideração a quantidade que pode ser colhida com segurança, que é em torno de 1% do peso corporal dos animais”, frisa. Outro fator importante e pouco comentado é mencionado pelo profissional: “Deve-se atentar ao bem-estar desses animais durante o exame clínico, algumas espécies podem se estressar e até vir a óbito pelo simples fato do clínico estar usando um jaleco branco, sendo recomendado o uso de tons mais discretos, se assemelhando com as cores da natureza”, revela.

Portanto, Massoni sublinha que os profissionais devem ter em mente que associar similaridades da clínica de pequenos animais é um erro grave, pois conduz tratamentos equivocados e não leva em consideração as particularidades de cada espécie. “Já aconteceu um caso onde um jabuti passou por um procedimento de lavagem estomacal, totalmente desnecessário, pois o clínico observou pedriscos em seu estômago, por meio do exame de imagem. Mas, isso é algo considerado normal, sendo que esses animais ingerem esses pedriscos para auxiliar na digestão”, narra.

Na visão de Costa, a Medicina Veterinária é ampla e qualquer veterinário pode atender qualquer animal. Quem tem especialização e vasta experiência não vai cometer nenhum erro no atendimento, acredita o profissional. “No entanto, a variedade de animais é tão grande que todo dia é possível aprender coisas novas. É impossível alguém saber tudo. Mas é comum alguns clínicos que estão iniciando suas carreiras cometerem erros, que eu mesmo já cometi quando comecei a trabalhar com essas espécies, e esses equívocos, geralmente, estão associados a essas diferenças de biologia, de comportamento, de alimentação”, indica.

Costa lembra do caso de um pássaro que sofria convulsões e, na consulta, ele checou a alimentação da ave, que ingeria, exclusivamente, um tipo de semente. “As convulsões eram por conta de um déficit de vitamina, principalmente a B1, fundamental para a manutenção do sistema nervoso central e, por essa deficiência, ele estava tendo as convulsões. Realizei a correção na dieta e o bicho nunca mais teve esse problema. Portanto, quem está começando a atuar na área é essencial conhecer o básico da biologia do animal, senão não consegue tratar”, aconselha.

Ocorrências de praxe. Os problemas mais comuns na rotina clínica de animais de estimação não convencionais são relacionados ao manejo. Há muitos pets subnutridos por conta de dieta e ambiente inadequada inadequados. “No caso dos mamíferos, como ratos, coelhos e hamsters, por exemplo, muitos chegam com problemas relacionados ao sistema reprodutivo, como tumores de mama e hiperplasia endometrial cística (piometra), afecção comum em cães e gatos que poucas pessoas sabem que também acometem outras espécies. Não podemos esquecer, também, os acidentes que acabam gerando traumas, já que, na maioria das vezes, são pets pequenos e há ocorrência de pisões acidentais que podem acarretar em idas ao veterinário”, elenca. De acordo com Massoni, doenças infecciosas ocorrem com pouca frequência, principalmente se os animais forem provenientes de criadouros comerciais.

O campeão de casuística na clínica de Costa, entre as aves, é a calopsita com problemas respiratórios, principalmente, sinusites e distúrbios nutricionais, relacionados a excesso de gordura na dieta. Dentre os répteis, os mais comuns são os jabutis e a tartaruga tigre d’agua, com problemas respiratórios, muitas vezes associado com uma dieta errada também. “Entre os mamíferos, o coelho é o bicho que mais me visita, com problemas dentários, por uma série de motivos, e de dieta com baixa fibra e excesso de rações. No caso desses animais, sempre pedimos equilíbrio entre verduras e rações, assim como os cavalos”, ressalta.

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André da Costa é responsável pelo zoológico de Sorocaba
e pela Clínica Veterinária Iguatemi (Foto: C&G VF)

Alimentação e consequências. Como frisado pelo profissional, para os diferentes animais, existem as diferentes dietas. “Para alguns é preciso oferecer a presa inteira, como é o caso das cobras e das corujas, mas esse alimento tem todos os nutrientes que ele precisa. Outros animais, como jabuti e coelho, já podem desfrutar de fórmulas excelentes que são alimento completo ou boa fonte de vitaminas, sais minerais, proteínas, carboidratos e gorduras e, nesses casos, oriento a adição de alguns alimentos in natura na nutrição do pet”, elucida.

Os papagaios consomem muitas sementes, principalmente de girassol, que é excessivamente gordurosa e fazem mal para a saúde do animal. De acordo com Costa, até mesmo a expectativa de vida, que deve viver de 40 a 60 anos, é abalada por esse motivo, sendo reduzida para, no máximo, 20 anos. “A falta de alimentos complementares também pode causar problemas psicológicos ou até psiquiátricos nesses pets. É importante deixar uma verdura para ele ter uma distração e o dia não ser tão monótono só comendo ração e bebendo água. A alimentação, além de servir como um componente nutricional, serve como componente psicológico”, sinaliza.

Já animais que possuem hábitos de caça, como a cobra, têm a opção de receber alimentos vivos, porém, como Costa destaca, o tutor deve pensar muito bem antes de oferecer a presa nessa condição. “Dando um camundongo para a serpente, ele pode se defender mordendo a cobra e, ao mesmo tempo, também existe a questão do bem-estar animal. Quando a cobra for se alimentar e fazer a constrição para o bicho morrer, ele vai ter ‘uma morte humana?’”, questiona o profissional que orienta servir os alimentos mortos, com algumas exceções. “Alguns deles necessitam de uma atividade, senão passa a ter algum problema como obesidade, porque não fazem atividade nenhuma, ou transtornos psicológicos. Então, temos que colocar na balança e ponderar cada uma das situações”, argumenta.

Posse responsável. Orientações de cunho legislativo ou de saúde devem ser repassadas aos tutores por um médico-veterinário no momento da adoção de um pet exótico. “O tutor deve respeitar o bem-estar animal, proporcionando a alimentação adequada à espécie, onde pode encontrar rações balanceadas e somar à oferta de alimentos que faria parte da dieta do animal na natureza”, salienta Massoni, que também frisa que, como em qualquer área, precisa-se de estudo e atualização constante e de profissionais corajosos, dispostos a descobrir e ajudar a melhorar esse mundo exótico.

Também é comum as pessoas socorrerem animais selvagens acidentados, como citado por Costa. “O exemplo que tenho é de uma coruja que caiu do ninho, a mulher começou a cuidar em casa, oferecendo, como alimentação, frutas. A coruja não vai comer mesmo e, se não procurar um veterinário rapidamente, o animal falece. Mas, infelizmente, ainda com vários meios de comunicação e informação que temos hoje, as pessoas cometem muitos erros de manejo, principalmente nutricionais”, nota.

O momento de decidir qual animal será adotado requer cuidado e avaliação de todas as possibilidades e imprevistos da vida, que não devem afetar os cuidados com os pets, de acordo com Costa. É necessário considerar a expectativa de vida do animal, se será possível cuidá-lo por toda a sua vida, entre outros itens. O futuro tutor deve buscar informações sobre suas necessidades básicas e, aí sim, escolher, de acordo com a disponibilidade da família. “A posse responsável também envolve os animais não convencionais. As pessoas devem procurar um profissional capacitado para passar informações e não se basear apenas no que lê na internet ou no lojista que vende o animal. É importante essa busca, porque quem vai pagar o preço de uma escolha errada é o próprio animal”, conclui.

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