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Veterinários devem estar atentos às causas de aborto em fêmeas

Além disso, podem haver relatos de natimorto e morte neonatal

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Os animais de estimação merecem cuidados em todas as fases da vida, mas as fêmeas prenhas precisam de ainda mais atenção, pois alguns fatores podem interromper a gravidez ou a evolução e sobrevida dos filhotes e, ainda, acarretar em problemas de saúde para a mãe.

“Aborto é uma descontinuação da prenhez ou da gestação da qual resulta a morte do feto, com ou sem a sua expulsão”. Essa explicação é da médica-veterinária e professora da Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade Federal de Goiás (EVZ-UFG, Goiânia/GO), Kellen de Souza Oliveira. Ela ainda revela que existem três eventos importantes durante a gestação de cadelas e gatas: “Quando o novo indivíduo é considerado como ovo ou zigoto (da fertilização até sua implantação), onde, no felino, ocorre aos 12 dias e, no cão, aos 17 dias. Depois da implantação, chamamos de embrião, até sua completa organogenese, ou seja, formação dos órgãos. No felino, é por volta de 24 dias e no cão 35 dias da gestação. E, a partir desse período até o nascimento, chama-se feto”, discorre.

Além do aborto, pode haver casos de natimorto, que, como explicado por Kellen, é qualquer indivíduo que já nasce morto, incluindo filhotes mumificados e fetos totalmente desenvolvidos que morreram antes do nascimento. “Também há a morte neonatal, quando o filhote nasce vivo e morre no período denominado neonato. Ela pode ser precoce, com o animal morrendo nos primeiros sete dias pós-nascimento, e tardia, entre o oitavo até o 42º dia”, aponta.

cadela
Abortos trazem prejuízo à saúde dos filhotes e da mãe
podem ocorrer por causas infecciosas e
não-infecciosas (Foto: reprodução)

Após passar as definições dos termos empregados no assunto, Kellen cita as principais causas de aborto, natimorto e morte neonatal e afirma que existem duas etiologias: infecciosas e não-infecciosas. A primeira opção engloba doenças bacterianas e a Brucelose é comumente diagnosticada em cães. “Sua forma de transmissão é por inalação e via oral (alimentos e água contaminados) e, ainda, pelo contato sexual. Afeta, principalmente, pets que vivem em canis perto de fazendas, que convivem com animais de produção”, declara. A bactéria, segundo a veterinária, se aloja na próstata, testículo, epidídimo e útero e os sinais clínicos são: orquite e epididimite, inflamação no trato genital masculino, infertilidade e aborto entre 30 e 57 dias de gestação. “Entre 10 e 20 dias, pode ocorrer reabsorção embrionária e há risco do animal morrer logo após o nascimento”, frisa.

Estreptococos é a segunda maior causa de aborto em alguns países. “No Brasil, quase não ouvimos esses relatos, mas os sinais são descarga vaginal, infertilidade, aborto, morte neonatal, mastite, vaginite, placentite, febre, anorexia e apatia”, elenca. Leptospirose também resulta em aborto, natimorto e icterícia. “Por aqui, a doença é bem controlada, principalmente porque as pessoas costumam vacinar os animais”, salienta. Outra bactéria citada pela profissional é a salmonela, que, ultimamente, se tornou comum pelo fato de alguns tutores oferecerem alimentação natural crua ao pet. “Ela causa aborto, natimorto, morte neonatal, prostatite e epididimite”, insere.

E nos gatos? Existem doenças, principalmente retroviroses e a panleucopenia felina, que acarretam em aborto e morte neonatal nos felinos. “Ocorre diarreia e diminuição de produção de células de defesa. O vírus fica localizado nas tripas intestinais, útero e fetos e os sintomas, nas mães infectadas, dependem da época de infecção. No início da gravidez, pode ocorrer infertilidade e reabsorção fetal; no meio da prenhez, ocorre aborto ou mumificação fetal; na fase de gestação avançada, pode acontecer alterações cerebrais, nervo ótico e de retina no filhote”, explica e ainda menciona que, caso a infecção seja pós-parto podem ocorrer desordens neurológicas, como tremores, incoordenação motora, convulsão, degeneração da retina e enterite. “Em fase de tratamento, os animais devem estar isolados, pois trata-se de uma doença contagiosa”, adiciona.

Entre as retroviroses mais conhecidas, estão a FIV (Vírus da Imunodeficiência Felina) e FeLV (Vírus da Leucemia Felina). A primeira possui transmissão horizontal (por meio da saliva) e vertical, que pode ser transplacentária, como contato com secreção genital no momento do parto, colostro e o leite. “Os sinais clínicos gerais, na fase aguda, são: letargia, febre, anorexia e linfadenopatia. Já na fase crônica há gengivoestomatite, rinite, enterite, perda de peso, entre outros. Nas fêmeas adultas pode ocorrer infertilidade e, se ela já tiver gestante, aborto, natimorto e morte neonatal, principalmente pelo baixo peso do filhote ao nascer”, conta. Já no caso da FeLV, as formas de transmissão são as mesmas (horizontal e vertical) e os sintomas são: infecções virais e bacterianas secundárias, neoplasias nas fêmeas gestantes, reabsorção fetal, aborto, morte neonatal e endometrite. Além dessas causas, parasitas (como vermes) também podem interromper a gestação, de acordo com Kellen.

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Kellen é professora da Escola de Medicina
Veterinária e Zootecnia, da Universidade Federal
de Goiás (Foto: C&G VF)

Outros motivos. Depois disso, partimos para as causas não-infecciosas, que contam com hipotermia, hipoglicemia, sistema imunológico deficiente e função renal desequilibrada. “Outra possível ocorrência é a Síndrome do Feto Definhante, quando existe uma resposta fraca de secção desde o primeiro ou segundo dia de vida. Esse bebê é inquieto, chora incessantemente, faz movimento de pedalada e, na maioria das vezes, acaba morrendo”, explana.

O peso ao nascer também tem forte influência sobre a vida ou a morte da cria. “Animais de pequeno porte precisam nascer com cerca de 80 a 120gr e ganhar, por dia, de 14 a 28gr. Por isso, até as duas semanas de vida, o filhote deve ser pesado duas vezes ao dia: de manhã e à tarde”, destaca. Os de médio porte devem pesar 240gr, com ganho de peso de 28 a 42gr por dia; de grande porte 480gr e gigante 700gr no nascimento. “Gatos são mais susceptíveis a perder peso. Por isso, um felino que nasce com menos de 100gr possui poucas chances de sobrevivência”, reforça.

Assistência às mães. Durante a gravidez, os medicamentos são divididos em categorias, sendo do tipo A (seguro), B (seguro), C D e E (de risco) para as fêmeas durante a gestação, segundo a veterinária. “Alguns fatores maternos também podem atrapalhar a prenhez, entre eles, a idade da fêmea para a reprodução, sendo que, nas cadelas, consideramos de 2 a 7 anos e, para gatas, de 1 ano e meio a 7 anos. As muito jovens podem ter pouca habilidade materna e muito idosas têm predisposição a infecções. Alterações uterinas e de glândula mamária também podem provocar aborto”, lista.

Além disso, Kellen relata que o comportamento materno da mãe é muito importante na hora da reprodução: “As que não possuem esse instinto maternal não devem ser colocadas para reprodução e nem aquelas com excesso de habilidade materna, porque estas cometem canibalismo”, expõe. Por fim, problemas como distocias, incapacidade ou dificuldade da ocorrência de parto normal, podem ser prejudiciais. “Algumas raças são mais predispostas, os braquicefálicos, principalmente”, finaliza.

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