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Alimento, além do necessário, não é uma forma de demonstração de carinho aos pets

Veterinária que atua na área da endocrinologia destaca os cuidados e o manejo com pets obesos

Cláudia Guimarães, em casa

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As decisões tomadas pelo tutor em relação ao manejo de seu pet devido à proximidade e estreita relação é, sem dúvida, a maior causa da obesidade na clínica de pequenos animais. Não sou eu quem afirma, mas, sim, a médica-veterinária atuante da área de endocrinologia de cães e gatos, na Vetso Clínica Popular Veterinária (Sorocaba/SP), Samanta Chibau Mileze Prata.

A profissional menciona que, além do vínculo e da demonstração de carinho ao oferecer o alimento ou petisco extra, os tutores podem estar absorvendo informações equivocadas relacionadas à alimentação animal, que são divulgadas em meios de comunicação como a internet, e podem estar contribuindo com a alta prevalência da doença.

A médica-veterinária Samanta Chibau Mileze Prata atua na área de endocrinologia veterinária (Foto: divulgação)

Samanta explica que o sobrepeso é a condição em que o peso excede o ideal entre 10% e 20%, e a obesidade é a condição onde o peso atual excede em 30% o peso ideal. Esse ganho de peso tem sua origem multifatorial fundada em diversos fatores como: dieta inadequada, predisposição genética, castração, sedentarismo ou baixa mobilidade (seja por decisão do tutor ou restrições patológicas), e também por doenças endócrinas, sendo as mais comuns hiperadrenocorticismo e hipotireoidismo em cães. O uso de glicocorticoides por quaisquer vias de administração também podem exacerbar a fome e consequentemente o ganho de peso se o alimento estiver a disposição”, alerta.

A ingestão demasiada de calorias, chamada de balanço energético positivo, oferta constante de petiscos – petfood ou alimentos humanos – somada a um baixo nível de exercício físico, ou seja, de gasto calórico, são as peças chaves na prevalência e no crescente número de atendimentos relacionados à obesidade em cães e gatos, conforme afirma a veterinária. “Os pets podem ser condicionados a manifestarem a polifagia pelo próprio tutor ao longo dos anos e, muitas vezes, se torna difícil para o médico diferenciar a polifagia devido a um possível distúrbio metabólico, de um comportamento que foi erroneamente recompensado”, salienta.

Amor não é comida.

Samanta observa que o ato de alimentar é uma importante demonstração de afeto e de criação de laços, tanto na espécie humana, como em muitas outras espécies animais. “Alimentar os filhos, desde bebês indefesos, até seu completo desenvolvimento, é um prazer incrível e ilimitado que as mães e pais humanos usufruem. Ao oferecer o alimento, têm-se a formação de um estreito vínculo, que vai muito além de provedor-receptor, e acaba por surgir algo chamado amor. Nossa sociedade foi se aproximando de cães e gatos e a humanização desses animais passou a ser normalizada de forma preocupante. Uma dessas consequências é a vontade do tutor de oferecer petiscos humanos para o pet ou, até mesmo, fazer dietas caseiras sem orientação veterinária”, analisa.

contra a obesidade
Petiscos tradicionais podem ser substituídos por funcionais ou, então, por vegetais que apresentam baixa densidade calórica (Foto: reprodução)

Como exemplificado pela profissional, quantas vezes os veterinários não recebem relatos de tutores contando que, antes de dormir, é a hora dos cães ganharem pão francês, bolacha maisena ou as sobras da janta? “É o momento de troca de afeto entre as espécies, o tutor se enche de satisfação ao ver seu cão comendo feliz e abanando o rabo. Sendo assim, como poderíamos, durante a consulta, simplesmente dizer ‘senhor(a), vai ter que suspender o pão para sempre, certo?’. Não, não vai funcionar”, pondera.

Com isso em mente, Samanta defende que é imprescindível que o médico-veterinário se coloque em posição de acolhimento e não de julgamento. “Nossa função não é somente readequar peso, escore corporal e massa muscular, mas, sim, reestruturar o pensamento do responsável pelo paciente, pois se este não confiar em nossas palavras de orientação, nenhum desses objetivos será concluído”, argumenta.

Para ela, os veterinários devem relatar ao tutor as informações e consequências da obesidade, utilizando sempre o embasamento científico como justificativa para o tratamento. “A utilização de palavras não éticas pode soar ofensivo e prejudicar a credibilidade. A postura do profissional deve ser a mesma utilizada perante outra doença crônica importante e deve ser tratada com a mesma seriedade. Isso será, imediatamente, transmitido ao tutor”, indica.

Conduta médica.

Samanta orienta os colegas a utilizarem ferramentas visuais, inserindo o tutor na condução da consulta, como, por exemplo, demonstrando os nove escores de condição corporal e perguntando sua opinião ou até fazendo referências com a condição em pessoas. “Isso porque muitos tutores simplesmente não fazem ideia de que o seu pet está acima do peso, pois nunca foram previamente orientados sobre isso”, expõe.

Retorno e reavaliações periódicas próximas são imprescindíveis, na visão da profissional. “Parabenizar o tutor e o seu pet pelas conquistas faz o mesmo perceber que o veterinário está ali como um aliado na saúde do pet tão querido”, sugere.

Já na condição de prevenção da doença, para Samanta, a firmeza na orientação dietética deve ser instituída desde filhotes, deixando claro a importância de o veterinário acompanhar periodicamente e orientar sobre quaisquer mudanças durante toda a vida do animal. “Dessa forma, o tutor, adequadamente orientado na clínica, não aceitará informações de outras fontes que não de seu médico-veterinário”, assegura.

Para a profissional, é imprescindível que o médico-veterinário se coloque em posição de acolhimento e não de julgamento (Foto: reprodução)

Manejo nutricional.

Por conta do acúmulo de gordura nos mais diversos tecidos no organismo causado pela obesidade, os animais de companhia podem estar predispostos a formação de aterosclerose e hipertensão, lesão renal, trombose, resistência insulínica, inflamação local ou generalizada. “A obesidade também pode acarretar em hiperlipidemia e, se associada a alguma doença hormonal, piorar ainda mais suas consequências. O aumento de triglicérides e/ou colesterol predispõem a pancreatite, esteatose hepática, colestase biliar, alteração na perfusão sanguínea e em alguns casos, até convulsão.

Além disso, a profissional ainda menciona baixa imunidade, alterações dermatológicas, cistites recorrentes, maior risco anestésico como alguns dos riscos que também devem ser alertados ao tutor e estão, frequentemente, presentes nos atendimentos de rotina.

Ademais, o paciente em sobrepeso ou obeso tem sua mobilidade reduzida, se torna letárgico, podendo apresentar até dores. “Esses incômodos passam silenciosos ao olhar do tutor e o fato de, muitas vezes, passarem anos dentro desta condição, os animais acabam sendo acometidos por quadros de ansiedade e distúrbios comportamentais”, sublinha.

Para evitar todos esses problemas nos pets, Samanta mostra que o planejamento dietético para o reajuste de escore corporal conta com a restrição calórica, fornecimento maior de fibras para saciedade e baixa gordura. “Por isso, não basta diminuir a quantidade oferecida de qualquer alimento, sendo imprescindível a utilização das apresentações comerciais coadjuvantes para prover todos os nutrientes essenciais. Se for caso de dieta caseira, um veterinário nutrólogo é o profissional apto a fazer esta formulação. O uso de nutracêuticos estratégicos na perda de peso também pode ser utilizado e exemplos, amplamente conhecidos e interessantes são o EPA e o DHA, do ômega-3, e devem ser estritamente prescritos pelo veterinário responsável”, compartilha.

Exercícios físicos também são bem-vindos, como caminhadas e, caso existam limitações osteoarticulares, a hidroesteira pode ser uma opção, como indicado pela profissional. “Em gatos, podemos utilizar prateleiras em paredes, pois, além de enriquecer o ambiente, exigem o movimento, além de promover brincadeiras diárias com o tutor”, adiciona.

O paciente em sobrepeso ou obeso tem sua mobilidade reduzida, se torna letárgico, podendo apresentar até dores (Foto: reprodução)

Aliados na reeducação alimentar.

O controle da ingestão calórica é a peça-chave quando falamos em obesidade, portanto, Samanta afirma que os petiscos tradicionais podem ser substituídos por funcionais ou, então, por vegetais que apresentam baixa densidade calórica e podem ser oferecidos em maior quantidade. “Como exemplo, temos o chuchu, abobrinha, berinjela, couve-flor e brócolis. Dessa forma, não suspendemos o ‘momento do petisco’, que enraíza essa ligação do tutor com seu pet, mas substituímos de forma inteligente”, aconselha.

Dispersers e brinquedos que permitem armazenamento e liberação lenta da ração, ocupam os pets, como lembrado pela profissional, e estimulam o “desafio e conquista” mental. “Além dos recheáveis que podem ser congelados e até refrescar no calor”, aponta.

A utilização de mix-feeding, ou seja, calcular a dieta envolvendo ração seca e ração úmida, pode ajudar na saciedade, segundo Samanta, além de ofertar maior ingestão de água. “Quando for inviável a utilização dos sachês ou latas, hidratar a ração no momento na refeição com água morna, de forma a aumentar seu volume, pode ser agradável e saciar mais facilmente alguns cães”, revela.

Finalizando, Samanta diz que os tutores precisam redirecionar o amor em formas que o pet, realmente, precisa. “Somos responsáveis por cada decisão da vida deles, uma vez que optamos em trazê-los à nossa casa. Eles não são capazes de pedir nada em troca, assim como não saberão pedir ajuda, caso algo esteja errado. Portanto, consultas periódicas ao veterinário, profissional apto a fazer a Medicina Preventiva e a detectar quaisquer alterações na saúde do seu pet, é a melhor forma de demonstrar o mais profundo amor”, defende.

E, em relação aos médicos-veterinários, a profissional acredita que é preciso que todos tenham a consciência de que o estado nutricional do paciente também é um parâmetro vital, tão importante quanto a temperatura, pulso, respiração e dor, e deve-se envolver anamnese e exame físicos detalhados. “Devemos demonstrar ao tutor que a dieta foi calculada e prescrita estritamente para aquele determinado pet por uma razão médica e que informações envolvendo dietas caseiras ou petiscos encontrados na internet podem ser extremamente prejudiciais à saúde”, encerra.

(Foto: C&G VF)

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