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Amor x humanização: veterinária comenta aspectos que englobam os dois temas

A intenção de proteger demais pode provocar reflexos negativos para os animais

Nos últimos anos, o mundo vem passando por transformações e isso também inclui a relação entre pessoas e animais. Atualmente, eles estão vindo cada vez mais para dentro de casa e são considerados, por muitos, como “integrantes da família”. Foi a partir desse estreitamento da relação entre pets e seus tutores que a Medicina Veterinária começou a crescer.

A clínica geral veterinária do Hospital Veterinário Taquaral, em Campinas (SP), Beatriz Ferlin, lembra que, segundo um estudo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), na década de 1960, as famílias brasileiras tinham, em média, seis filhos. “Atualmente, esse número caiu para 1,7. Em contrapartida a essa redução das pessoas, temos um aumento no número de animais por família. Segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), o Brasil tem a quarta maior população de pets do mundo”, menciona.

Para ela, a humanização dos pets tem uma explicação: “Os animais ocupam um lugar especial nas famílias hoje em dia. Passaram do quintal para dentro de casa e em vez de restos de comida, recebem tratamento com uma alimentação balanceada. Passaram a ser muito mais que um bicho de estimação e são considerados como filhos por muitas pessoas”, considera.

Limite é uma linha tênue

O termo humanização, como lembrado pela veterinária, também pode ser classificado como antropomorfismo, que é o ato de atribuir aos animais características e sentimentos humanos. “O problema é que idealizar isso nos animais pode provocar, muitas vezes, a perda do instinto do animal e das suas necessidades básicas. Nesses casos, notamos mudanças de comportamento, como agressividade, ansiedade de separação, medos, manias de fazer as necessidades em lugares impróprios, excesso de latidos, lambeduras psicogênicas, dificuldade de socialização com outros pets e perda de hábitos da espécie”, enumera.

Por tudo isso, Beatriz destaca que é preciso amar os pets de forma saudável, sem permitir que ele esqueça da sua essência. “O tutor precisa liderar, educar e saber dizer não. Hoje, notamos que, muitas vezes, quem domina a relação é o animal”, denuncia.

De acordo com a profissional, é importante salientar que alguns “comportamentos humanos” são saudáveis e não provocam danos à rotina do pet. ‘Nesses casos, podemos citar o uso de roupinhas, ir ao pet shop para realização de tratamentos, dormir na cama, subir no sofá, usar perfumes, fazer festa de aniversário, sair com dog walker (passeador de cães) e participar das atividades da família em locais pet friendly”, elenca.

Os gatos sofrem menos com a humanização devido ao seu comportamento independente (Foto: reprodução)

Em contrapartida, o que o tutor deve evitar é forçar comportamentos que, ao longo do tempo, podem causar danos psicológicos e físicos ao animal. “Nesses excessos se enquadram, por exemplo, as pessoas que colocam seus cães para fazer as refeições sentados à mesa, numa cadeira. Isso não é saudável, pois a anatomia do cão não foi feita para que ele se alimente dessa forma. Com o passar dos anos, o animal pode ter sérios problemas ortopédicos por conta desse hábito”, salienta.

Também não é recomendável que famílias vegetarianas ou veganas tentem impor que seu pet também seja. “Cães e gatos são carnívoros, totalmente dependentes do metabolismo da proteína animal. A longo prazo, isso vai acarretar várias doenças metabólicas que reduzirão a longevidade dos animais”, alerta e cita outro hábito nocivo, que são os exageros com a alimentação, com uso exagerado de petiscos ou da própria ração ou comida natural. “A consequência é o sobrepeso e todos os problemas associados à obesidade”.

Há, também, outra questão polêmica em relação à humanização: uso de fantasias, tinturas de pelo e unhas. “Antes de mais nada, é preciso verificar se os materiais não causam danos à saúde do animal. Depois, é importante notar se o animal está confortável com aquilo. Tudo tem limite e o tutor deve ficar atento para perceber se o animal não está bem com aquela situação”, recomenda.

Uma consequência grave da humanização excessiva, segundo Beatriz, é que muitos cães passam a não se enxergar mais como tal. “Desta forma, não farejam, não se sujam, não saem de casa e nem interagem com outros cachorros. Tendem, inclusive, a ficar mais reativos a outros animais da mesma espécie. Já atendi pacientes que não aceitam ficar na coleira, não querem ir para o chão e preferem ficar no colo do tutor ou dentro de bolsas. E isso não é saudável”, atesta.

Por outro lado, os gatos sofrem menos com a humanização devido ao seu comportamento. Eles foram domesticados, mas não no mesmo nível que os cães. “Ou seja, conseguiram manter a essência felina. Mas isso não quer dizer que eles não sejam apegados aos seus tutores. Pelo contrário, são muito carinhosos e gostam de atenção. A diferença é que, por serem mais independentes, sofrem menos ao ficar sozinhos, mas precisam de estímulo para não ter, por exemplo, problemas com obesidade”, alerta.

Por fim, a veterinária declara que a humanização acontece por excesso de amor e pela necessidade que nós, humanos, temos de nos sentirmos amados. “Nós queremos proteger e estar por perto e isso, em doses exageradas, pode provocar reflexos negativos para os animais”, encerra.

Fonte: AI, adaptado pela equipe Cães&Gatos VET FOOD.

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