A contenção de cães e gatos durante o atendimento veterinário exige planejamento, conhecimento sobre o comportamento do paciente e protocolos que considerem tanto o bem-estar animal quanto a segurança dos profissionais.
Mordeduras, arranhões, fugas e insucessos em procedimentos estão entre os problemas que podem ocorrer quando a abordagem não é adequada.
Para Sibele R. Konno, diretora médica do grupo PetCare, médica-veterinária com residência em Clínica Médica de Pequenos Animais e pós-graduada em Medicina Intensiva, Gestão de Pessoas, Liderança e Coaching e Gestão de Qualidade e Segurança do Paciente, a existência de protocolos contribui para organizar a rotina e preparar a equipe para diferentes situações.
“Ter protocolos do que se fazer para tudo dar certo e quando não dá certo também, otimiza tempo, recursos e traz bem-estar à equipe, além de uma impressão de organização pelos clientes”, afirma.
Importância da avaliação individual
A escolha da estratégia de contenção deve levar em consideração as características individuais do paciente.
Antes mesmo do exame físico, a equipe pode obter informações importantes com os responsáveis, como o comportamento do animal diante de pessoas conhecidas ou desconhecidas, sua reação a manipulação e possíveis experiências anteriores.
O estado clínico também precisa ser considerado. Animais que estão sentindo dor, por exemplo, podem reagir de maneira diferente do habitual e apresentar comportamentos defensivos.
“Conhecer e perguntar sobre o paciente” é uma das primeiras medidas, segundo Sibele. Também é importante saber sobre a queixa principal, medicamentos administrados previamente e como foi o percurso até a chegada ao local de atendimento.
Essas informações ajudam a equipe a antecipar possíveis reações e escolher uma abordagem mais segura. O cuidado, porém, começa antes mesmo de o animal entrar na clínica. Orientações sobre transporte de cães e gatos podem contribuir para reduzir o medo e o estresse durante o deslocamento.

Abordagem deve respeitar os sinais do animal
Durante o atendimento, a forma como a equipe se aproxima e conduz o paciente pode influenciar diretamente sua reação.
Sibele recomenda diminuir o tom de voz, explicar ao responsável cada etapa que será realizada e fazer movimentos lentos, respeitando os momentos em que o animal permite a aproximação.
“Não deve-se forçar posições ou segurar em locais que possam levar a dor, como pegar felinos pelo ‘cangote’”, orienta.
Quando necessário, toalhas podem ser utilizadas como recurso de contenção, enquanto feromônios e petiscos podem auxiliar na distração e no bem-estar dos animais, de acordo com a situação.
A observação da linguagem corporal também é fundamental. Em cães, lamber os lábios, evitar contato visual e apresentar o chamado “olhar de baleia” podem indicar desconforto ou estresse. O rabo entre as pernas também é um sinal importante de medo.
Já o ato de abanar a cauda não deve ser interpretado automaticamente como sinal de simpatia ou receptividade.
“Não devemos observar apenas um sinal isolado, mas o posicionamento do corpo, cabeça, cauda e orelhas”, explica.
Equipamentos e protocolos ajudam a prevenir acidentes
Quando há risco para o paciente ou para a equipe, técnicas e equipamentos específicos podem ser necessários.
Em animais muito assustados ou que não tiveram contato adequado com seres humanos, por exemplo, recursos de contenção podem ser utilizados inicialmente até que seja possível realizar a contenção química, quando indicada.
Por outro lado, algumas práticas devem ser evitadas por aumentarem o risco de acidentes ou provocarem sofrimento desnecessário. Entre elas estão o uso de cambão, a tentativa de pegar animais à força e a contenção de gatos pelo cangote.
A ausência de uma contenção adequada pode resultar em mordeduras e arranhões, que, além dos ferimentos, podem representar uma porta de entrada para infecções e zoonoses, como esporotricose e raiva.
Também podem ocorrer afastamentos do trabalho e até insucesso no procedimento, levando à necessidade de remarcar o atendimento.
A comunicação entre todos os envolvidos também faz parte da prevenção.
Compartilhar informações sobre o comportamento do animal em casa, explicar o que será realizado e alinhar a melhor maneira de conduzir cada etapa ajuda a equipe e os responsáveis a trabalharem em torno de um objetivo comum: proporcionar a melhor experiência possível ao paciente, mesmo em situações delicadas.

Educação da equipe e gestão do tempo são essenciais
Para Sibele, os protocolos de segurança não devem ser restritos aos médicos-veterinários. Toda a equipe precisa ser capacitada, desde profissionais que têm o primeiro contato com o animal até médicos-veterinários, administração e demais colaboradores.
Outro ponto fundamental é a gestão do tempo. Reservar alguns minutos para permitir que o animal se ambiente pode parecer, inicialmente, um atraso na rotina. Na prática, porém, essa etapa pode evitar acidentes, procedimentos malsucedidos e a necessidade de repetir atendimentos.
“Pode parecer que o período gasto durante a ambientação de um animal é ‘perda de tempo’, enquanto, na verdade, pode ser uma economia de recursos”, pontua.
Além da segurança dos profissionais, respeitar o bem-estar do paciente pode melhorar toda a experiência do atendimento.
“Muitas vezes, relevamos o bem-estar do animal, pois este não põe em palavras. Contudo, isto pode significar uma melhor experiência não só para ele, mas também para a família toda que o acompanha”, conclui.

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