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Buscar informações antes de adotar um pet é fundamental para evitar o abandono

História do influenciador Jesse Koz com seu cão Shurastey ensina muito sobre cumplicidade e afeto entre tutores e pets

Cláudia Guimarães, da redação

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Recentemente, acompanhamos – na imprensa e nas redes sociais – a notícia sobre a partida do influenciador Jesse Koz e seu cão Shurastey. Ao decidir viajar o mundo em seu fusca, o Dodongo, até o Alasca, Jesse nem sequer cogitou abandonar seu pet nas ruas ou com algum conhecido, simplesmente porque eles se pertenciam e tinham que permanecer juntos. Em diversas entrevistas, o jovem de 29 anos declarou que ter seu Golden Retriever durante todo o trajeto o impedia de ser atingido pela solidão.

Essa história emocionante, que durou desde que saíram de casa, até o momento em que partiram para suas viagens eternas, nem sempre é a realidade em outros casos. Muitas pessoas que adotam cães e gatos acabam os abandonando por inúmeros “motivos”.

O médico-veterinário comportamentalista, Luis Carlos Sousa, comenta que, na maioria das vezes, muito antes do animal ser abandonado na rua, ele já tinha sido abandonado na própria casa. “No dia a dia, vemos casos de animais que têm um responsável que chega ao atendimento com quadros muito graves e crônicos, com otites graves, quadros de dor que cursam por vários dias, vômitos e diarreias há mais de uma semana, sem qualquer tratamento e isso não tem tanta correlação com o aspecto socioeconômico, pois nos deparamos com essa realidade de animais que estão sob responsabilidade de pessoas que possuem recursos financeiros para arcar com as despesas do tratamento, mas, infelizmente, essa realidade de maus-tratos é muito frequente, como situações de privação de água e alimento, restrição de espaço, etc. Ou seja, antes de ir parar na rua, esse animal já vinha sendo abandonado, sem coisas básicas de cuidados, banhos, cuidados de saúde, alimento, local adequado para descanso e o principal: afeto”, declara.

Um pet requer tempo, cuidado, afeto e deve ter suas necessidades de saúde e bem-estar atendidas
(Foto: reprodução)

Durante mais de 10 anos como médico-veterinário, Luis conta que já viu algumas histórias e “motivos” que fazem qualquer um chorar. “Desde um casal em que um dos dois não concorda com a aquisição do animal, pessoas que dizem que irão abandonar o animal porque o filho nasceu, questões comportamentais como problemas relacionados à separação, agressividade, mas, na maioria deles, existia um vínculo frágil da família com o animal”, lamenta.

No momento de adotar um pet, é preciso refletir sobre alguns pontos importantes e que, se deixados para depois, na maioria das vezes, é o cão ou gato quem paga por uma escolha inadequada dos tutores. “Adotar um animal, seja ele de rua, resgatado, oriundo da casa de alguém ou até mesmo comprado, não importa, uma vez esse animal na sua casa, ele irá fazer parte da sua família por pelo menos 10 ou 15 anos. É muito importante que as pessoas tenham ciência que um animal irá requerer atenção, cuidados de saúde e emocional, deverá ter suas necessidades básicas atendidas, como rotinas, passeios, enriquecimento ambiental. Tudo isso tem um custo financeiro e um investimento afetivo muito grande. Ter um pet em casa não é somente colocar comida, água e levar para passear de vez em quando. Você precisa querer, de fato. Dá trabalho sim, nem tudo são flores. Eles terão problemas de saúde que, muitas vezes, serão minimizados ou lidaremos melhor se tivermos atitudes preventivas, como a vacinação recomendada para aquele animal”, discorre.

Sousa defende que os tutores, sejam eles de primeira viagem ou até quem tem mais experiência, estejam atentos à necessidade de treinamento e adestramento dos animais. “Todas as vezes que colocamos um pet em nossas casas, cobramos muito que esse animal sigam regras do universo humano; cobramos que ele faça as refeições em horários semelhantes ao nosso, que tenha educação sanitária, que não destruam móveis, que não latam excessivamente, mas é preciso investir tempo em dizer ao cão o que ele pode fazer. Muitas vezes, os tutores baseiam a educação do cão no ‘não’, em dizer ao cão o que ele não pode fazer, mas não sabem como se comunicar com o pet de forma assertiva e se fazer compreender”, pondera.

Animais sofrem ao serem abandonados

Luis menciona que, muitas vezes, o dano físico vem precedido de alguma questão comportamental em comorbidade. “Principalmente nos cães que apresentam histórico de hipervínculo com o tutor e essa relação se desfaz de forma abrupta, seja por abandono, viagem ou falecimento da figura de apego. Animais com quadro de ansiedade por separação, por exemplo, podem se machucar atacando rota de saída (portas, janelas) quando deixados sozinhos na tentativa de restabelecer vínculo com o seu tutor, latir excessivamente, urinar e defecar em locais inadequados, o que pode ser interpretado de forma equivocada pelos tutores como uma ‘vingança’ do animal, mas devemos olhar a situação mais de perto e compreender esses comportamentos como tentativas de restabelecimento de vínculo e urinar e defecar em local inadequado como um sinal mais preocupante de descontrole emocional. Isso piora quando o tutor chega em casa e ainda pune o animal”, destaca.

Segundo o médico-veterinário, ainda existem danos de saúde geral, pois um animal que vive traumas relacionados ao abandono pode viver em estresse crônico, libera uma quantidade grande de cortisol e os efeitos desse estresse diminuem a expectativa de vida do pet e o predispõe mais facilmente ao câncer e outras doenças.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 30 milhões de animais abandonados no Brasil, dos quais 10 milhões são gatos e 20 milhões, cães (Foto: reprodução)

“A história de Jesse e Shurastey foi muito linda e ensina muito a todos nós que temos um pet, afinal, devemos compreender que ter um pet é uma escolha, não existe lei no mundo que obrigue ninguém a ter um animal em sua residência. Portanto, caso opte em ter o seu pet, devemos ter total responsabilidade por ele e isso ultrapassa o aspecto legal da coisa, falo do aspecto moral e afetivo. Todos os dias nos perguntamos se falta algo para que o nosso cão tenha uma vida feliz, que eu atenda as necessidades dele como cão e não somente sobre o que eu acho que dou ao cão pensando pelo ponto de vista humano”, reflete.

Luis conta que, durante muitos anos, não teve um pet. “As pessoas me perguntavam ‘mas como um médico-veterinário não tem um cão?’ e eu respondia em tom de brincadeira: ‘se eu fosse um delegado eu precisaria ter um bandido em casa?’. Mas, brincadeiras à parte, durante muito tempo, justamente por ser veterinário, eu sabia que eu faria muito mal à vida de um animal. Eu trabalhava de plantão por 24, 36h, não tinha condições disso ocorrer. Depois que eu mudei a minha forma de atuação e já estava me preparando para parar com os plantões, eu adquiri um pet, resgatei um filhote durante a saída de um mergulho, que, hoje, é a alegria da minha casa e da minha família. Há 3 anos que Eros é muito importante para nós e, por aqui, não há a mera sombra da cogitação em abandonar, ele está nas nossas fotos de família e em momentos afetuosos muito importantes”, compartilha.

O veterinário revela que acompanha a história de muitos animais que os tutores ativamente relatam em consulta que ele é a última tentativa deles em manter o animal nas suas casas, “Muitas vezes, a família está desgastada, brigando entre si, casais à beira da separação, animais infelizes. Essa é a dura realidade de um veterinário comportamentalista. Tem consultas que precisamos ser fortes para não chorar junto com os tutores, mas isso faz parte do trabalho e lutamos todos os dias para auxiliar famílias a melhorarem a convivência com os seus pets, trazendo bem-estar para todos e evitando abandonos”, finaliza.

Observando e aconselhando

A médica-veterinária clínica geral e especialista em felinos, Vivian dos Santos Baptista, afirma que os motivos que levam as pessoas a abandonarem seus animais são inúmeros. “Mas o que mais se destaca é o fato de não termos, no Brasil, leis efetivas de punição para abandono. Além disso, há falta de planejamento, esclarecimento e ciência dos tutores sobre os gastos e a responsabilidade de se ter um animal. Assim como quando planejamos ter um bebê, um animal é tão indefeso quanto uma criança”, argumenta.

Ela indica, em caso de viagem, que os tutores deixem seus animais com amigos e familiares de confiança, que possam ficar ou olhá-los em suas casas. “No caso de mudança, é preciso verificar os gastos e a possibilidade de levá-los junto e tentar encontrar uma pessoa próxima que possa se responsabilizar em cuidar deles”, sugere.

Na visão da veterinária, a compra de animais de raça também impacta no abandono de cães e gatos. “Uma vez que o animal é dado como se fosse um presente e não tratado como um ser indefeso e de nossa responsabilidade, ele acaba sendo descartado como se fosse um objeto. Nas ruas, o primeiro risco a esses animais é de morte, torturas, seguido de medo e agressividade, devido à falta de confiança no ser humano”, cita.

Sobre os parceiros Jesse e Shurastey, Vivian acredita que a história deles demonstra o quanto o animal evoluiu de um animal de estimação a um membro da família. “Também podemos notar o quanto esse mercado cresceu. Atualmente, animais são herdeiros em potencial de grandes heranças, pessoas saem do quadro de depressão e deixam de entrar no mesmo quadro por conta de um animal. Na pandemia, várias famílias conseguiram permanecer em isolamento por conta da adoção de um pet”, comenta.

Vivian acredita ser importante salientar que animais assumiram o papel de um membro da família e que medidas são importantes serem tomadas. “Tais como: chipagem, onde podemos saber quem é o responsável pelo animal; limitar e estudar quantos animais uma família pode ter e em quais condições um animal vive e o bem-estar do mesmo. Essas são medidas muito importantes para mantermos a qualidade de vida deles na nossa vida”, encerra.

Registro de Shurastey e seu tutor, Jesse Koz, durante suas vidas repletas de aventuras e companheirismo (Foto: divulgação)

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