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CÃES E GATOS SÃO ACOMETIDOS POR OUTRA ESPÉCIE DE CORONAVÍRUS

Especialistas explicam como esse tipo de vírus age no organismo dos animais

Cláudia Guimarães, em casa

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O medo surge diante de uma situação de possível perigo na visão das pessoas. A pandemia do novo coronavírus causou – assim como já era esperado – um grande receio na população mundial. Os cuidados necessários a serem tomados já estão na mente e na rotina da maioria das pessoas, no entanto, algumas ainda insistem em acreditar que, talvez, seus animais de companhia possam ser infectados.

Órgãos como a Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) já informaram que não há evidências de que os pets possam contrair ou transmitir essa doença. Mas, assim como o número de animais abandonados aumentou na China, no auge da transmissão no País, o médico-veterinário e sócio proprietário do Hospital Veterinário Santana, Hannan Eduardo Bacelar, revela que, só na última semana, cerca de 15 tutores ligaram e foram ao hospital dizendo que suas ruas, que antes não tinham pets abandonados, agora têm. “Isso é péssimo, pois a prefeitura, junto a ONGs, abrigos, clínicas e hospitais, vem trabalhando incansavelmente para diminuir os maus-tratos e abandono, que é crime, para que consigamos, também, melhorar a saúde pública, diminuindo o número de zoonoses por conta do abandono”, comenta.

A co-presidente do Comitê Científico e membro do Grupo de Diretrizes de Vacinação da WSAVA, Mary Marcondes, reitera que é muito importante esclarecer a população de que não devemos, em hipótese alguma, abandonar cães e gatos por medo da COVID-19, já que esses animais não representam um risco para a população. “Não faz o menor sentido o abandono de animais durante a pandemia”, afirma.

Para Bacelar, o mais importante, nesse momento, é se atentar aos maiores veículos de comunicação: rádio e televisão, onde o governo já vem atuando e promovendo campanhas de conscientização. “Infelizmente, por meio da internet, o número de fake news é crescente, então devemos tomar cuidado com a fonte divulgadora da notícia”, frisa.

Bacelar lembra que o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) orientou que as pessoas infectadas pelo novo coronavírus mantenham, também, a quarentena da companhia de seus pets, mas não é a saúde do animal que está em jogo aqui: “O intuito é restringir o acesso dos animais a outras contaminações e evitar que os mesmos carreguem o vírus, por meio dos pelos, até outro morador da residência, por exemplo, que não esteja com a doença”, explica.

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Tutor deve se atentar à caderneta de vacinaçãoe vermifugação para prevenir a coronaviroseentérica em cães (Foto: reprodução)

Na espécie canina. A coronavirose entérica canina mais recorrente, segundo Bacelar, não atinge o sistema respiratório, mas, sim, o gastrointestinal, levando o animal a crises de vômito, diarreia, mal estar e perda de apetite. Por outro lado, Mary adiciona que existe um coronavírus respiratório que acomete cães e faz parte do complexo respiratório canino. “Mas ele causa sintomas brandos e, geralmente, não complicados”, assegura a profissional.

A veterinária também complementa com a informação de que, apesar de o coronavírus que acomete cães e o que causa a atual pandemia fazerem parte da mesma família, eles são absolutamente diferentes. “É como uma família: cada membro tem o mesmo sobrenome, mas apresentam características individuais”, exemplifica.

Segundo a profissional, é importante frisar que, se os vírus são diferentes, o anticorpo que se produz quando eles entram no organismo não é o mesmo. Por isso, não existe razão nenhuma para que os humanos façam uso de uma vacina que foi produzida para cães, acreditando que pode proporcionar algum tipo de proteção. “Aliás, hoje em dia, nem para os cães é recomendada a vacina contra a coronavirose entérica, e isso não coloca a vida do animal em risco de forma alguma. O essencial é eles estarem vacinados contra a parvovirose, que é a grande vilã da espécie”, compartilha.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) divulgou nota sobre este tópico. O texto mostra que as vacinas registradas na pasta contra coronaviroses são exclusivamente para uso em animais e jamais devem ser utilizadas em humanos. As avaliações feitas pelo MAPA são voltadas às espécies-alvo dessas vacinas, como cães, bovinos e aves. “Não existe segurança clínica, muito menos qualquer indicação de utilização de vacinas de uso veterinário por humanos, sob risco de reações graves e efeitos colaterais severos”, consta no documento.

Mary ainda destaca que esse novo vírus está sendo estudado por vários pesquisadores que têm acompanhado animais em contato próximo com pessoas com COVID-19, e que não existem evidências, até o momento, de que esses animais possam adoecer ou transmitir a doença. “Por enquanto, acreditamos que não irá acontecer nenhum problema, mas é sensato que o indivíduo infectado utilize máscara ou evite cuidar de seu animal. Uma dica é pedir para que outra pessoa faça esse cuidado, caso necessário”, cita.

E, aos veterinários, Mary faz um reforço: “Não é preciso utilizar vacinas contra o coronavírus que causa diarreia em cães, porque ela não é recomendada por nenhum dos grupos de diretrizes de vacinação mundial”, finaliza. Bacelar adiciona que, uma maneira de prevenir o coronavírus dos animais é evitar passeios a locais públicos e se atentar à caderneta de vacinação e vermifugação. “Neste momento de pandemia e em qualquer outro é essencial consultar um veterinário”, declara.

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O coronavírus entérico que acomete os gatos étransmitido pelas fezes apenas para outrosgatos (Foto: reprodução)

E os felinos? Conversamos com o médico-veterinário especialista em felinos, membro da American Association of Feline Practitioner, mais importante entidade internacional voltada à Medicina Felina, e coordenador do Hospital 4Cats, Archivaldo Reche Jr., carinhosamente conhecido por Valdo. Ele afirma que o gato pode se infectar com o coronavírus, mas, assim como os cães, por uma espécie diferente desta que está causando a pandemia.

Segundo ele, no gato, o coronavírus é entérico e infecta as células intestinais, causando um quadro de enterite em felinos. “Mas esse coronavírus entérico, em algumas situações, pode sofrer uma mutação e, então, essa nova tipagem do vírus é conhecida por causar a Peritonite Infecciosa Felina (PIF). Esse coronavírus que sofreu a mutação também não infecta humanos e a transmissão é de gato para gato”, salienta.

Valdo explica que, com a PIF, o gato pode desenvolver um líquido no abdômen, popularmente chamado de barriga d’água, ou pode acumular líquido no tórax e ter dificuldade para respirar. “Existe outra forma clínica da doença, também causada por esse mesmo coronavírus mutante, que é a Perinotine Seca, onde o gato não acumula líquido, nem no abdômen nem no tórax, mas tem outras manifestações clínicas, como alterações neurológicas e febre. São sintomas que debilitam bastante o gato. Até o ano passado, não tínhamos tratamento para esse coronavírus que causa a peritonite. Hoje, temos uma medicação que tem sido utilizada com resultados bem promissores. Estamos testemunhando melhoras e até podemos falar em cura em cerca de 70% dos gatos que fazem uso dessa medicação”, comemora.

Covid-19 está longe dos animais. Como reforçado por Valdo, não há nenhuma comprovação de que os gatos possam ser acometidos por alguma doença desse novo coronavírus humano. “Sobre o coronavírus que pode causar transtornos a essa espécie, normalmente, ele está presente em lugares onde existem muitos gatos, como ONGs ou criatórios, por isso um alerta para quem comercializa gato: o vírus vai passando de animal para animal, quando eles utilizam a mesma caixa de areia, já que é eliminado pelas fezes. Quando os gatos não infectados utilizam a caixa onde um gato infectado tenha evacuado, o animal suscetível acaba se contaminando ali. Mas, todo gato que entra em contato com esse coronavírus vai adoecer? Não: 95% dos gatos não adoecem; apenas 5% ficam doentes e é papel do clínico veterinário identificar esses animais enfermos a fim de estabelecer o tratamento correto”, salienta.

Para o veterinário Bacelar, o mais importante, agora, é a união das pessoas apesar do resguardo no maior tempo possível. “Evite aglomerações, idas e vindas a locais públicos. Só depende de nós para diminuir o tempo de reclusão”, atesta.

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