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Clínica e Nutrição, Destaques

Cannabis Medicinal: Profissional aborda avanços na regulamentação e tratamentos para cães e gatos

Ansiedade, estresse, convulsões, dor crônica, dermatite atópica, entre outros quadros, podem ser tratados com a substância
Por Cláudia Guimarães
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Por Cláudia Guimarães

Nos últimos anos, a Cannabis medicinal tem sido discutida como uma opção terapêutica inovadora para seres humanos, mas não se limita a nós. Esse avanço também tem se estendido aos animais de estimação, especialmente cães e gatos. 

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O professor Titular Sênior, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade Estadual Paulista (FMVZ-Unesp, Botucatu-SP), Stelio Pacca Loureiro Luna, explica que os dois principais componentes ativos do Cannabis que auxiliam os animais de companhia em diversos tratamentos são o delta-9-tetrahidrocanabinol e o canabidiol.

Para os animais, a Cannabis medicinal oferece alívio da dor, efeito anti-inflamatório, redução da ansiedade, entre outros benefícios (Foto: reprodução/IA)

Segundo Luna, o principal uso da Cannabis em pets é para dor, inflamação e ansiedade, além de ter um potencial muito grande para tratamento de convulsões. “A substância também é indicada para pets com glaucoma e dermatite”, adiciona.

O docente ainda elucida que o sistema endocanabinoide está presente em todos os organismos vivos, tanto vertebrados quanto invertebrados, abrangendo, praticamente, todas as espécies. “Esses endocanabinoides endógenos funcionam como hormônios ou neurotransmissores, que se comunicam com os diversos sistemas do corpo”.

Os endocanabinoides e, por extensão, a cannabis, que atua de maneira similar, têm um papel vital no sistema nervoso central, influenciando a neurotransmissão, a aquisição de conhecimento, a memória e o controle da função motora. “Eles também são essenciais na sensibilização para a dor e neuroproteção. Nos órgãos abdominais, como o fígado, os endocanabinóides possuem um efeito hepatoprotetor. Além disso, participam na formação e no metabolismo dos ossos, bem como na musculatura cardíaca, regulando a frequência cardíaca e a pressão arterial conforme necessário”, discorre.

No sistema imunológico, os endocanabinoides, segundo Luna, desempenham um papel imunomodulador crucial. “No intestino, eles influenciam a função intestinal e o apetite. Na musculatura esquelética, especialmente durante o exercício, garantem o metabolismo energético e contribuem para a resistência à insulina”, acrescenta.

Há pesquisas suficientes?

Respondendo a pergunta, atualmente, especificamente sobre Cannabis para gatos, o docente afirma que existem pouquíssimos estudos, sendo a maioria focada no tratamento de gengivoestomatite. “A maioria das pesquisas concentra-se em cães. No entanto, em termos de sensibilidade e toxicidade entre essas espécies, não há diferença significativa. Ambos possuem um perfil farmacocinético semelhante, ou seja, a maneira como os fármacos são distribuídos no sangue e excretados é praticamente a mesma. Para o público leigo, podemos dizer que o tempo de absorção e a duração dos efeitos da substância são muito similares entre cães e gatos. Além disso, não há estudos que indiquem diferenças na resposta à Cannabis entre diferentes raças”, salienta.

Intoxicação acidental com Cannabis

Quando os animais ingerem acidentalmente Cannabis em casos de uso recreativo por parte do tutor, o tratamento, de acordo com o professor, é, geralmente, paliativo. “Em muitos casos, pode ser necessária uma hidratação e o uso de antieméticos, mas, normalmente, os sinais clínicos passam com o tempo. Os animais podem ficar mais sonolentos e apresentar náusea leve, mas estes sinais desaparecem em cerca de duas ou três horas”, garante.

O tratamento, em si

Normalmente, os veterinários indicam aos tutores a administração de uma dose padrão de canabidiol de 2 mg por quilo, duas a três vezes ao dia (Foto: reprodução)

Para fins medicinais a administração é feita por via oral e, conforme citado por Luna, não existem estudos clínicos que utilizem outras vias de administração, embora existam alguns estudos toxicológicos. “Os efeitos adversos estão, geralmente, relacionados ao veículo utilizado para diluir as substâncias, como por exemplo o óleo de girassol que não é indicado. O tetra-hidrocanabinol (THC) é o componente ativo mais associado a efeitos recreativos. Em animais, o THC pode causar letargia, dificuldade de locomoção, redução da temperatura corporal, vocalização excessiva, náusea e vômito. Apesar desses efeitos, a toxicidade da Cannabis é extremamente baixa, e não há relatos de mortes por sobredosagem em cães ou gatos, o que a torna uma substância muito segura para uso terapêutico”, reforça.

O professor cita que as principais áreas de pesquisa sobre o tema incluem o uso do canabidiol (CBD), que é indicado para tratar ansiedade e estresse, especialmente o estresse relacionado ao transporte e à separação do tutor. “Estudos mostram que o CBD, que não tem efeito psicoativo, reduz a duração do latido e do choramingo característicos da ansiedade de separação. Além disso, os animais tratados com CBD ficam menos tristes, estressados, tensos e desconfortáveis, o que se reflete na diminuição dos níveis de cortisol, o hormônio do estresse”, expõe.

Ele ainda menciona outras pesquisas, que indicam que o CBD pode reduzir a agressividade, apresentar efeitos anti-inflamatórios e analgésicos. “No tratamento da osteoartrose em cães, diversos estudos mostram resultados muito positivos, com redução da dor e melhoria na qualidade de vida. Para convulsões, o CBD é promissor, com uma redução de cerca de 33% na frequência das crises e na necessidade de medicamentos anticonvulsivos. No campo da oncologia, estudos in vitro sugerem que a cannabis pode diminuir a viabilidade e aumentar a morte das células cancerígenas, além de potencializar a eficácia dos quimioterápicos. Para dermatites, especialmente atópicas, o CBD tem um efeito anti-inflamatório, reduzindo a coceira e a gravidade da condição”, refere.

Já em gatos, como mencionado anteriormente, o uso de CBD para gengivoestomatite crônica tem mostrado melhora significativa, conforme relatado por Luna. “Em cães, a aplicação de colírio com THC ajuda a reduzir a pressão intraocular elevada, que é a causa do glaucoma, mostrando-se promissor no controle dos sinais clínicos desta condição ocular”, insere.

Sobre a dosagem para animais de estimação, o profissional considera um desafio devido à grande variabilidade de respostas entre diferentes animais e tipos de patologias. “Normalmente, uma dose padrão de canabidiol (CBD) é de 2 mg por quilo, administrada duas a três vezes ao dia, tanto para cães quanto para gatos. A dosagem de THC (tetra-hidrocanabinol) é bem menor, dada sua potência e efeito psicoativo”, esclarece.

Essas doses devem ser ajustadas com base nas informações fornecidas pelo tutor do animal. “Por exemplo, se o animal estiver dormindo muito ou apresentando dificuldade de locomoção, a dose pode ser reduzida. Se o efeito não for satisfatório, como no caso do tratamento da dor, a dose pode ser aumentada. Portanto, a dosagem deve ser personalizada, adaptando-se às necessidades e reações de cada animal”, demonstra.

A Cannabis tem um grande potencial para tratar várias doenças que, muitas vezes, são difíceis de manejar com fármacos convencionais (Foto: reprodução)

Regulamentação

Stelio Luna comenta que a situação legal e regulatória do uso de Cannabis na Medicina Veterinária no Brasil está em evolução. “A Anvisa já demonstra uma visão favorável para que os médicos-veterinários possam prescrever Cannabis e várias discussões estão em andamento. O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) estão envolvidos em grupos de trabalho, incluindo o grupo de trabalho da Cannabis Medicinal do CFMV, do qual eu faço parte. O objetivo é regulamentar a prescrição de Cannabis para fins medicinais por veterinários, superando a atual insegurança jurídica, já que a prática ainda não está plenamente regulamentada”, compartilha.

Como observado pelo profissional, a Cannabis tem um grande potencial para tratar várias doenças que, muitas vezes, são difíceis de manejar com fármacos convencionais, como dermatite atópica, convulsões e dor crônica. “Esse potencial precisa ser valorizado, considerando a Cannabis não apenas como uma substância de uso recreativo, mas como uma importante ferramenta medicinal. É crucial lembrar que muitas substâncias liberadas para uso recreativo, como os opióides, também têm usos medicinais significativos. Portanto, não se deve limitar o uso medicinal da Cannabis devido ao seu uso recreativo. Se essa lógica fosse aplicada, muitas substâncias essenciais para a saúde animal e humana seriam proibidas”, argumenta.

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