Colapso de traqueia requer tratamento multimodal e acompanhamento frequente
Especialista explica que a condição é mais comum em cães de raças mini e toy; mesmo não existindo cura, com o manejo correto é possível garantir anos de vida ao pet
O colapso de traqueia é uma afecção relativamente comum em pequenos animais. A condição é resultado de traqueomalácia com a perda de rigidez e deformação dorsoventral dos anéis cartilaginosos.
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Essa explicação quem nos dá é a médica-veterinária, mestre em Biociência Animal, pós-graduada em Pneumologia Veterinária e docente do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Max Planck (UniMAX Indaiatuba), Nathalia Villaça Xavier.
Segundo a profissional, esse processo ocorre devido a degeneração da cartilagem hialina e da matriz extracelular, gerando redução de proteoglicanos, desorganização de colágeno e insuficiência biomecânica do músculo traqueal dorsal.
“A insuficiência estrutural torna a via aérea vulnerável ao estreitamento dinâmico dependente da fase respiratória e da região (cervical ou intratorácica)”, comenta.
Quem está mais predisposto?
De acordo com Nathalia, por mais que ainda existam casos congênitos/primários, trabalhos recentes reforçam a natureza multifatorial do colapso de traqueia.
“Conforme a literatura, a inflamação crônica das vias aéreas, tosse persistente, obesidade e comorbidades, como a broncomalácia e as cardiopatias, amplificam o estresse mecânico e perpetuam a inflamação da mucosa, estabelecendo um ciclo de fraqueza cartilaginosa e colapso”, pontua.
Além disso, a médica-veterinária relata que estudos recentes com casuística de 2022–2024 confirmam o predomínio em pequenas raças e reforçam que o fenótipo pode coexistir com colapso de vias aéreas intratorácicas (broncomalácia), o que contribui para maior gravidade clínica.
“Trata-se primordialmente de uma afecção de cães de raças miniatura e toy, com pico de apresentação em meia-idade a idosos. Relatos em gatos são incomuns”, cita.
Cães de raças toy e miniatura são os mais predispostos ao colapso de traqueia (Foto: Reprodução)
Tosse é o sintoma mais frequente
A docente comenta que a tosse seca é o sinal clínico mais característico da doença. Essa tosse costuma ser descrita como estridente (“tosse de ganso”) e, normalmente, é intensificada por excitação, tração cervical ou calor.
“Também podem ser relatados episódios de dispneia, intolerância ao exercício e estridor expiratório. Em casos moderados a graves pode ocorrer cianose transitória e síncope por hipóxia/pressão intratorácica elevada”, pontua.
Contudo, além dos sinais clínicos, para ter certeza da condição é preciso realizar exames de imagem.
A médica-veterinária esclarece que o diagnóstico é confirmado através da verificação do estreitamento dinâmico das estruturas. Porém, exames de rotina, como radiografias cervicais/torácicas laterais, embora úteis como triagem, subestimam a frequência e, em certos segmentos, o grau de colapso quando comparadas a outros métodos, como a fluoroscopia.
“A fluoroscopia é o método funcional preferencial para quantificar a variação do lúmen da traqueia ao longo de todo o ciclo respiratório. Já a endoscopia traqueobrônquica é uma referência para avaliação direta, graduação desse estreitamento, que pode variar em uma escala de I a IV, coleta de amostras e, ainda, para identificação de doenças coexistentes, como traqueíte, colapso brônquico e secreção purulenta”, relata.
Segundo ela, existe também a tomografia helicoidal, que auxilia no planejamento, caso haja intervenção cirúrgica, e na detecção de colapso intratorácico/broncomalácia, frequentemente subdiagnosticados em métodos estáticos como as radiografias.
Tratamento depende da apresentação
Nathalia explica que a abordagem inicial do colapso de traqueia, para a maioria dos casos, é clínica e multimodal, tendo como base a supressão da tosse para quebrar o ciclo inflamatório–mecânico.
“Para isso é feito o uso de fármacos, que visam o controle de inflamação das vias aéreas, broncodilatadores, quando há componente de via aérea inferior, sedação/ansiolíticos em pacientes nos quais a excitação precipita dispneia, controle rigoroso de peso e manejo ambiental. No manejo ambiental, por exemplo, são substituídas as coleiras por peitorais”, cita.
Entretanto, em casos refratários ou crônicos podem ser realizadas terapias intervencionistas, como a cirurgia.
“As opções cirúrgicas clássicas com anéis extraluminais têm utilidade na traqueia cervical. Porém, são menos aplicáveis em colapso difuso e frequentemente associadas a complicações, como laringoparesia e necrose por pressão. Em contraposição, as próteses intraluminais autoexpansíveis (stents metálicos) tornaram-se a alternativa de eleição para colapso intratorácico e difuso, levando a melhora clínica rápida e ótimas taxas de sobrevivência. Ainda assim, há desafios relevantes como migração da prótese, hiperplasia/granulação intraluminal, fratura de stent e traqueíte crônica”, comenta.
Existe prevenção?
Infelizmente, a médica-veterinária relata que a prevenção do colapso de traqueia é limitada em animais predispostos, visto que há fatores genéticos envolvidos. No entanto, o manejo ambiental pode ser uma ferramenta valiosa em alguns casos.
“Isso inclui a manutenção de condição corporal ideal, mitigação de estímulos tussígenos ambientais, vacinação respiratória conforme risco da região, controle de parasitas respiratórios e uso de peitoral no lugar de coleira, reduzindo a carga mecânica e inflamatória sobre a traqueia e retardando a progressão”, elenca.
Além disso, de acordo com a docente, a identificação e o tratamento precoces de broncomalácia e de infecções das vias aéreas inferiores são fundamentais, dadas as fortes associações entre colapso traqueal, colapso brônquico e bronquiectasias.
Com relação ao uso de suplementos, existem ressalvas.
“Suplementos condroprotetores e antioxidantes são utilizados de forma adjuvante. Porém, não há, até o momento, ensaios clínicos controlados em cães com colapso traqueal que demonstrem melhora dos desfechos clínicos. Diretrizes práticas e revisões narrativas recentes enfatizam que o alicerce terapêutico permanece médico/intervencionista”, conclui.
FAQ sobre o colapso de traqueia
É possível curar o colapso de traqueia?
Como o colapso de traqueia ocorre devido a uma degeneração cartilosa, não é possível curá-lo. Por isso, o objetivo do tratamento é o controle de sinais clínicos e manutenção da qualidade de vida. Inclusive, em animais com tratamento e recomendações seguidas rigorosamente a sobrevida em anos é possível.
O que causa colapso de traqueia em cães?
A doença possui predisposição genética, mas também pode se desenvolver a partir de outras condições relacionadas as vias aéreas.
Gatos podem ter colapso de traqueia?
O colapso de traqueia em gatos é incomum. A enfermidade está mais associada a cães de raças mini e toy.