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Dia da Mulher: Veterinária atua fora das quatro paredes da clínica em prol dos animais

Pioneira em realizar mutirão de castração em Santa Catarina, profissional também atua em Veterinária de Desastres

Cláudia Guimarães, em casa

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Se solidarizar com o próximo não é algo que as pessoas fazem com tanta frequência hoje em dia. Mas, embora sejam raros os casos, eles existem e se todos soubessem como a solidariedade é capaz de fazer a diferença, viveríamos em um mundo mais “humano”. A nossa personagem guerreira e solidária deste Dia Internacional da Mulher é o exemplo do bem e, por isso, relatamos sua história hoje.

Estamos falando da médica-veterinária e sócia administrativa da empresa Chubaci Clínica Veterinária e Castramóveis, Katia Chubaci. Desde que se formou em Medicina Veterinária, no ano de 1997, viu a necessidade de as ONGs terem apoio dos veterinários. “Na época, via os protetores e voluntários sendo muito maltratados quando eram atendidos por não terem dinheiro. Portanto, desde então, comecei a fazer ações sociais e atendimento social dando visibilidade para essas pessoas”, recorda.

Segundo seu relato, quando atende um animal carente ela acredita que não está atendendo a um animal necessitado por si só, mas, sim, uma família carente. “A importância é para a causa social dos animais e para a dos seres humanos, já que isso não faz bem só a eles, ajuda, também, a mim, porque acredito que fazendo a caridade e vivendo disso, trabalhando, tendo lucro, mesmo sendo empresário e conseguindo fazer caridade com uma coisa que você mais ama, não tem preço. Essa é a importância do trabalho”, considera.

Como a veterinária lembra, hoje, no Brasil, há mais de 30 milhões de animais que se encontram em situação vulnerável de rua. “Eu sempre tento visualizar esse número em um campo de futebol, numa cidade inteira e isso machuca muito, pois sei que esses 30 milhões de animais não têm onde viver, o que comer, onde dormir. Então, quando você tenta visualizar 30 milhões de animais passando fome, frio e abandonados nas ruas, você começa a entender o motivo de tantas pessoas estão na causa animal hoje”, avalia.

Com mutirões de castração, Kátia deseja transformar vidas e diminuir problemas de Saúde Pública (Foto: divulgação)

É mulher e pioneira! Kátia foi a primeira médica-veterinária a realizar mutirão de castração nas cidades catarinenses. Mas o pioneirismo não iniciou aí, como ela nos conta: “Já comecei isso dentro da faculdade, dentro de uma matéria que tinha meu querido falecido Professor Jéferson, de obstetrícia, onde a gente já praticava mutirões de castração mesmo dentro da graduação. Nas cidades catarinenses, iniciei em 2006 e, a partir daí, claro que tivemos alguns problemas com o Conselho de Veterinária e alguns colegas de profissão, mas depois de muito tempo, esses obstáculos foram galgados por meio da Justiça, pelo entendimento atual, da compreensão por parte deles de que eu não iria deixar de abraçar esta causa e que, no fim das contas, foi se tornando uma causa pra eles também”, compartilha.

A profissional acredita que muitos os que criticavam os mutirões de castração, hoje, indicam que esses animais sejam castrados, porque entendem que, quando ela castra filhotes e animais de rua a preço social, está gerando um consumidor de mercado para eles também. “Como a castração é um objeto único na vida de um animal, ele não volta para a mesma cirurgia, mas acaba voltando para outros serviços e por produtos. Ele vira um consumidor final do serviço, justamente, dos outros veterinários que não fazem mutirões de castração. Então, se eu não olhar pelo lado do coração ou da proteção animal e olhar pelo lado econômico da castração social e dos mutirões de castração, eu consigo imaginar que estou colocando no mercado animais que estavam fora dele e que, hoje, tornam-se consumidores de muitos serviços. Assim, a gente transforma vidas, diminui um problema de Saúde Pública e torna mais um consumidor para nossa economia”, defende.

Representante brasileira. Kátia representou nossa bandeira verde e amarela em uma maratona internacional de castração, que ocorreu em 2017, 2018 e 2019, no México. Segundo ela, esses encontros são organizados pelo Planned Pethood e também do ISLA Animals Planned Parenthood, onde se situa na cidade de Mérida e também na cidade de Playa del Carmen. “Lá realizamos mutirões com a presença do Papa da castração, o Dr. Jeff Young, também conhecido como o The Rocky Mountain Vet (O Veterinário das Montanhas), que, hoje, se tornou meu amigo”, conta.

Na cidade de Cancún, onde existe a ONG Isla Animals, Kátia conta que a equipe de veterinários realizou os mutirões na comunidade Rancho Viejo, onde castraram cerca de dois mil animais em quatro dias. “No Planned Pethood, o número de animais castrados é ainda maior: fizemos, em média, em cinco e seis dias, o procedimento em três mil e quinhentos animais. Nós pretendemos trazer isso para o Brasil. Era para ter acontecido em abril de 2020, mas, por conta da pandemia, atrasou. Iríamos fazer o primeiro mutirão internacional no Brasil, o maior mutirão no maior rio do mundo, o Rio Amazonas. Mas esse sonho não acabou nem meu, nem do Animal Planet, que veicula o programa com Jeff Rocky Mountain. Todos nós queremos que isso aconteça, só estamos aguardando essa pandemia passar para que consigamos realizar nosso sonho e, para mim, ser respeitada pelos colegas fora do Brasil é muito importante”, comemora.

Sobre essa experiência no México, Kátia ainda destaca algo muito marcante e que considera difícil de alguém que não vivenciou imaginar: “A energia que eu consigo sentir quando vejo 30 veterinários, cada um em sua respectiva mesa, ao mesmo tempo, dentro de um ginásio gigantesco, com as pessoas na plateia aguardando seus animais serem liberados. Você não imagina a vibração que roda dentro daquele local, porque todos os profissionais estão ali voluntariamente. A energia do voluntariado é muito forte. Ela emociona, ela faz as coisas darem certo”, salienta.

No entanto, todo esse movimento em prol dos animais de outros países não faz parte do programa “Médicos Sem Fronteiras” e Kátia lamenta por isso: “Gostaríamos que fizesse, pois a Medicina Veterinária e o controle de natalidade fazem parte da Saúde Única aqui em todo o mundo. Se fôssemos incluídos no programa, com certeza, eu estaria na linha de frente”, assegura.

Kátia ajudou os animais atingidos pela tragédia em Brumadinho (MG), arrecadando doações de medicamentos e insumos (Foto: divulgação)

Medicina Veterinária de Desastres. Mas estar à frente de iniciativas que visam a saúde e o bem-estar dos animais é algo rotineiro na vida de Kátia. A profissional esteve presente em alguns desastres, sendo o primeiro deles em 2008, no Morro do Baú, em Santa Catarina, onde arrecadou alimentos, medicamentos e vacinas para todos os animais afetados naquele episódio. “A chuva fez o morro inteiro desabar, soterrando uma cidade toda, juntamente com muitas pessoas e animais”, narra.

Já em Brumadinho (MG), aconteceu de forma muito brusca e Kátia ficou sabendo quando estava em um mutirão em Criciúma (SC), fazendo um mutirão de castração. “Quando recebi a notícia, no meio da tarde, sobre o desastre em Brumadinho e que minha colega Amélia Oliveira, do Veterinários na Estrada, já estava se encaminhando para o local, liguei para ela e decidi arrecadar medicações, pois ela já tinha chegado e se deparou com uma catástrofe, onde não havia remédios e insumos. Então, ela me disse ‘Kátia, consegue as doações por favor’ e eu consegui: as doações e uma empresa aérea que levasse os materiais gratuitamente, que pesavam mais de 300kg. Quando cheguei lá, eu imaginava um desastre, mas não que me abalaria tanto. Ao mesmo tempo que é inesquecível, é um desastre que, se eu fechar os olhos à noite, acabo tendo pesadelos. Brumadinho foi muito forte para mim”, revela.

Quando questionada sobre como essas ocorrências a afetam pessoal e profissionalmente, a médica-veterinária é categórica ao responder: “A gente tenta evoluir a partir desses desastres e acredito que Brumadinho e o Morro do Baú me fizeram ser uma pessoa melhor”. Além dessas ações para salvamento de animais, Kátia também participa de equipes enviadas a Fernando de Noronha (PE), local onde existe uma superpopulação de gatos e esses profissionais realizam o controle. “A ONG Ampara Animal faz esse controle e me chamaram para participar na época (2019). Acredito que essa ação contribuiu para melhorar bastante a fauna local, pois estavam tendo vários problemas com a população de gatos da ilha”, relembra e menciona que o método utilizado para controle populacional no local foi o CED (captura, esterilização e devolução).

“Ninguém fica no meu caminho”. A veterinária relata que, felizmente, nunca sofreu nenhum tipo de preconceito por ser mulher atuante na Medicina Veterinária. “Aliás, por ser uma mulher considerada forte, acho difícil se manter no meu caminho. No entanto, a maioria dos homens que conheci durante a minha jornada me ajudou profissionalmente”, expõe.

Para encerrar, Kátia bate, mais uma vez, na tecla de que um trabalho social focado em animais não é benéfico só para os animais, mas, também, para as pessoas. “Com meu trabalho, é possível tornar visível os seres humanos. O ser humano que vem de uma comunidade carente é muito bem atendido. É importante ele chegar em um lugar com horário marcado, ser atendido naquele horário, pagar um valor a preço social, pois ele começa a entender que as pessoas o valorizam. Com isso, a gente gera menos diferença social e emocional. Eu quero somente que essa pessoa entenda que ela merece aquele tipo de serviço, que ela merece ser vista, ser bem atendida em qualquer hospital, clínica veterinária ou posto de saúde, porque ela tem que se sentir igualmente importante comparada a outras pessoas”, alega.

Avaliando toda sua trajetória, Kátia acredita que tudo deu certo: duas clínicas em cidades diferentes e os castramóveis são resultado de muito empenho, ao seu ver, não só seu, como de toda sua família. “Eles entenderam que, nos dias em que eu não estava presente, foram destinados a essa missão. Por isso gosto de dizer que eu não tenho um trabalho, tenho uma missão e, se não fosse pela minha família, eu não seria nada. Minha sogra, hoje falecida, que cuidava dos meus filhos enquanto eu trabalhava é exemplo do apoio que sempre tive. Por isso, agradeço demais a Dona Marilene, a toda a minha família e aos meus pais, que, desde o início da minha jornada na área, entenderam que eu seria além de uma veterinária de jaleco branco”, finaliza.

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