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Diabetes mellitus: predisposição da doença para gatos não é a mesma para cães

Veterinário explica melhor tratamento para animais diabéticos e compartilha um caso atendido

Cláudia Guimarães, em casa

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A diabetes mellitus consiste em uma endocrinopatia que ocorre quando há uma deficiência parcial ou total na produção e secreção da insulina pelo pâncreas ou a incapacidade da ação deste hormônio no organismo. Isso resulta em hiperglicemia e todas as suas manifestações clínicas progressivas secundárias, podendo, até mesmo, evoluir para óbito.

Conversamos com o médico-veterinário pós-graduando em Endocrinologia Veterinária, médico clínico de cães, gatos e pets não convencionais, com ênfase em Endocrinologia, Lucas Santana dos Santos Adorno, sobre a doença. Ele nos conta que a fisiopatogenia da diabetes mellitus em cães é muito similar em gatos, exceto por um fator importante: a causa. “Em gatos, a hipersecreção de insulina promove aumento significativo na produção de amilina, desenvolvendo amiloidose. Sendo assim, a resistência insulínica em gatos obesos é o principal agente desencadeador da diabetes”, explica.

Quanto ao grau de severidade da doença, Adorno menciona que está intimamente correlacionado com o agente causador da diabetes e, também, ao estágio em que a doença é diagnosticada e recebe interferência terapêutica para resolução do seu problema. “Animais mais tardiamente diagnosticados podem desenvolver o quadro de cetoacidose diabética, uma emergência endócrina que pode cursar com óbito rapidamente”, alerta.

Dentre as raças de cães mais predispostas ao desenvolvimento da diabetes, Adorno cita o Poodle, Schnauzer, Labrador, Cocker Spaniel, Shih-tzu e Pug. Em felinos, a incidência da diabetes mellitus está muito mais relacionada, segundo o profissional, com a obesidade, surgindo com mais frequência em animais castrados e sedentários, do que com raças propriamente ditas.

Grau de severidade da doença está correlacionado com o agente causador da diabetes e, também, ao estágio em que a doença é diagnosticada (Foto: reprodução)

Diagnosticando e tratando

O veterinário com ênfase em Endocrinologia declara que, para o diagnóstico da diabetes mellitus na clínica de pequenos animais, os exames hematológicos e urinários são de suma importância, onde os principais achados indicadores da diabetes serão: glicosúria, hiperglicemia, aumento da frutosamina e, em quadros mais graves, também podem ser observados, na urinalise cetonúria, outros fatores que podem estar envolvidos no paciente  diabético, como o aumento da atividade das enzimas FA , ALT e GGT e aumento de proteínas totais. “Além desses achados laboratoriais, alguns sinais clínicos devem ser observados, pois são indicativos desta enfermidade endócrina, entre eles: poliúria, polidipsia, polifagia, além de perda de peso brusca”, enumera.

Já em relação ao tratamento da diabetes mellitus em cães e gatos, Adorno indica, basicamente, a terapia insulínica, adequações no manejo alimentar, exercícios físicos e, dependendo do caso, uso de hipoglicemiantes orais. “Também é necessário monitorar a glicêmica do animal (curva glicêmica) para um controle glicêmico ideal e seguro, o qual deve variar entre 80 e 200mg por decilitro de glicose no sangue”, sugere.

O veterinário observa que o Brasil alberga grande carga bibliográfica a respeito da diabetes mellitus em cães e gatos, sendo seu tratamento e diagnóstico bem difundidos no meio da Medicina Veterinária. “No entanto, um olhar mais acurado para profilaxia da doença necessita ser empregado e difundido por parte dos veterinários clínicos para com os tutores, para que, dessa forma, sejam mitigadas as possibilidades do desenvolvimento desta enfermidade, que, muitas das vezes, está correlacionada a erros de manejos que os animais são submetidos por conta da ignorância de seus tutores”, argumenta.

Em sua visão, os médicos-veterinários são detentores do conhecimento e, por isso, devem fornecer, desde o momento da primeira consulta ou primeira vacinação, orientações a respeito do correto manejo ao qual o animal deve ser submetido. “Entre eles, suas  necessidades de exercícios físicos, de uma alimentação balanceada, bem como todos os fatores que podem predispor o animal a desenvolver esta enfermidade, dentre eles, o estado de animal castrado, obeso, sedentário, paciente em tratamento com medicações que podem predispor a diabetes,  doenças que podem levar ao estado diabético (hiperadrenocorticismo, pancreatite, etc.), além da solicitação de exames que possam oferecer um diagnóstico ou achados predisponentes da doença”, destaca.

Adorno defende que é preciso tratar os animais como indivíduos singulares. Conforme observado por ele, devido ao estreitamento de laços entre seres humanos e cães e gatos, muitos dos hábitos humanos têm sido transpassados para estes animais, como, por exemplo, o sedentarismo, a alimentação desbalanceada (visando sempre o mais apetitoso e prazeroso, que nem sempre é o mais saudável) e a obesidade. “Consequentemente, temos felinos e caninos mais obesos e mais sedentários e um aumento na rotina de animais diabéticos”, expõe.

Sendo assim, a Medicina Preventiva, bem como a propagação do conhecimento para com os tutores, para Adorno, são os pilares da saúde e bem-estar para os pets. “Como foi dito pelo Deus da Bíblia, ‘meu povo perece por falta de entendimento’. Muitos dos fatores que levam os animais a parecer estão correlacionados com a falta de conhecimento. Que não deixemos a ignorância e a insensatez ceifar vidas”, conclui.

A resistência insulínica em gatos obesos é o principal agente desencadeador da diabetes (Foto: reprodução)

Relato de caso

Lucas Adorno atendeu um caso recente de uma canina de, aproximadamente, sete anos, da raça Pinscher, que foi encaminhada em estado grave, após, aproximadamente, dois meses apresentando sintomatologia sugestiva de pancreatite, porém, sem exames muitos específicos para diagnóstico da doença.

“Esse paciente desenvolveu um quadro de pancreatite devido ao manejo ao qual era submetido. Se tratava de uma cadela obesa, que recebia alimentação hipercalórica e inadequada. Subsequente à pancreatite, as ilhotas de Langerhans entraram em um processo disfuncional, onde, possivelmente, o animal desenvolveu ineficiência na produção insulínica, entrando em um quadro de hiperglicemia, que, posteriormente, evoluiu para um quadro de cetoacidose diabética”, descreve.

Em seu primeiro atendimento para esse paciente, Adorno lembra que ela se encontrava com quadro de caquexia, poliúria, polidipsia, catarata bilateral, diarreia, vômito, desidratação (10 %) letargia e prostração. “Os exames laboratoriais deste animal apresentavam aumento das enzimas FA, ALT, hipertrigliceridemia, hipercolesterolemia, neutrofilia, lipase pancreática específica em, aproximadamente, 4000 ng/ml, hiperglicemia (acima de 300 mg/dl), glicosúria, cetonúria, frutosamina aumentada, além de anemia normocítica normocrônica regenerativa”, revela.

Na ultrassonografia, o profissional conta que foi observado aumento pancreático e hepatomegalia. “O animal foi internado e submetido a insulinoterapia à base de insulina regular, bem como tratamento de suporte para as alterações clínicas e laboratoriais. A cadela evoluiu favoravelmente e, atualmente, se encontra realizando insulinoterapia à base de insulina NPH, manejo alimentar corrigido, realiza exercícios físicos corriqueiramente, faz aferições constantes da glicemia, além de receber todo o acompanhamento quinzenal para realização de check-up geral”, narra.

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