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Dietas cruas aumentam o risco de contaminação por Salmonella e Listeria monocytogenes

Sem sinais clínicos, animais apresentam risco para a saúde humana

Wellington Torres, em casa

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O interesse dos tutores por oferecer uma alimentação que se aproxime cada vez mais do modo de vida ancestral dos animais tem ganhado muito espaço. Contudo, a oferta de alimentos crus pode acarretar diferentes problemas de saúde aos pets.

De acordo com a médica-veterinária e PhD em nutrição, Dra. Manuela Fischer, compreender o modo de vida atual dos animais de companhia é de extrema importância, para assim, poder oferecer uma dieta adequada e que faça real efeito na qualidade de vida de cães e gatos domésticos.

Entre as principais alegações mencionadas pelos tutores, estão a redução das doenças dentárias, o controle do peso, a melhora da pele e da pelagem, eliminação de alergias e melhora da imunidade. No entanto, como explica a profissional, ainda não existem comprovações científicas de que as dietas cruas, sejam elas com ou sem ossos, realmente funcionem em todas essas situações.

“Os relatos são baseados em experiências individuais de pessoas que utilizam as dietas para os seus próprios animais, animais de amigos ou parentes. Muitas delas publicam livros a respeito dessa modalidade de alimentação, mas preciso lembrar que qualquer um pode escrever um livro com suas opiniões” explica a profissional, complementando que “um estudo científico com essas dietas, a longo prazo, está sendo realizado, mas ainda não temos os resultados”.

Pets que consomem comidas cruas contaminadas podem ser colonizados com a Salmonella sem ao menos exibir quaisquer sinais clínicos (Foto: reprodução)

Dentre os malefícios que podem ser causados por esse tipo de dieta, Manuela pontua que os principais deles são: parasitose, perfuração, obstrução, fratura de dentes (modalidade com ossos) contaminação bacteriana e desbalanceamento nutricional. “O alimento cru não é balanceado diariamente. Quem defende essa dieta utiliza muita variação nos ingredientes, diferentes cortes de carnes, vísceras e o balanceamento diário é, praticamente, impossível, até mesmo porque a suplementação mineral e vitamínica muda de acordo com os ingredientes escolhidos e esse ajuste não é feito. Na prática, utiliza-se sempre a mesma quantidade de suplemento (isso quando é utilizado) independente dos demais ingredientes e proporções empregadas”.

No que tange à saúde dos dentes dos animais que consomem as dietas cruas e com ossos, um dos motivos citados como agregadores à prática, a médica-veterinária menciona alguns exemplos problemáticos a fim de fazer um questionamento. “Temos um caso de um animal que ficou mais de 30 dias com uma esofagite grave, com úlceras, em função de um alimento cru, graças a um osso que ele ingeriu. Outros tantos, com fratura de dente, bem comum aos animais que consomem essa dieta. Contudo, em todos os casos o que chamou atenção foi que os dentes estavam, realmente, limpos, mas será que isso é, de fato, bom ou, até mesmo, interessante ao todo?”, pontua.

Segundo ela, um estudo conhecido por ter avaliado carcaças de lobos selvagens mostrou que apenas 7% daqueles animais apresentavam cálculos dentais, mas 41% deles apresentavam algum grau de periodontite. Assim como outro levantamento, mas, este com o foco em felinos também selvagens. Somente 9% deles apresentaram cálculos dentais, mas 65% também com algum grau de periodontite. Outro estudo de 2016, que avaliou 40 crânios de lobos, somente 3 deles não apresentaram lesões orais.

“Pensando nesse tipo de situação, talvez não seja melhor, quem sabe pensar em escovação, ao contrário de já ir direto para uma dieta crua, já que ainda não temos comprovações palpáveis?”, indaga Manuela.

Outro risco que deve ser pontuado, como expressa a profissional, é referente à contaminação, ação atribuída ao consumo de carne crua. “Alguns dos patógenos mais comuns e que podem estar presentes na carne é a Salmonella, a Escherichia coli e o Campylobacter”, levanta e complementa: “Num estudo, cerca de 20% a 30% das carcaças de frango que vão para consumo humano são positivas para a Salmonella e esses números são ainda maiores nas carcaças que vão para consumo animal. Especialmente nos Estados Unidos, onde já possuem fábricas para dietas cruas e com ossos para cães e gatos”, contextualiza.

Segundo a veterinária, tutores que querem algo mais perto do natural devem optar por uma dieta cozida e devidamente balanceada, formulada por um profissional capacitado (Foto: reprodução)

Atenção redobrada

Mesmo que já seja de conhecimento literário que cães e gatos possuem certa resistência à Salmonelose, o problema com a dieta pode ir um pouco além. Como afirma a médica-veterinária, “o problema aqui é o risco à Saúde Pública”.

De acordo com ela, isso pode ocorrer pois, segundo novos estudos, os animais de estimação que consomem petiscos e comidas cruas contaminadas podem ser colonizados com a Salmonella sem ao menos exibir quaisquer sinais clínicos, tornando-os uma possível fonte oculta de contaminação no lar. Caso ocorra, a saúde de crianças, idosos e pessoas imunossuprimidas podem estar em risco.

“É claro que ainda tudo é muito novo e pode causar espanto. Mas, num futuro, pode ser que venhamos a nos surpreender com essas dietas. Hoje, com o que temos descrito na literatura, os meus dois pés continuam para trás em relação a esse tipo de dieta”, afirma a profissional.

O American College of Veterinary Nutrition (ACVN) não indica essas dietas para pets, assim como o American Animal Hospital Association (AAHA), American Veterinary Medical Association (AVMA), Centers for Disease Control and Prevention (CDC), Food and Drug Administration (FDA) e a World Small Animal Veterinary Association (WSAVA). Todos esses órgãos ou associações se posicionam contra a utilização das dietas BARF em seus sites. O fato é que os supostos benefícios não foram comprovados por meio de artigos científicos e pesquisa robusta, mas os prejuízos já foram amplamente descritos na literatura.

Manuela finaliza indicando que os tutores, quando preferirem algo mais perto do natural, optem por uma dieta cozida e devidamente balanceada, formulada por um profissional capacitado e atento às necessidades de cada pet. Outra opção são os alimentos úmidos, que contêm características nutricionais (alta umidade, proteína e gordura) mais parecidas às dietas caseiras.

Produção: texto foi elaborado, como forma de cobertura, de palestra ministrada pela médica-veterinária e PhD em nutrição, Dra. Manuela Fischer.

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