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Docentes e alunos de Veterinária do Ceunsp realizam projeto CED com gatos ferais

Alta população desses animais resulta em sofrimento animal e problemas sérios de Saúde Pública

Cláudia Guimarães, da redação

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Se você ainda não ouviu falar da sigla CED, vamos te apresentar para que acompanhe o restante do texto. Trata-se do método mais disseminado de controle populacional de gatos ferais e a sigla corresponde a Capturar, Esterilizar e Devolver ou também pode ser chamado de TNVRM (trap – neuter – vaccinate – return – monitor), que significa capturar – castrar – vacinar – devolver – monitorar.

Segundo a médica-veterinária, professora do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp) e responsável pelo Projeto Social C.E.D Felinos do Campus, Vivian Lindmayer Cisi, esse programa consiste em capturar os gatos, vacinar, esterilizar, marcar e, em seguida, devolvê-los no mesmo local onde foram capturados. “A ideia geral é a diminuição progressiva da população feral, castrando (orquietomia e ovariosalpingoesterectomia) gatos residentes, prevenindo a imigração de gatos sexualmente intactos para grupos que poderiam repovoar o local alvo”, explica.

Os gatos ferais evitam contato com pessoas, portanto, capturar um animal desses, novamente, para comprovar que ele já havia sido esterilizado é um desperdício de recursos, um risco para quem captura devido ao nível de agressividade desses animais, e um manuseio desnecessário. “Para evitar esse desgaste, durante a cirurgia, onde o animal ainda está anestesiado, a ponta da orelha esquerda é marcada para identificar o animal como um membro esterilizado de uma colônia controlada. Essa marca distintiva é o símbolo universalmente reconhecido de um gato de vida livre esterilizado”, revela.

Arregaçando as mangas

Vivian defende que, atualmente, a educação humanitária envolvendo a sensibilização e o respeito com todas as formas de vida, assim como o resgate dos valores humanos, devem fazer parte de programas de manejo de populações animais. “No entanto, nem sempre isso é fácil de ser implementado na prática. Dentro desse contexto, é muito importante que essas questões sejam discutidas dentro das instituições de Ensino”, opina.

Pensando nisso, lá no Ceunsp, Vivian coordena a iniciativa do projeto CED, que teve início dentro do grupo de estudos de Medicina do Coletivo, do curso de Medicina Veterinária. “Alunos da graduação, gestores, coordenadores, médicos-veterinários do Complexo Veterinário e funcionários estão envolvidos nas ações práticas e educativas. Trata-se de uma equipe multidisciplinar, onde a contribuição de cada personagem faz com que o manejo humanitário possa ser realizado”, comemora.

De acordo com Vivian, o projeto tem sido desenvolvido em diversas frentes nas instituições de ensino. “Realizamos o censo dos animais, manejo nutricional, castração cirúrgica minimamente invasiva, vacinação para profilaxia da raiva, além de educação e orientação a respeito do projeto e guarda responsável para os funcionários (docentes, seguranças, auxiliares de limpeza etc.) e alunos. Quando capturamos felinos dóceis, eles são encaminhados para adoção”, compartilha. E aqui é válido citar que todas as ações do projeto foram submetidas e aprovadas pelo Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA) e, também, pelos departamentos de controle de zoonoses dos municípios de Itu e Salto, interior de São Paulo.

Atualmente, as ações são realizadas estritamente nos campi da Ceunsp, porque, como comentado por Vivian, projetos de manejo populacional geram custos e levam tempo para que os resultados possam ser observados de forma concreta. “A parte prática de nosso projeto é voltada para as colônias de felinos que residem em nossas instituições de ensino. No entanto, é também elaborado material sobre guarda responsável para educação da população.  Esse é um ponto-chave do projeto. Os animais são dotados de proteção jurídica e, por este motivo, são protegidos pelo artigo 225 da Constituição Federal de 1988. O artigo 164 do Código Penal, caracteriza a conduta do abandono em terreno alheio, e mais voltado ao bem-estar dos animais, o artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº. 9.605/1998), pune com detenção de 3 (três) meses a 1 (um) ano quem pratica maus-tratos contra animais. Além de ser crime, o abandono de animais é uma das principais causas do aumento populacional de animais de rua, acarretando sofrimento animal e problemas sérios de Saúde Pública”, destaca.

Projeto CED do Ceunsp teve início dentro do grupo de estudos de Medicina do Coletivo, do curso de Medicina Veterinária (Foto: reprodução)

Conscientizar para melhorar

De uma forma geral, a docente afirma que o objetivo do projeto é controlar a população de gatos errantes e ferais nos campi universitários; promover ações educativas com a população de docentes, discentes e funcionários dos campi e proporcionar melhores condições de saúde para os felinos, assegurando-lhes o bem-estar e dignidade. “Por fim, contribuir para a Saúde Pública da população humana do entorno da área de permanência desses animais”, adiciona.

Sobre a conscientização para a população em geral, a veterinária lembra que gatos podem ser agrupados em três grandes categorias, de acordo com o local e modo como vivem:

Gatos domésticos: gatos domiciliados ou semi-domiciliados que se encontram sob responsabilidade de um indivíduo ou família. Seus tutores asseguram todas ou a maior parte de suas necessidades.

Gatos errantes: gatos que perambulam livremente em áreas urbanas ou rurais. Dependem do fornecimento direto ou indireto de recursos (alimentação, abrigo e proteção) pelo ser humano, mas não se encontram, necessariamente, sob sua tutela.

Gatos ferais: gatos que vivem em um estado selvagem, suas necessidades não são intencionalmente supridas pelos seres humanos. Sua alimentação é oriunda da caça e ou procura de restos de alimentos.

“Os felinos ferais, normalmente, são muito reativos, com baixa ou ausência de socialização com pessoas. Esses felinos não são pets, uma vez que o confinamento (seja em abrigo ou em domicílio) causa grande sofrimento e estresse. Segundo a médica-veterinária, fundadora do CED Brasil, uma iniciativa educacional sobre Captura, Esterilização e Devolução, Otávia Mello, gatos ferais ou ariscos não possuem potencial de adoção e abrigos de animais raramente irão aceitá-los, por conta de seu comportamento, geralmente, selvagem e assustado, além do fato da impossibilidade de garantias de adaptação a uma vida doméstica. Apesar de, fisicamente, se assemelharem aos gatos de estimação, os gatos ferais ou ariscos sobrevivem evitando o contato humano e, quando recebem cuidados, podem viver uma vida feliz e digna em suas colônias”, menciona.

Na visão de Vivian, o que precisamos todos entender é que, nem todo felino que está na rua é feral. “Muitos animais sem tutores já passaram por longos períodos de convívio em ambiente doméstico com os seres humanos”, insere.

Outro ponto levantado pela veterinária sobre o tema é que algumas pessoas questionam sobre o porquê devolver os gatos para o mesmo local onde foram capturados e não os colocar em abrigos ou para adoção, principalmente pelo fato de muitos animais serem sociáveis, ainda que ariscos. “Ou, ainda, porque não os realocamos para outro local. Além da questão que abordamos sobre os gatos ferais não terem potencial de adoção, existe outro fator muito importante que é o chamado efeito vácuo. Ao retirarmos de uma área que tem capacidade de suporte, outros animais que, na maioria das vezes, serão gatos não castrados, vão adentrar a esses locais, fazendo com que o ciclo de procriação desses animais continue. Os gatos castrados também acabam protegendo o local de outros gatos não castrados que não fazem parte da colônia”, discorre.

Quanto a realocá-los, Vivian diz que os gatos possuem grande instinto territorial e, provavelmente, tentarão voltar para seus locais de origem, mesmo que demore dias ou até semanas, colocando o animal em risco de atropelamento, por exemplo. “Além do ato poder ser considerado como abandono do animal, quando deixado em outro local que não o seu de origem. Por fim, é importante ressaltar que a castração é considerada um dos pilares para o controle de doenças com potencial zoonótico, como raiva e esporotricose, onde as principais formas de transmissão se dá por meio de arranhaduras e mordeduras causadas pelas brigas por disputas de território”, indica.

A profissional declara que, em grande parte de sua vida profissional, trabalhou com animais de vida livre, fato que foi facilitador em relação ao trabalho com felinos ferais. “Como profissional, trabalhar com qualquer ação que esteja relacionada à diminuição do sofrimento animal, assim como promoção de saúde, é extremamente gratificante. Outro fator muito recompensador é poder acompanhar essa nova geração de futuros profissionais em relação à valorização da vida daqueles que são mais vulneráveis. Isso não tem preço”, celebra.

Como ajudar?

Vivian sugere às pessoas que desejam lidar com estes gatos ferais que, além de ajudar financeiramente ou ser voluntários de projetos de manejo ético populacional, que pratica esse protocolo, elas podem colaborar de forma prática. “A prática não precisa ser feita apenas em colônias, matilhas ou grupos grandes de gatos. Castrar apenas um animal de rua, mesmo que a pessoa não possa adotá-lo, já faz uma grande diferença. Se a pessoa encontrou um animal em situação de rua e quer fazer a sua parte, o primeiro passo é buscar um veterinário de confiança, que esteja familiarizado com a castração minimamente invasiva, também conhecida como técnica do gancho, e com os conceitos do CED. Ele será fundamental para passar todas as informações necessárias”, orienta.

Outras ações que devem ser realizadas antes do início da intervenção de CED, como dito pela profissional são: estudar sobre o método; realizar a análise da colônia (quantidade de animais, sexo e idade dos mesmos, horários de movimentação, fonte de alimento, abrigos, existência de cuidadores, etc.), adquirir armadilhas, contenção, caixas de transporte, luvas de proteção, etc. “Se o animal em questão for amigável, essa etapa é desnecessária. Apenas levá-lo para uma consulta e seguir as orientações do veterinário em relação ao jejum e ao pós-operatório já é o suficiente. A imunização contra raiva também é extremamente necessária”, frisa.

Na equipe do Ceunsp, por exemplo, Vivian cita a aluna Larissa Grandi que, junto com uma médica-veterinária, atuou fazendo o controle populacional de felinos no condomínio residencial onde mora. “Outra aluna que foi pioneira nesse projeto e trouxe inúmeros conhecimentos foi a Priscilla Vecchi. Também contamos com a graduanda Mariana Bellon, que possui muita prática na adaptação de filhotes, oriundos de pais ferais, ao domicílio”, conclui.

Gatos ferais são aqueles que vivem em um estado selvagem, suas necessidades não são intencionalmente supridas pelos seres humanos (Foto: reprodução)

Depoimentos de graduandas participantes do projeto do Ceunsp

Priscilla Vecchi: “Fazer parte desse Projeto Social me mostrou o quanto a nossa sociedade carece de informações básicas a respeito da vida dos animais de vida livre. Como eles se camuflam na natureza, são subjugados autossuficientes, mas as pessoas esquecem ou até mesmo não sabem que eles não nascem nesses locais hostis por vontade própria e que muitos ainda precisam dos cuidados humanos”.

Larissa Grandi: “É extremamente gratificante poder fazer parte de um projeto como este. Com pouco tempo de atuação, já podemos ver os resultados de todo nosso esforço, ver a colônia controlada, animais sadios e alimentados. E a satisfação é maior ainda, quando capturamos uma ninhada e conseguimos introduzi-la em lares responsáveis e amorosos. Saber que esses pequenos seres estão recebendo amor e cuidado enche nossos corações de alegria e satisfação”.Mariana Bellon: “Desde o início da minha participação no Projeto CED nos campi da Ceunsp, tenho me apaixonado cada dia mais pela Medicina Veterinária do Coletivo. Juntamente com a prof. Dra Vivian e as colegas Priscilla e Larissa, pude aprender mais sobre a importância do manejo populacional de felinos ferais e errantes em nossa instituição, bem como a importância de acompanhar de perto o cuidado com estes animais. Hoje, sou responsável por auxiliar na alimentação deles, com uma boa ração nos comedouros que são dispostos em pontos estratégicos da faculdade. Um dos momentos mais emocionantes durante essa ação é perceber que estes animais depositaram, em nós, uma confiança significativa, pois passamos a conviver com tal frequência, que o sentimento é que eles sabem que estamos ali para cuidar e alimentar, além de ser magnífico ver o quanto essa ação faz diferença na vida dos animais e do meio ambiente ao redor”.

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