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Clínica e Nutrição, Destaques

Entender os hábitos do vetor da leishmaniose visceral ajuda a se proteger contra a doença

Por Equipe Cães&Gatos
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Por Equipe Cães&Gatos

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

A leishmaniose é uma doença infecciosa, não contagiosa, causada por um protozoário digenético (Leishmania infantum) e que depende de dois hospedeiros distintos para completar o ciclo epidemiológico: vertebrados (cães, gatos, equinos e homem) e invertebrados (dípteros também conhecidos por flebotomíneos).

Segundo o médico-veterinário, presidente do Grupo de estudos em Leishmaniose Animal (Brasileish), pesquisador e coordenador do Curso de Medicina Veterinária de Andradina (SP), Fábio dos Santos Nogueira, ainda que sejam descritas várias formas de transmissão, como as transfusões sanguíneas, transmissão transplacentária, sexual e por ectoparasitas, a principal forma de transmissão da doença é por meio da picada de fêmeas infectadas de Lutzomyia longipalpis.  

O profissional explica que, após a picada dos flebotomíneos, pode ocorrer uma resposta imunológica competente, com produção de algumas citocinas consideradas pró-inflamatórias, como interleucinas IL2, IL12, fator de necrose tumoral e, principalmente, Interferon gama nos cães. “Essa resposta costuma ser competente e pode ocorrer a citotoxicidade e a eliminação do parasito. No entanto, na maioria dos cães, ocorre uma resposta imune do tipo humoral, com a produção de outras interleucinas, como a IL4,IL5, IL6, IL10 e IL13 com a formação de complexos imunes que irão se depositar nos tecidos e determinando todo o quadro clínico do animal”, elucida.

De acordo com Nogueira, é importante analisar que o período de evolução da doença costuma ser variável e o balanço entre as respostas é o que irá determinar a intensidade e gravidade das lesões. “Normalmente, encontramos quadros de dermatopatias (dermatites ulcerativas, descamativas, onicopatias), oftalmopatias (ceratites, distrofias de córneas, blefarites, uveítes, hifemas), glomerulonefrites, osteopatias e comprometimento de outros órgãos”, cita.

Estes insetos caracterizam-se pelo voo curto, baixo e saltitante, não se afastam muito de seus criadouros e dos animais que servem como fonte de alimentação sanguínea (Foto: reprodução)

O grande causador do problema

Focando no principal disseminador da doença, o professor Associado III do Departamento de Microbiologia e Parasitologia, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), vice coordenador do Programa de Pós-Graduação em Biologia Parasitária da UFRN, Paulo Marcos da Matta Guedes, explica que os flebotomíneos são insetos de tamanho pequeno, medindo de 2 a 3mm com o corpo coberto por cerdas e coloração variando entre tons amarelados e marrons escuros.

“Estes insetos caracterizam-se pelo voo curto, baixo e saltitante, não se afastam muito de seus criadouros e dos animais que servem como fonte de alimentação sanguínea. Normalmente, eles apresentam dispersão de, aproximadamente, 200 metros ao redor de seus criadouros e fontes de alimentação”, revela.

Por isso, se existe um caso clínico humano de leishmaniose visceral em determinado bairro, segundo Guedes, provavelmente, em um raio de até 300 metros, haverá um animal reservatório infectado, frequentemente, o cão doméstico, que serviu de fonte de infecção para o flebotomíneo. “É importante ressaltar que humanos, comumente, apresentam parasitismo cutâneo baixo e não são boa fonte de infecção para os insetos. Por outro lado, os canídeos, normalmente, apresentam elevado parasitismo cutâneo e, por isso, atuam como fonte de infecção para o inseto, sendo o elo para a transmissão do parasito ao homem. Assim, o cão doméstico é o principal reservatório do parasito em ambiente doméstico. Também vale a pena ressaltar que apenas entre 10-20% dos pacientes humanos irão apresentar forma clínica crônica clássica de leishmaniose visceral e haverá notificação do caso clínico. Assim, para cada caso clínico humano descrito haverá, pelo menos, outros quatro assintomáticos e não notificados”, destaca.

Ele explica que os flebotomíneos apresentam metamorfose completa (são holometábolos), apresentando estágio de ovo, quatro estádios larvais (L1-L4), estágio de pupa e o adulto, além do tempo de desenvolvimento completo, podendo variar a depender da espécie e das condições ambientais. “Lutzomyia longipalpis apresenta ciclo de desenvolvimento que varia entre 30 a 45 dias em condições de laboratório. As larvas se desenvolvem em micro-habitat úmido, onde haja substrato orgânico para alimentação. Os insetos adultos machos e fêmeas se alimentam de substâncias açucaradas, como néctar de plantas, que utilizam para desempenhar funções vitais como o voo, acasalamento e postura de ovos. As fêmeas também são hematófagas, alimentam-se de sangue para o desenvolvimento e maturação dos ovos e, durante esse repasto, se infectam ou transmitem a Leishmania infantum. A maioria das espécies de flebotomíneos apresenta hábitos crepusculares e noturnos, permanecendo em locais protegidos durante o dia”, descreve.

As formas de proteção individual dos animais, por meio de colares repelentes, pipetas, sprays e vacinas, devem ser estimuladas (Foto: reprodução)

Propagação do vetor

A introdução de animais no ambiente peridomiciliar, como cães, aves, equinos, suínos e ovinos, segundo o biólogo, constituem fontes sanguíneas que favorecem o desenvolvimento do vetor e possibilita a perpetuação do ciclo de transmissão de Leishmania infantum. “Em ambientes antrópicos, espécimes de Lutzomyia longipalpis são encontrados em abrigos artificiais que incluem áreas sombreadas e úmidas, principalmente, próximo a locais de criação de animais, como galinheiros, chiqueiros, currais e estábulos”, menciona.

Esses locais são escolhidos, ainda conforme elucidado pelo profissional, por serem fonte para obtenção de sangue, além de serem favoráveis para a oviposição e o desenvolvimento das formas imaturas com solos ricos em umidade e matéria orgânica. “Lutzomyia longipalpis possui hábitos alimentares ecléticos, apresentando marcada zoofilia e antropofilia, ou seja, alimentam-se bem em animais e no homem. O Lutzomyia longipalpis é considerado oportunista, podendo se alimentar em aves, equinos, bovinos, roedores, marsupiais, cães e, até mesmo, em seres humanos, favorecendo o papel como vetor nos ciclos zoonóticos de L. infantum e facilitando o estabelecimento e a colonização do ambiente antrópico”, discorre.

Animal infectado: como proceder?

Paulo Guedes relata que o tratamento de cães com miltefosina (Milteforan) não induz cura parasitológica nos cães, apenas cura clínica, ou seja, o animal permanecerá infectado com L. infantum. “Essa é uma medida individual, de escolha do tutor, pois o cão, na grande maioria dos casos, é considerado um membro da família. O animal deverá ser acompanhado, periodicamente, por um veterinário, pelo menos a cada seis meses. Provavelmente, necessitará fazer outros esquemas terapêuticos com o medicamento, caso volte a apresentar manifestações clínicas da doença”, indica.

Além disso, o animal deverá ser mantido com coleira repelente, de acordo com Guedes, pois continua apresentando parasitismo cutâneo, embora reduzido, e pode servir de fonte de infecção para flebotomíneos. “O tratamento em massa de cães de área endêmica com miltefosina não é utilizado como medida de controle da leishmaniose visceral. O fluralaner (Bravecto) também poderia ser utilizado em cães tratados com miltefosina, pois os insetos que se alimentarem de sangue nesses animais morrerão, interrompendo o ciclo do parasito”, sugere.

O profissional lembra que a Leishmania infantum só infecta mamíferos, contudo, ter um galinheiro no peridomicílio é fator de risco para leishmaniose visceral pois o Lutzomyia longipalpis utiliza as galinhas como fonte de alimentação sanguínea. “O galinheiro serve de abrigo para o inseto adulto e o acúmulo de fezes das aves serve de criadouro para as larvas do inseto. Assim, a presença de galinheiro mantém a colônia de flebotomíneos próximo das residências humanas”, alerta.

O veterinário e presidente do Brasileish, Fábio Nogueira, afirma que todas as ações a fim de evitar a propagação dessa zoonose devem ser direcionadas para o controle do vetor: “Isso deve ser realizado por meio da conscientização da população quanto aos focos e das formas de repelência. As formas de proteção individual dos animais, por meio de colares repelentes, pipetas, sprays e vacinas, devem ser estimuladas”, diz.

Nogueira acredita que, hoje, depois de muitas décadas de eutanásia canina como principal método de controle, a população já está mais consciente da ineficácia desta medida. “Mas ainda acredito que seja necessário a educação com o bem-estar animal, cuidados e proteção”, reforça.

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