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Estudo destaca a importância de relações cooperativas entre humanos e animais selvagens

Pesquisadores destacam que mudanças ambientais, culturais e econômicas colocam essas cooperações em risco

Uma pesquisa publicada em junho, na revista científica Conservation Letters da Sociedade de Biologia de Conservação, analisou a importância das interações mutuamente benéficas entre humanos e animais selvagens. Os autores do texto – um grupo internacional e interdisciplinar de mais de 40 especialistas, incluindo biólogos, antropólogos, linguistas, pescadores e catadores-de-mel de conservação – ressaltam como devem ser feitas medidas de proteção a favor da cooperação desses grupos.

Coautor do trabalho, o professor do Departamento Interdisciplinar do Câmpus Litoral Norte, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ignacio Moreno, cita que a pesquisa definiu seis tópicos para que seja possível a manutenção dessas interações. Dentre eles, se destacam: o estabelecimento de estratégias de conservação éticas em conjunto com as comunidades humanas participantes; a proteção dos ambientes adequados; a busca por uma transmissão cultural local facilitada; a ampla disponibilização dos conhecimentos tradicionais e científico; e a realização de estudos empíricos de longo prazo para melhor compreender essas interações e identificar ameaças.

Outro fator a ser destacado nessa pesquisa é que assinam o artigo, além de pesquisadores de diversas universidades da Europa, África, Ásia, América do Norte e América do Sul, pessoas que vivem o cotidiano abordado pelo estudo e não são vinculadas a instituições acadêmicas, como catadores-de-mel e pescadores artesanais. Com essa aplicação, o trabalho evidencia que planos de proteção sob medida – isto é, discutidos em conjunto com as comunidades locais – são, portanto, necessários para proteger essas interações. “Esse trabalho foi feito de uma forma a compilar os dados presentes na literatura, revisar e organizá-los. Quando começamos a pensar nessa questão, achamos interessante que os pescadores fossem ouvidos, pois muito do que está escrito foi discutido ou trazido por eles”, cita Ignacio.

“Muito do conhecimento tradicional que a gente traz pra universidade, apresenta em congressos e em trabalhos científicos geralmente vem de pessoas das comunidades locais, que transmitem esse conhecimento e quase nunca recebem o crédito”, adiciona.

Pesquisador cita o exemplo da cooperação entre humanos e botos no Sul do Brasil, que auxilia na pesca da tainha (Foto: divulgação)

Condições para a cooperação humanos-animais selvagens

Para que exista a condição de cooperação, são necessários alguns componentes: um humano e um animal selvagem com motivações a permanecer em uma interação, um ambiente adequado e conhecimento interespécies compatível (ou seja, informações aprendidas referentes à interação dessas espécies).

Contudo, razões ambientais – como o desmatamento ou o crescimento urbano desordenado –, culturais e econômicas podem causar o declínio das cooperações. Um exemplo é a interação humana com os pássaros da família Indicatoridae, apelidados de “guia de mel”, que auxiliam os catadores-de-mel do continente africano na coleta do produto. Esse tipo de cooperação tem sido gradativamente substituído pelo apiculturismo ou outras fontes de açúcar.

Outro ponto negativo que, segundo a pesquisa, afeta as relações sociais entre a nossa espécie com os animais selvagens é o deslocamento de povos indígenas e comunidades tradicionais de seus locais de origem, provocado por colonos agrícolas, grileiros ou desenvolvedores urbanos. Em Tramandaí (RS), por exemplo, o desenvolvimento urbano desordenado deslocou os bairros das comunidades pesqueiras para a periferia da cidade, longe dos locais onde ocorre a pesca cooperativa entre seres humanos e botos. 

Para que se garanta a cooperação entre seres humanos e animais selvagens para as próximas gerações, os autores do estudo afirmam, ainda, que é necessário planejar as medidas de salvaguarda baseadas nas necessidades e interesses das comunidades humanas e de vida selvagem participantes, considerando as consequências para o ecossistema. Ele complementa que as intervenções realizadas nos locais devem sempre seguir os padrões previstos pela Sociedade Internacional de Etnobiologia e o princípio do Consentimento Livre e Informado, que é central na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Campanhas de conscientização também podem estimular a motivação para a conservação.

O pesquisador cita o exemplo da cooperação entre humanos e botos no Sul do Brasil, que auxilia na pesca da tainha. Ele diz que, com uma melhor fiscalização contra redes de pesca proibidas, seria possível reduzir acidentes com botos no Sul brasileiro. Nesse sentido, melhor controle do tráfego de embarcações, consideração da vulnerabilidade da cooperação entre humanos e botos nos planos de desenvolvimento urbano nas áreas costeiras, estabelecimento de cotas de pesca comercial e policiamento mais rigoroso da pesca ilegal são cruciais para a conservação das populações de botos que cooperam com os seres humanos.

“O trabalho teve uma contribuição muito importante do ponto de vista socioeconômico e sociocultural. Porque aqui trouxemos o componente ‘humano’ como sendo muito importante também. Geralmente as pessoas entendem que, para preservar a natureza, o ser humano tem que estar deslocado dela, que não fazemos parte da natureza”, comenta o pesquisador. “Cientistas, conservacionistas e comunidades locais devem colaborar para identificar as ameaças específicas que os casos de cooperação entre humanos e animais selvagens enfrentam e contê-las, conscientizar o público e documentar os aspectos insubstituíveis do patrimônio cultural que representam”, completa.

Fonte: UFRGS, adaptado pela equipe Cães&Gatos VET FOOD.

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