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Fim da reprodução de braquicefálicos: será, de fato, possível esse marco na Veterinária?

Iniciativa “Vets against brachycephalism” reúne profissionais de diversos países em prol do bem-estar animal

Cláudia Guimarães, em casa

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Começo esse texto com uma indagação que se aplica a muitos assuntos, hoje em dia: a que ponto a estética vale mais que a saúde e bem-estar dos indivíduos? Como disse, pode se aplicar a práticas humanas também, mas, aqui, nosso foco são os animais, mais precisamente as raças braquicefálicas.

Veterinários, estudantes de Medicina Veterinária e outros profissionais do setor de diversos países se uniram na iniciativa “Vets against brachycephalism” (Veterinários contra braquicefalismo), que é contra a reprodução de raças braquicefálicas de cães, gatos, coelhos e cavalos. 

Lembrando: animais braquicefálicos são aqueles com focinho curto, como Pug, Shih tzu, Buldogue francês, Buldogue Inglês, Pequinês, Lhasa Apso, Boxer, Cavalier king charles spaniel, Boston terrier e, entre os gatos, Gato birmanês (Burmese cat), Shorthair exótico e Persa. Essa característica foi alcançada devido a modificações nos animais, o que causa uma variedade de problemas de saúde nos mesmos.

A equipe web da C&G VF conversou com a cirurgiã veterinária, autora e fundadora da iniciativa Veterinários contra braquicefalismo, Dra. Emma Milne. Ela nos conta que tem realizado campanhas por mais de 20 anos contra a deformação em animais de estimação, por conta das doenças e enorme sofrimento desnecessário que tais procedimentos causam. “A braquicefalia é o epítome da crueldade. O enorme aumento da popularidade dos cães, em particular, está causando angústia emocional em veterinários em todo o mundo, bem como sofrimento para os animais”, analisa.

A profissional, inicialmente, tinha a ideia de fazer uma lista de especialistas que assinariam uma carta aberta, defendendo que criar animais braquicefálicos é errado, em termos de bem-estar. “Logo, ficou claro que os veterinários pensavam da mesma maneira. Então, decidi criar o site como uma carta aberta permanente, para que países pudessem o utilizar para mostrar como nos sentimos sobre isso e, esperançosamente, usar este show de sentimentos e opiniões de especialistas para promover mudanças positivas para o bem-estar animal em seus próprios países”, compartilha.

Pug, Shih tzu, Buldogue e Persa são algumas das raças, entre cães e gatos, consideradas braquicefálicas (Foto: reprodução)

Anatomia prejudicial à saúde

O médico-veterinário, pós-graduado em clínica médica e clinica cirúrgica de pequenos animais, pós-graduado em ortopedia veterinária, mestre em ciências veterinária, doutorando em biotecnologia animal, Cirurgião e diretor geral do Hospital Veterinário DUOVET (Ji-Paraná-RO), Luiz Donizete Campeiro Junior, descreve as características das raças braquicefálicas:

“São animais que apresentam focinho muito curto, o que acaba dificultando toda a passagem de ar de vias aéreas superiores; apresentam prolongamento de palato mole; são providos de órbitas rasas, ossos curtos e, em algumas raças, com desvio do eixo osso anatômico; pescoço grosso; animais normalmente obesos; excesso de pele tanto em região de face, como, também, no corpo inteiro”.

Ele acredita que a criação dessas raças seja contrária ao bem-estar animal. “São raças que, na sua maioria, acabam não tendo uma boa qualidade de vida, apresentam grandes dificuldades respiratórias, principalmente após exercícios, podem apresentar problemas cardíacos e, consequentemente, a síndrome braquicefalica. Essa é uma junção de diversas alterações anatômicas das vias aéreas superiores em que causam a resistência ou a dificuldade da passagem de ar e que pode levar a óbito”, explica.

Ainda sobre a síndrome braquicefálica, o veterinário diz que engloba o prolongamento de palato mole, estenose de narinas, eversão dos sacos laríngeos e hipoplasia de traqueia. A síndrome pode, ainda, causar edema de palato e de laringe, colapso de traqueia, além de estenose intranasal. “Consequentemente a todos esses problemas, as raças braquicefalicas podem ter hipertensão pulmonar que pode levar a dilatação e hipertrofia do ventrículo direito”, menciona.

Esses animais apresentam grandes dificuldades respiratórias, principalmente após exercícios, podem apresentar problemas cardíacos e, consequentemente, a síndrome braquicefalica (Foto: reprodução)

Adesão

Segundo Emma, os veterinários, apaixonados pelos animais, mandam e-mails para ela “de partir o coração”, com relatos sobre tentativas de “consertar” esses animais diariamente. “Vários dos cães não podem se reproduzir naturalmente, então, estão se apegando à existência por meio de intervenções. Além disso, precisam de várias cirurgias para as muitas doenças e problemas que eles têm ao longo de suas vidas”, observa.

O site de Emma, agora, é acessado por veterinários de 66 países ao redor do mundo e, recentemente, após a publicação de alguns artigos, teve mais de 200 veterinários da América do Sul e América Central se inscrevendo. “É ótimo que a notícia esteja se espalhando, mas é muito triste que precisemos ter campanhas como essa em primeiro lugar”, lamenta.

Apesar de a iniciativa ter atingido profissionais de todo o mundo, Emma conta que são poucos os veterinários do Brasil que se cadastraram no site, bem como nenhuma entidade brasileira. “O site ainda não atingiu boa divulgação e, então, pode ser que muitos veterinários no Brasil ainda não saibam disso”, analisa.

Para Emma, é preciso continuar tentando educar as pessoas antes de comprarem os animais. “Eu escrevi um livro sobre como escolher animais saudáveis ​​e quais raças evitar. Chama-se ‘Picking a Pedigree: How to Choose a Healthy Puppy or Kitten’ (Escolhendo um Pedigree: Como Escolher um Filhote de Cachorro ou Gatinho Saudável). Acho que precisamos ser mais francos, como veterinários, e mais honesto com os clientes e criadores sobre os danos causados pelo formato do corpo do animal. Estamos criando animais que nascem para sofrer. Acredito que os veterinários deveriam ter políticas rígidas sobre serviços reprodutivos para esses animais”, opina.

Fim da reprodução: é possível?

“Eu, sinceramente, espero que sim”, diz Emma, que nos conta que, na Europa, muitos países têm leis que proíbem a criação de animais que são susceptíveis de criar descendentes prejudiciais, mas, ainda assim, continua o tempo todo, porque as leis não são aplicadas. “Braquicefalia é indefensável, em minha opinião. Sabemos, por muitos estudos, que cerca da metade dos buldogues e pugs ingleses e franceses não consegue respirar corretamente. Muitos não conseguem dormir e têm problemas intestinais. Além disso, seus olhos esbugalhados são expostos a danos e suas dobras cutâneas infeccionam. É absolutamente trágico”, indica.

Veterinários devem sempre aconselhar a não colocar animais que apresentam problemas da raça para reprodução (Foto: reprodução)

O veterinário Campeiro Junior destaca que os animais que apresentarem dificuldade respiratória, principalmente, devem passar por tratamento cirúrgico o quanto antes, pois, na maioria dos casos, existem correções para os problemas respiratórios e quanto antes corrigir, melhor. “Os veterinários devem sempre aconselhar a não colocar animais que apresentam problemas da raça para reprodução, pois podem passar esses problemas por fatores genéticos. Indicar sempre os tutores a fazerem o controle de peso, exames periodicamente, como radiografia de tórax, eletrocardiograma”, destaca.

Campeiro Junior também acredita que seja, de fato, possível a proibição da criação dessas raças. “Isso porque essa é uma proposta que visa acabar com o sofrimento desses animais, poupando, assim, seus tutores de problemas futuros, tantos emocionais, como financeiros”, pondera.

Emma deseja que mais associações veterinárias se inscrevam no site para que se torne viável ajudar com mais efetividade e obter o melhor aos animais. “Mas agradeço aos veterinários que já apoiam esta causa. Espero que a maré esteja mudando e que os futuros veterinários não precisem mais lidar com essa dor de cabeça, como a nossa geração”, finaliza.

Na visão de Luiz Donizete Campeiro Junior, a proposta debatida é de grande importância para a sociedade. “Estamos tentando trazer melhor qualidade para as raças entre cães e gatos e minimizando grandes problemas futuros para tutores, pois, para a síndrome braquicefalica, existem correções cirúrgicas (não para todas alterações, mas para a maioria sim), porém são técnicas um pouco mais detalhadas, que, na maioria das vezes, necessita de grande expertises e experiencia do médico-veterinário cirurgião e grande investimento em equipamentos cirúrgico, como por exemplo o laser cirúrgico, para a realização de cirurgias a laser. Esse procedimento é de grande eficácia na recuperação pós-cirúrgica dos animais, diminuindo grande edema pós-cirúrgico e recuperação imediata. Acredito que grande parte da sociedade dos veterinários estará ao nosso lado nessa batalha”, encerra.

Interessados em participar desse movimento, podem obter mais informações e se cadastrar neste link.

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