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CLASSE VETERINÁRIA DEVE ORIENTAR TUTORES DURANTE ISOLAMENTO SOCIAL

Veterinário deve tirar todas as dúvidas a fim de evitar casos de maus-tratos

Cláudia Guimarães, em casa

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A questão de maus-tratos com os animais vai muito além do que a maioria das pessoas pensam. Não significa apenas a violência contra eles, mas abandono, mantê-los presos em ambientes pequenos, sem cuidado com a higiene, enquanto é exposto a sol e chuva, não oferecer cuidados veterinários, entre outras ações, se encaixam no termo. Nas últimas semanas, nos deparamos com relatos de médicos-veterinários dizendo que atenderam animais abandonados, onde antes não havia, e, até mesmo, relatos de agressão contra os pets. O que leva alguém a fazer isso?

O diretor Geral no Hovet Pompeia/VetGroup, Fabiano de Granville Ponce, conta à C&G VF que sua equipe de plantão se deparou com um cliente chegando chorando, com a camisa ensanguentada. Em seu colo havia um cão já inconsciente, com a respiração agônica. “Já na sala de emergência, entubado, notamos as mucosas perláceas e extensa solução de continuidade em região cervical (corte profundo no pescoço). Em poucos minutos, evoluiu para óbito. O tutor disse que o animal foi esfaqueado pelo próprio filho, que, minutos depois, tentou o suicídio, fazendo o mesmo em si. A última notícia que tivemos é de que o garoto (15 anos) estava na UTI em condição estável”, narra.

Em sua visão, estamos passando por um momento atípico, com pessoas em quarentena e inseguras em relação ao futuro. “Este cenário possibilita reações mais violentas do tutor em relação ao seu pet. Nada justifica maus-tratos, mas esses cuidados/prevenção deveriam ser levados em consideração”, salienta.

Em meio a mudanças e novas realidades, as pessoas ficam assustas e com medo do futuro, podendo desencadear reações inesperadas (Foto: reprodução)

A psicóloga, médica-veterinária e mestranda em Medicina e Bem-Estar Animal, Renata Bottura, também observa que estamos, de fato, passando por uma situação mundial extremamente delicada e, então, não é difícil imaginar quão assustadas as pessoas estão, tanto em nível individual como coletivo. “Falarei apenas em suposições, dado todo esse contexto, cogitando algumas hipóteses plausíveis que expliquem esse aumento nos casos de abandono e maus-tratos contra animais: quem lida com o dia a dia de resgate e demais cuidados com pets em geral sabe que existem épocas ‘mais propícias’ ao abandono (período de férias, pós-Natal, por exemplo, é uma delas) – e este pode ser um destes ‘períodos’, estando as pessoas confrontadas com uma situação nova e assustadora, cuja própria vida pode estar em risco”, descreve.

Para Renata, a falta de informação para muitos (que ainda acreditam que cães e gatos, principalmente, podem transmitir o vírus que está circulando); talvez a falta de recurso financeiro para prover a alimentação para o animal ou o medo de que possa vir a faltar para si e sua família se gastar com “supérfluos”, além da circulação em geral de “fakenews” são ingredientes que criam o pior cenário possível para os animais de estimação. “Creio que, nesse momento, mais do que nunca, a classe médica veterinária tenha que estar presente e atuante, junto de seus clientes, repassando dados confiáveis, fidedignos, para juntos, combatermos qualquer situação de maus-tratos e mais abandonos. A informação, agora, é um dos instrumentos mais ricos que possuímos”, avalia.

Comportamento animal x comportamento humano. Em um vídeo que circulou pela internet, a tutora confessava ter enforcado seu cão porque ele latia muito. Sobre isso, Ponce afirma que, em primeiro lugar, vale salientar de que se trata de um processo crônico. “Não é do dia para a noite que o animal assume esse tipo de comportamento. Ele é influenciado por fatores genéticos (ainda imutáveis) e de ambiente”, aponta.

Renata aponta que algumas situações demonstram, claramente, a natureza perversa após um fato contra um animal. “Não podemos mais aceitar, então, que se trata ‘apenas’ do momento atual que estamos enfrentando, já que várias outras pessoas também o estão e não cometem estes crimes, correto? Porém, precisamos ter cautela com nossas avaliações quando não dispomos de todos os fatos. O que, hoje, já se aceita na psiquiatria e na psicologia é que a presença de qualquer abuso ou agressão contra animais acende uma ‘luz vermelha’ para nós profissionais, indicando que algo não está bem naquela dinâmica familiar ou com aquele indivíduo e que, se não for tratado a tempo (considerando crianças e adolescentes principalmente), pode ser, sim, um fator indicativo de um transtorno de personalidade mais grave”, discorre.

Tutor pode procurar um veterinário também por conta de problemas comportamentais dos animais (Foto: reprodução)

No entanto, a profissional reforça: “Não basta apenas o que sabemos por meio das redes sociais! Cada caso precisa de um acompanhamento sério, realizado por profissionais capacitados para tal – e, quando houver o envolvimento de um animal, o veterinário também comporá esta equipe multiprofissional”.

Como contornar as situações desagradáveis? Para o veterinário Fabiano Ponce, em casos de o animal estar fazendo muito barulho, por exemplo, latindo sem parar, seria importante o tutor tentar entender o motivo e separá-lo daquilo que o motiva. “Se é o movimento na rua, tirá-lo da garagem. Caso se trate de atenção, dê a ele, nem que por um breve período, o que ele reivindica. Lembrar que o feedback negativo (broncas) tem maior eficácia quando dado na hora. Exemplo: não adianta chegarmos da rua, nos depararmos com urina no tapete e daí darmos bronca no animal. Mas se o virmos no momento da micção, aí sim, uma chamada de atenção é bem-vinda.

Renata incrementa dizendo que não existe uma fórmula pronta sobre como tratar corretamente de um animal. “Por outro lado (o que considero um ponto positivo), acredito que, hoje em dia, os tutores possuem mais alternativas de onde e como buscar ajuda, mesmo aqueles com mais dificuldades financeiras – se isso for um fator limitador. Cabe lembrar que, em São Paulo, já contamos com dois hospitais veterinários públicos oferecendo serviços para a população. O cuidador deve procurar um veterinário cujo trabalho vai além dos cuidados com a saúde dos animais, mas também pode auxiliar em problemas comportamentais que estejam afetando a relação animal x tutor”, comenta.

Sobretudo, nessa fase de isolamento social, onde diversos fatores podem ser estressantes, Ponce declara que se alguém souber de ataque ou qualquer tipo de maus-tratos aos animais, o importante é denunciar. “A denúncia de maus-tratos é legitimada pelo Art. 32, da Lei Federal nº. 9.605, de 12.02.1998 (Lei de Crimes Ambientais) e pela Constituição Federal Brasileira”, cita.

Renata ainda recomenda a qualquer pessoa que presenciar casos de maus-tratos acessar a Cartilha de Defesa Animal, do Ministério Público de São Paulo, que contém informações relevantes sobre como fazer uma denúncia. “E, para os veterinários interessados em avaliar se as condições de determinado animal configuram ou não maus-tratos, para se embasarem tecnicamente em seus relatórios, sugiro a adoção como referência do Protocolo de Perícia em Bem Estar Animal (HAMMERSCHMIDT, 2017)”, adiciona.

O convívio com pets, quando harmonioso, melhora a qualidade de vida das pessoas (Foto: reprodução)

Reconheça o bem que o animal te faz. O médico-veterinário lembra que, mesmo em momentos difíceis, como muitos estão enfrentando nesta quarentena, é preciso reconhecer os benefícios que a convivência com animais de companhia nos traz. “Reduz o estresse, diminui depressão (na companhia dos pets produzimos mais ocitocina, prolactina e serotonina, o que melhora nosso humor), diminui o risco de alergia em crianças (segundo estudo da Universidade de Wisconsin-Madison, em 33% delas, porque elas desenvolvem um sistema imune mais forte na companhia dos pets)”, elenca. Além disso, segundo Ponce, os animais fazem bem para nosso coração, reduzem o risco de AVC, entre outros itens positivos.

Na visão de Renata, é possível dizer, de modo geral, que, nesse convívio, quando harmonioso, há uma melhora da qualidade de vida para as pessoas e que os animais trazem estados de felicidade, diminuem sentimentos de solidão e auxiliam na melhora de outras condições físicas e psíquicas, inclusive quadros depressivos. “Nesses dias de reclusão que estamos vivenciando, algo tão inusitado para os brasileiros, sempre tão afetivos e sociáveis, nossos animais podem, sim, ser ótimas companhias e muito nos ajudar. Seja com as tarefas próprias dos cuidados para com eles, que fazem nos ocupar , mas com diversão; seja com os momentos em que nos dedicaremos a eles: com as brincadeiras, com as escovações (que podem ser mais frequentes agora) ou, simplesmente, estando com eles ao lado lendo um bom livro. Duvido que paire no ar algum sentimento de solidão. Onde poderíamos encontrar ‘terapia’ mais completa?”, indaga.

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