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Diagnóstico de câncer deve ser compartilhado ao tutor com empatia e honestidade

Médicas-veterinárias falam sobre a doença, panorama nacional e atendimento clínico

Wellington Torres, de casa

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Ouvir a palavra câncer desperta inúmeros medos e inseguranças, inclusive quando o diagnóstico é referente aos pets. Como forma de prevenção, deixando a sociedade mais atenta sobre o tema, o dia 04 de fevereiro é conhecido por campanhas, dando a ele a alcunha de Dia Mundial de Combate ao Câncer. 

E para sabermos mais sobre a doença nos pets e como o Brasil tem se posicionado frente ao diagnóstico e tratamento, conversamos com as médicas-veterinárias Liliana Reis Rosa, especializada em Cirurgia e Oncologia de Pequenos Animais, e com a Profa. Dra. em oncologia, Beatriz Kerr. 

Em cães e gatos, o tumor mais comum é o de mama, em fêmeas não castradas (Foto: reprodução)

Segundo Beatriz, os tumores mais frequentes nos pets, de forma geral, são os de mama, pele (cutâneo) e os hematopoiéticos (linfomas e leucemias), mas há especificidades entre as espécies. “Nos felinos, o mais frequente é o linfoma na sua forma de apresentação alimentar, o tumor de mamas (principalmente em fêmeas não castradas) e o tumor de células escamosas – que acomete a pele e, muitas vezes, se assemelha a feridas que “não cicatrizam”. Já nos cães, de forma mais específica, o tumor mais comum é o de mama – principalmente em cadelas não castradas precocemente, os linfomas (na sua forma de apresentação multicêntrica) e as neoplasias cutâneas”, explica a médica-veterinária. 

Em contrapartida, como ressalta e complementa Liliana, um dos menos comuns (ou talvez menos diagnosticado na clínica de atendimento, como afirma) é o tumor prostático, com incidência aproximada de apenas 4%. 

Para preveni-los, na medida do possível, a médica-veterinária destaca que a base para a ação está no conhecimento das alterações metabólicas que predispõe a formação de neoplasias e o manejo nutricional dos animais. “A castração precoce (nos casos de neoplasias dependentes de hormônio), controle de exposição solar, agentes químicos e infecciosos são fatores importantes para a prevenção”, afirma Liliana. 

E como o tempo é o maior aliado quando se fala em sucesso de tratamento, Beatriz Keer chama atenção para o tutor. “[Ele] deve estar sempre atento a presença de aumento de volume em qualquer região do corpo de crescimento lento ou rápido, com qualquer tipo de consistência, podendo ou não apresentar dor à manipulação na pele, em ossos, na face e no abdômen. Nunca esperar que um nódulo ou tumor cresça para buscar atendimento. Além disso, feridas que não cicatrizam, claudicação intermitente, dificuldade de deglutição, hesitação à prática de exercícios físicos ou falta de resistência também podem ser sinais de início da doença. Neste caso, o oncologista veterinário é o profissional mais adequado para realizar o diagnóstico, indicar o tratamento informando riscos e benefícios, falar sobre as probabilidades de resposta ao tratamento, bem como manejar adequadamente o paciente durante o tratamento cirúrgico e/ou clínico e controlar os efeitos colaterais do processo”, explica a Dra.

O diagnóstico se torna mais difícil ao tutor quando ele apresenta casos de câncer ou pessoas próximas acometidas pela doença (Foto: reprodução)

Ainda de acordo com ela, após o diagnóstico, quando o paciente apresenta uma massa, o mais indicado é a remoção cirúrgica com ampla margem de segurança. “Muitos tumores, dependendo do exame de histopatológico (análise das células do tumor), necessitam de quimioterapia como forma de tratamento complementar à cirurgia. No caso de linfoma ou leucemias, o tratamento é apenas quimioterápico”, destaca. 

Liliana também pontua outras possibilidades, como a criocirurgia, a eletroquimioterapia e que, “há pouco tempo adquirimos a possibilidade de realizar radioterapia no Brasil”. 

Mas como o Brasil se posiciona frente ao diagnóstico e tratamento de câncer em pets? Para a especialista, atualmente, os tratamentos oncológicos contam com exames específicos e inovadores, como citometria de fluxo, imunnohistoquimica, PARR (para linfomas) e Onco Mapa (mapeamento genético).  “Contudo, caminhamos sempre atrás dos países de primeiro mundo, mesmo que consigamos nos manter não muito distante deles”.

Indo além, a Dra. em oncologia Beatriz Kerr afirma que a Medicina Veterinária no Brasil ainda defronta obstáculos, como no desenvolvimento de pesquisas. “A falta de incentivo político para investimentos nos estudos e pesquisa, resulta diretamente na dificuldade para aquisição de insumos, remuneração de pesquisadores e obtenção de equipamentos de ponta para universidades e centros de pesquisa”, afirma.

Também de acordo com ela, outra área que a Veterinária enfrenta barreias no País é na importação de medicamentos e equipamentos que são aprovados e utilizados em outros países. “Em países desenvolvidos, os recursos para diagnóstico e tratamento são praticamente os mesmos observados na Oncologia Humana. Nos Estados Unidos, por exemplo, eles dispõem e já integram em suas práticas de atendimentos um equipamento para realizar cintilografia”, exemplifica, lembrando, também, da disponibilidade de drogas desenvolvidas com recursos de nanotecnologia e medicações especificas e eficazes para determinado tipo de tumor (medicamentos em alvo) que estão aprovadas e em uso há mais de dez anos. 

Humanização e um olhar acolhedor são os carros-chefes na relação entre veterinário e tutor nesses momentos (Foto: reprodução)

Momento de empatia. Como foi comentado ao longo de todo o texto, a tratativa pode ser muito difícil e o primeiro passo é dar a notícia aos tutores. Segundo a médica-veterinária Liliana Reis Rosa, a ação deve ser realizada com cuidado. 

“A melhor maneira é fazer com empatia e honestidade, expondo sempre as possibilidades terapêuticas e porcentagem de sucesso com tratamento, para que possamos focar nos fatores positivos, fornecendo exemplos práticos de pacientes que passaram pelo mesmo quadro e de como foi a evolução”, comenta.

Para ela, a parte mais difícil é quando os tutores apresentam casos de câncer ou pessoas próximas acometidas pela doença. “Acabam revivendo todos os sentimentos que passaram e tentar desvincular isso é difícil. Tento sempre explicar que o curso da doença é diferente nos animais, principalmente o tratamento quimioterápico, que é mais tolerado por eles, quando comparados aos humanos”, conta.

Beatriz complementa afirmando que, no caso do câncer, a humanização e um olhar acolhedor são os carros-chefes na relação entre veterinário e tutor. “O uso certo das palavras – e vou além – a entonação utilizada, demostram empatia, carinho e solidariedade com aquela família frente àquele diagnóstico. Muitos choram, se desesperam, e está tudo bem. O mais importante é entender que aquele pet não é mais um paciente na rotina clínica, mas é o grande amor de alguém. E é isso que me motiva a buscar um atendimento cada vez mais humanizado e carinhoso”, declara. 

Além de um dia comum. Referente à data, as profissionais ressaltam a importância: “Assim como Outubro Rosa, o Dia Mundial de Combate ao Câncer tem dupla importância na divulgação dessas informações tão necessárias para a educação populacional (e profissional), principalmente quanto às formas de prevenção e o diagnóstico precoce que interfere diretamente na resposta do indivíduo (humano ou pet) ao tratamento instituído, podendo melhorar a qualidade de vida de todos”, comenta Liliana. 

Para Beatriz, a conscientização, pautada pela data, insere o tutor de forma mais assertiva no tema. “Um tutor mais esclarecido sobre a doença procura formas de prevenção e diagnóstico precoce, o que reflete de maneira muito positiva no controle”, finaliza a médica-veterinária.

(Foto: C&G VF)

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