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Justiça determina que elefante Sandro permaneça no Zoológico de Sorocaba, interior de SP

Animal já é considerado idoso e a transferência para santuário no Mato Grosso causaria um estresse prejudicial à sua saúde

Cláudia Guimarães, da redação

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Há mais de um mês, se instalou uma polêmica na cidade de Sorocaba (SP) que se estendeu por todo o País, já que a temática chama atenção de veterinários, biólogos, ativistas e da população em geral. A ideia era transferir um elefante chamado Sandro, de 40 anos, do zoológico da cidade para um santuário localizado no Mato Grosso.

Desde que perdeu sua companheira, em 2020, o animal vive sozinho em seu recinto no zoo e, por isso, o Ministério Público de São Paulo (MPSP), juntamente da promotoria de Sorocaba, iniciou uma ação visando a transferência do elefante para um local onde pudesse passar o tempo que lhe resta de vida junto de outros animais da mesma espécie.

No entanto, apesar desse pedido do MPSP, a Prefeitura Municipal de Sorocaba recebeu, no dia 20 de abril, a decisão liminar do Juízo da Vara da Fazenda Pública da Comarca de Sorocaba (SP), que assegura, que, neste momento, a permanência do elefante asiático no Parque Zoológico Municipal de Sorocaba “Quinzinho de Barros” é a melhor escolha a ser tomada. A assessoria de imprensa da Prefeitura da cidade divulgou que a decisão liminar depende, agora, de confirmação por sentença de mérito permanente, pois, se não for objeto de recurso, torna-se definitiva, chamada “trânsito em julgado”.

No decorrer dos trâmites sobre o assunto, houve várias discussões sobre a transferência do animal, levando em conta os riscos que o transporte poderia causar à sua saúde, além do fato de o santuário ser um local onde ele não está acostumado a viver. O deslocamento do animal levaria dois dias por via terrestre, demandando a mobilização de pessoal especializado e alto custo ao erário público. “Além do fato de submeter o elefante, um animal de grande porte, por situação adversa, devido ao trânsito por vias que não necessariamente teriam condições de suportar o seu peso. O parecer técnico da Comissão de Destinação de Animais, realizado em 6 de abril deste ano, por dois profissionais – um médico veterinário e uma bióloga -, também serviu de base para o indeferimento da liminar”, informa a assessoria da Prefeitura de Sorocaba.

Elefante Sandro vive no Zoológico Municipal de Sorocaba desde 1982, quando foi resgatado de um circo (Foto: divulgação)

Avaliação de profissionais

O médico-veterinário, mestre em Conservação da Fauna e doutorando em Animais Selvagens, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (SP), André Luiz Mota da Costa é o responsável pelo zoo de Sorocaba e conversou um pouco sobre o elefante Sandro com a equipe da C&G VF.

Segundo ele, é consenso entre os técnicos do zoo e outros especialistas ouvidos que a melhor decisão, para o bem-estar de Sandro, é a permanência no zoo de Sorocaba. “Para tanto, inclusive, uma das propostas apresentadas e que consta no relatório técnico entregue ao MP é a realização de melhorias e revitalização no recinto do elefante-asiático, que já atingiu a terceira idade. Isso, assim como a revitalização de todo o Zoológico Municipal, já estão sendo providenciadas pela Prefeitura de Sorocaba. Toda a equipe do zoo sempre priorizou a qualidade de vida e o bem-estar de todos os animais lá existentes”, argumenta.

Ficando onde já está, na opinião do veterinário, Sandro terá excelentes condições de se manter com a mesma qualidade de vida e bem-estar que teve, até hoje, onde vive desde 1982, em plena forma e gozando de excelente saúde física e mental. “No momento, nada justifica submetê-lo a uma viagem de quase 1.500 km, até o Santuário de Elefantes Brasil (SEB), localizado na Chapada dos Guimarães (MT)”, pondera.

André lembra que todo transporte de animais envolve certo estresse e riscos, independentemente do animal que se transporta. “É certo que existem técnicas e abordagens específicas para cada espécie, onde se pode fazer um transporte de qualidade. O ideal para o transporte de um animal desse porte é ter um bom planejamento, uma equipe bem treinada e equipamentos adequados para minimizar, principalmente, o estresse térmico e prevenção da desidratação. Por fim, poderia dizer que o risco envolvido no transporte é diretamente proporcional ao tamanho do animal”, destaca o profissional que ainda menciona que, atualmente, o elefante permanece recebendo todos os cuidados necessários no zoo de Sorocaba, como recebeu por todos esses anos.

Convivência com o elefante Sandro

A graduanda de Medicina Veterinária Letícia Donida já estagiou no zoo de Sorocaba e, dentro dessa oportunidade prática de aprender mais sobre sua futura profissão, conviveu com o elefante por um tempo. Ela nos conta que o Sandro possui uma saúde muito boa, apesar de suas limitações físicas causadas pela artrose. “Oservei de perto sua alimentação abundante e regrada feita especialmente para ele. Também pude observar a maneira como ele reconhece seu tratador e interage com o mesmo”, descreve.

De acordo com Letícia, por hábito, elefantes costumam tomar banhos de lama para se protegerem de mosquitos, calor e hidratar a pele. “Sandro executa essa ação nele e nos funcionários do zoológico, chega a ser engraçado os banhos que tomávamos quando estávamos distraídos ao redor do recinto. Esse é um comportamento no qual o mesmo não executa nos visitantes, apenas tratadores e estagiários”, revela.

A graduanda comenta que não somente a idade de Sandro, já considerado idoso, seria um fator de risco para a transferência para outro Estado, mas, também, a artrose que ele enfrenta, devido à própria idade e por conta de seu histórico. O animal foi resgatado de um circo quando ainda jovem. “Uma viagem tão longa, com ele dentro de uma caixa de transporte, pode causar sérios danos a sua estrutura óssea, muscular e articular. Sandro pode não parecer, mas é um elefante agressivo e o manejo de um animal desse porte feito por muitas pessoas alheias à sua rotina, pode causar um estresse desnecessário, além de cplocar em risco a integridade física do animal e de todos ao redor. Em caso de must (pico de testosterona ocorrente nos elefantes machos), não haveria maneira de controlá-lo, caso o mesmo esteja em um recinto sem monitorização e aparatos de segurança adequados”, explica.

Como lembrado por Letícia, o animal idoso já passou a vida toda sob cuidados humanos, logo não possui instinto de sobrevivência ou de manada e não possui capacidade avançada de adaptação a novos ambientes ou rotinas devido à sua idade. “O condicionamento para transporte e a viagem de mais de 24 horas sob estresse térmico, sem a garantia de uma sedação adequada, também é uma forte preocupação, tendo que a condição pode causar danos graves à vida do animal. A mudança da alimentação, indo de uma dieta regrada, formulada por uma zootecnista especializada em nutrição animal, para uma dieta sem fiscalização, expondo o animal a possível contato com plantas e frutas tóxicas do Cerrado, e sem o controle de que ele irá comer o suficiente por dia para que não haja declínio do seu estado de saúde, não é recomendada”, avalia.

Aos ativistas envolvidos na polêmica, Letícia acredita que falte pesquisa e embasamento científico. “Todos os argumentos dos ativistas que cruzaram o meu caminho e o caminho de profissionais do zoológico são baseados em ‘achismos’ e não em fatos ou pesquisas. Muitos deles que realizam um trabalho excelente com pequenos animais (cães e gatos), confundem as coisas e acham que animais selvagens ou silvestres (externos e nativos à fauna brasileira) têm os mesmos comportamentos e necessidades que os denominados ‘pets’”, declara.

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