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Justiça determina que elefante Sandro permaneça no Zoológico de Sorocaba, interior de SP

Cláudia Guimarães, da redação

Justiça determina que elefante Sandro permaneça no Zoológico de Sorocaba, interior de SP
Por Equipe Cães&Gatos
22 de abril de 2022

Cláudia Guimarães, da redação

claudia@ciasullieditores.com.br

Há mais de um mês, se instalou uma polêmica na cidade de Sorocaba (SP) que se estendeu por todo o País, já que a temática chama atenção de veterinários, biólogos, ativistas e da população em geral. A ideia era transferir um elefante chamado Sandro, de 40 anos, do zoológico da cidade para um santuário localizado no Mato Grosso.

Desde que perdeu sua companheira, em 2020, o animal vive sozinho em seu recinto no zoo e, por isso, o Ministério Público de São Paulo (MPSP), juntamente da promotoria de Sorocaba, iniciou uma ação visando a transferência do elefante para um local onde pudesse passar o tempo que lhe resta de vida junto de outros animais da mesma espécie.

No entanto, apesar desse pedido do MPSP, a Prefeitura Municipal de Sorocaba recebeu, no dia 20 de abril, a decisão liminar do Juízo da Vara da Fazenda Pública da Comarca de Sorocaba (SP), que assegura, que, neste momento, a permanência do elefante asiático no Parque Zoológico Municipal de Sorocaba “Quinzinho de Barros” é a melhor escolha a ser tomada. A assessoria de imprensa da Prefeitura da cidade divulgou que a decisão liminar depende, agora, de confirmação por sentença de mérito permanente, pois, se não for objeto de recurso, torna-se definitiva, chamada “trânsito em julgado”.

No decorrer dos trâmites sobre o assunto, houve várias discussões sobre a transferência do animal, levando em conta os riscos que o transporte poderia causar à sua saúde, além do fato de o santuário ser um local onde ele não está acostumado a viver. O deslocamento do animal levaria dois dias por via terrestre, demandando a mobilização de pessoal especializado e alto custo ao erário público. “Além do fato de submeter o elefante, um animal de grande porte, por situação adversa, devido ao trânsito por vias que não necessariamente teriam condições de suportar o seu peso. O parecer técnico da Comissão de Destinação de Animais, realizado em 6 de abril deste ano, por dois profissionais – um médico veterinário e uma bióloga -, também serviu de base para o indeferimento da liminar”, informa a assessoria da Prefeitura de Sorocaba.

Elefante Sandro vive no Zoológico Municipal de Sorocaba desde 1982, quando foi resgatado de um circo (Foto: divulgação)

Avaliação de profissionais

O médico-veterinário, mestre em Conservação da Fauna e doutorando em Animais Selvagens, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (SP), André Luiz Mota da Costa é o responsável pelo zoo de Sorocaba e conversou um pouco sobre o elefante Sandro com a equipe da C&G VF.

Segundo ele, é consenso entre os técnicos do zoo e outros especialistas ouvidos que a melhor decisão, para o bem-estar de Sandro, é a permanência no zoo de Sorocaba. “Para tanto, inclusive, uma das propostas apresentadas e que consta no relatório técnico entregue ao MP é a realização de melhorias e revitalização no recinto do elefante-asiático, que já atingiu a terceira idade. Isso, assim como a revitalização de todo o Zoológico Municipal, já estão sendo providenciadas pela Prefeitura de Sorocaba. Toda a equipe do zoo sempre priorizou a qualidade de vida e o bem-estar de todos os animais lá existentes”, argumenta.

Ficando onde já está, na opinião do veterinário, Sandro terá excelentes condições de se manter com a mesma qualidade de vida e bem-estar que teve, até hoje, onde vive desde 1982, em plena forma e gozando de excelente saúde física e mental. “No momento, nada justifica submetê-lo a uma viagem de quase 1.500 km, até o Santuário de Elefantes Brasil (SEB), localizado na Chapada dos Guimarães (MT)”, pondera.

André lembra que todo transporte de animais envolve certo estresse e riscos, independentemente do animal que se transporta. “É certo que existem técnicas e abordagens específicas para cada espécie, onde se pode fazer um transporte de qualidade. O ideal para o transporte de um animal desse porte é ter um bom planejamento, uma equipe bem treinada e equipamentos adequados para minimizar, principalmente, o estresse térmico e prevenção da desidratação. Por fim, poderia dizer que o risco envolvido no transporte é diretamente proporcional ao tamanho do animal”, destaca o profissional que ainda menciona que, atualmente, o elefante permanece recebendo todos os cuidados necessários no zoo de Sorocaba, como recebeu por todos esses anos.

Convivência com o elefante Sandro

A graduanda de Medicina Veterinária Letícia Donida já estagiou no zoo de Sorocaba e, dentro dessa oportunidade prática de aprender mais sobre sua futura profissão, conviveu com o elefante por um tempo. Ela nos conta que o Sandro possui uma saúde muito boa, apesar de suas limitações físicas causadas pela artrose. “Oservei de perto sua alimentação abundante e regrada feita especialmente para ele. Também pude observar a maneira como ele reconhece seu tratador e interage com o mesmo”, descreve.

De acordo com Letícia, por hábito, elefantes costumam tomar banhos de lama para se protegerem de mosquitos, calor e hidratar a pele. “Sandro executa essa ação nele e nos funcionários do zoológico, chega a ser engraçado os banhos que tomávamos quando estávamos distraídos ao redor do recinto. Esse é um comportamento no qual o mesmo não executa nos visitantes, apenas tratadores e estagiários”, revela.

A graduanda comenta que não somente a idade de Sandro, já considerado idoso, seria um fator de risco para a transferência para outro Estado, mas, também, a artrose que ele enfrenta, devido à própria idade e por conta de seu histórico. O animal foi resgatado de um circo quando ainda jovem. “Uma viagem tão longa, com ele dentro de uma caixa de transporte, pode causar sérios danos a sua estrutura óssea, muscular e articular. Sandro pode não parecer, mas é um elefante agressivo e o manejo de um animal desse porte feito por muitas pessoas alheias à sua rotina, pode causar um estresse desnecessário, além de cplocar em risco a integridade física do animal e de todos ao redor. Em caso de must (pico de testosterona ocorrente nos elefantes machos), não haveria maneira de controlá-lo, caso o mesmo esteja em um recinto sem monitorização e aparatos de segurança adequados”, explica.

Como lembrado por Letícia, o animal idoso já passou a vida toda sob cuidados humanos, logo não possui instinto de sobrevivência ou de manada e não possui capacidade avançada de adaptação a novos ambientes ou rotinas devido à sua idade. “O condicionamento para transporte e a viagem de mais de 24 horas sob estresse térmico, sem a garantia de uma sedação adequada, também é uma forte preocupação, tendo que a condição pode causar danos graves à vida do animal. A mudança da alimentação, indo de uma dieta regrada, formulada por uma zootecnista especializada em nutrição animal, para uma dieta sem fiscalização, expondo o animal a possível contato com plantas e frutas tóxicas do Cerrado, e sem o controle de que ele irá comer o suficiente por dia para que não haja declínio do seu estado de saúde, não é recomendada”, avalia.

Aos ativistas envolvidos na polêmica, Letícia acredita que falte pesquisa e embasamento científico. “Todos os argumentos dos ativistas que cruzaram o meu caminho e o caminho de profissionais do zoológico são baseados em ‘achismos’ e não em fatos ou pesquisas. Muitos deles que realizam um trabalho excelente com pequenos animais (cães e gatos), confundem as coisas e acham que animais selvagens ou silvestres (externos e nativos à fauna brasileira) têm os mesmos comportamentos e necessidades que os denominados ‘pets’”, declara.