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Luto pela perda de um animal de estimação ainda é desmerecido por muitas pessoas

Tutor que enfrenta esse processo deve conversar com quem já passou pela situação e pensar em ajuda psicológica

Cláudia Guimarães, em casa

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O luto é uma reação saudável e esperada diante de um rompimento de vínculo importante. Por conta disso, é natural que, com a perde de um animal de estimação, bem como de algum amigo ou familiar, as pessoas enfrentem esse processo. A psicóloga da Associação Brasileira em prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária – Ekôa Vet, Bianca Gresele, reforça que as perdas fazem parte do ciclo vital humano e, quando alguém depara-se com essa situação, que pode ser material, física, emocional, entre outras, é natural que vivencie o processo de luto.

O ser humano passa por cinco fases (períodos) do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação (Foto: reprodução)

“A partir do momento em que percebemos que o sofrimento resulta do vínculo estabelecido entre pessoa, objeto ou animal perdido, é possível compreender que se aquilo que foi perdido tinha um significado importante para o indivíduo, o sofrimento será inevitável. Várias pesquisas realizadas por psicólogos confirmam que o luto pela perda de um animal é real e que não há diferença nas emoções e reações que o enlutado experencia quando comparado ao que sente pela perda de um familiar ou amigo”, menciona.

Outra psicóloga da Ekôa Vet, a Camila Eckert, declara que o luto é uma experiência que, embora apresente similaridade para os que passam, sempre será um processo subjetivo e a tentativa de padronizá-lo não irá contribuir para a sua compreensão. “Vivenciar o luto é uma experiência extremamente única, podendo se manifestar de diversas formas em diferentes pessoas. Porém, há algumas características comuns encontradas em vários âmbitos da vida daqueles que estão passando por esse processo, como por exemplo: intelectual emocional, físico, espiritual e social. Ou seja, o enlutado pode apresentar dificuldade de atenção e concentração, insônia, diminuição ou aumento de apetite, isolamento, contestar sua fé, além de crises de choro, raiva, culpa e alívio”, enumera.

Passar por esse processo, segundo a profissional, requer paciência, autocuidado e aprender a se adaptar ao mundo com a ausência daquilo que foi perdido. “Quando a pessoa não consegue se readaptar à nova realidade e retomar as suas atividades diárias, o acompanhamento de um psicólogo pode ajudar o indivíduo a lidar com esse processo”, destaca Camila.

A psicóloga, docente e coordenadora do curso de Psicologia, da Faculdade Anhanguera de Ribeirão Preto (SP), Sara Andreia Turcatto Elias, revela que nós, seres humanos, passamos por cinco fases (períodos) do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. “O tempo em que cada um reage a cada fase depende de cada pessoa e de como ela consegue ressignificar a perda e chegar à fase de aceitação. Alguns demoram dias; outros, anos e alguns não conseguem aceitar nunca… Os sinais que indicam a necessidade de acompanhamento psicológico e, muitas vezes, médico, dependerá dos prejuízos na rotina de vida, ou seja, a pessoa se torna incapaz ou expressa muitas dificuldades de retomar atividades diárias, trabalhar, ter lazer, fazer planos”, adiciona.

Atendimento psicológico pode ajudar o paciente a entender este sentimento e refletir sobre a sua dor (Foto: reprodução)

Lidando com os sentimentos

Na visão de Sara, é preciso aprender a dar um novo significado às perdas. “Sofrer é esperado e necessário, mas é preciso aprender a conviver sem a presença do animal, por exemplo. Conviver e conversar com pessoas que já passaram pela mesma situação ajuda muito, falar dos sentimentos também. Esse é o primeiro passo”, orienta.

É válido ressaltar, na visão da médica-veterinária que também atua no Ekôa Vet, Andrea Barboza, que o luto por animais de estimação é conceituado como um luto não reconhecido ou não autorizado. “Isso é, esse tipo de luto é um tema considerado tabu quando comparado ao luto por morte, pois é reforçado pelo não reconhecimento dos familiares e da sociedade diante de uma perda. Esse tipo de luto, normalmente, não é validado, impedindo que a dor seja expressa e, dessa forma, reforçando que o sofrimento permaneça mudo”, expõe.

Diante disso, Bianca Gresele frisa que é importante a pessoa se permitir se expressar e manifestar a dor, além de buscar ambientes e pessoas que aceitem esse sofrimento como legítimo, realizar rituais de despedida que façam sentido para si, compreender que é um processo que não tem fim e que a forma de lidar com a dor é subjetiva. “Sendo assim, cada pessoa deve fazer o que faz sentido para ela. Essas são algumas maneiras de lidar com dor do luto”, sugere.

Quando a morte do pet vem naturalmente, pelo avanço da idade ou por uma doença que não o permitiu esperar o tratamento, já é doloroso ao tutor, mas, quando o caso é de eutanásia a dor é ainda pior, como comenta a veterinária Andrea: “Para o tutor e, por vezes, para o médico-veterinário. Ambos tendem a se sentir culpados. Lidar com a morte do animal que faz parte da família já é difícil, a situação de precisar autorizar essa morte, nesse caso, a eutanásia, torna esse momento mais custoso emocionalmente. Muitos não conseguem autorizar e é preciso respeitar”, indica.

Segundo a Andrea, o médico-veterinário também pode sofrer, pois há um conflito moral, ter estudado e se formado para salvar vidas e precisar recorrer ao ato de tirá-las. “Também é importante não julgar nem condenar o profissional que não quer/consegue fazer esse procedimento”, salienta.

A psicóloga e docente da Faculdade Anhanguera, Sara Elias, cita que os impactos da perda de um pet, a curto prazo, é a percepção da pessoa de que nunca mais será feliz. “Essa sensação de desamparo quando estamos frente a situações de sofrimento. E, a longo prazo, quando não conseguiu se preparar para a perda ou não aceitou ajudas qualificadas, a pessoa não se disponibiliza para outros vínculos, fechando-se. A perda se torna um mito, um marco, intransponível”, discorre.

Muitos tutores são julgados, pois muitas pessoas desmerecem o luto por um animal de estimação (Foto: reprodução)

Emoções legítimas aos olhos de todos?

As psicólogas do Ekôa Vet declaram que, com a perda de um pet, inicialmente, o tutor poderá sentir o impacto do preconceito existente diante desse tipo de luto. “A sociedade, por meio de sua cultura, normas e regras, estabelece como e por quem é aceitável lamentar a perda. Diante disso, muitos tutores não encontram reconhecimento do seu luto, vivenciando dificuldades de expressar seus sentimentos, podendo sentir, até mesmo, vergonha. Assim como o tutor poderá passar por um processo de luto, seja pela perda do animal ou/e por tudo o que ele representa. Com a morte, se desfaz, não apenas a presença física do animal, mas, também, rompe a convivência, muda a rotina e impacta o estilo de vida que estava estabelecido”, comentam.

“Dizer que ‘é só um animal’, que ‘é só colocar outro no lugar’, ou outras coisas no mesmo gênero, é desmerecer o sofrimento.  Isso pode levar o enlutado a não se permitir manifestar a dor pois essa não é aceita e reconhecida como válida ou real. E para um luto ser saudável é necessário que seja reconhecido como verdadeiro a permitir sua manifestação, respeitando o tempo de cada um. Não julgue, acolha”, orienta Camila.

A psicóloga lembra que todos nós somos finitos e, por isso, é preciso repensar a maneira em que somos ensinados a refletir sobre a morte e o morrer. “Culturalmente, somos induzidos a evitar pensar sobre esse tema e não o ver como parte da vida. É inevitável o sofrimento diante da morte, diante do luto, da dor e da saudade após a perda de um pet. Essas manifestações são naturais e esperadas, no qual, o enlutado irá vivenciando esse processo. Encontrar no âmbito social reconhecimento e espaço para viver o pesar, se sentindo acolhido e conseguindo espaço para compartilhar os sentimentos em relação à perda, permite uma melhor vivência do luto. Deve ser permitido viver os sentimentos que surgem diante dela. Validar o sofrimento sem julgar se está certo ou errado, pois, nesse processo, há um vínculo de amor que foi quebrado”, argumenta.

Sara insere que lidamos com a perda durante toda a vida: “Temos a perda de pessoas, de animais, de sonhos, de projetos, de empregos, enfim, somos colocados diante das perdas o tempo todo e, muitas vezes, não percebemos isso. Se ela é inevitável, que tal pensarmos no hoje, no que temos, que vivemos, e não no que perdemos?”, indaga.

Aos que enfrentam essa situação, as psicólogas entrevistadas orientam buscar atendimento psicológico, o que ajuda o paciente a entender este sentimento e refletir sobre a sua dor. Segundo as profissionais, na terapia há um lugar onde a pessoa pode expressar seus sentimentos sem julgamentos. “Realizar psicoterapia irá facilitar a verbalização, a expressão de sentimentos e das experiências relacionadas ao que foi perdido. O psicólogo vai acolher essa dor emocional e irá ajudar o paciente a chegar a um caminho de ressignificar essa perda”, encerra Bianca.

Sobre o tema, Sara finaliza: “Muito importante falar de luto em uma época de tantas incertezas, de tantas perdas. E, falando das perdas, falamos de vida”.

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