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Médica-veterinária atua na linha de frente da pandemia e revela como foi a experiência

Neste Dia da Mulher, Liria Hiromi Okuda destaca o dom do olhar e o discernimento das mulheres para a profissão

Cláudia Guimarães, da redação

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Quantas são as mulheres importantes em sua vida? Uma que te criou, outra que ajudou em sua formação, outra que te influenciou a seguir determinada carreira… Neste Dia Internacional da Mulher, encontramos e conversamos com uma personagem que também é importante para você, para mim e para todos nós brasileiros, sem que, ao menos, saibamos, até então, o seu nome.

Seu nome é Liria Hiromi Okuda e ela é pesquisadora científica do Instituto Biológico (IB-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, e tenho certeza que você está se perguntando: “Mas no que ela influenciou em minha vida?” e já te adianto: essa médica-veterinária atuou na linha de frente no combate à Covid-19 durante a pandemia.

Desde pequena, Liria sempre quis ser médica-veterinária, pois, como nos conta, adorava cuidar dos animais. “Lembro que quando tínhamos periquitos e estes faleciam, já gostava de investigar a causa mortis”, relembra. A profissional estudou Medicina Veterinária na Universidade Paulista (UNIP) e foi da primeira turma. “Tempos depois, fiz o Mestrado e o Doutorado na área de Epidemiologia Experimental Aplicada às Zoonoses, na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP). Também realizei cursos de especialização no Japão como bolsista da Agência de Cooperação Internacional (JICA), na área de segurança alimentar e de febre aftosa”, menciona.

Após esse currículo brevemente apresentado, Liria revela que, durante a graduação, surgiu, de fato, seu interesse em pesquisa tanto na disciplina de ruminantes como na de epidemiologia. “Essas áreas abriram os meus olhos para as doenças na população e, isso se intensificou quando realizei o estágio no Instituto Biológico, que atua na área de sanidade. Aí vislumbrei o que, de fato, queria ser: cientista. Consegui reunir tudo no Instituto Biológico: ruminantes, sanidade e epidemiologia”, comemora.

Durante a pandemia, Liria coordenou o diagnóstico molecular de SARS CoV-2 pela técnica de RT-qPCR, no Laboratório de Viroses de Bovídeos do Instituto Biológico (Foto: reprodução)

Linha de frente

A veterinária considera um privilégio poder colaborar na pandemia da Covid-19. Ela, simplesmente, coordenou o diagnóstico molecular de SARS CoV-2 pela técnica de RT-qPCR, no Laboratório de Viroses de Bovídeos do Instituto Biológico (LVB/IB), da qual é a Responsável Técnica. “Este atendimento foi possível graças ao Acordo de Cooperação estabelecido entre a Secretaria de Segurança Pública, Força Aérea Brasileira, Secretaria de Agricultura e Abastecimento e Instituto Biológico”, cita.

Ela destaca que o laboratório do Instituto Biológico possui níveis de biossegurança nível 2 e 3, o que garantiu que os profissionais trabalhassem com segurança e, sem que nenhum voluntário se contaminasse pelo SARS CoV-2 durante o atendimento. “Contamos com voluntários que queriam, de fato, colaborar na pandemia, portanto, não foram somente servidores do LVB/IB ou de outros laboratórios do Instituto Biológico (inclusive da área de sanidade vegetal), mas, também, de outras Instituições que se prontificaram a atuar na linha de frente. Oferecemos treinamento para os voluntários desde a recepção da amostra até a liberação do resultado no sistema GAL do Ministério da Saúde. Pudemos, desta forma, contribuir na testagem, na avaliação e na discussão dos resultados obtidos junto aos responsáveis da Segurança Pública e da Força Aérea Brasileira ao longo do atendimento. Além dos insumos fornecidos pelo Instituto Butantan, também contamos com a doação de empresas ligadas ao agronegócio e da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), da qual fui bolsista”, narra.

Em sua visão, a pandemia da Covid-19 mostra que não existe risco sanitário zero e que a vigilância é fundamental para evitar futuras epidemias e eventuais pandemias, sejam elas zoonóticas ou não. “Diante desse fato, mostra a importância de se trabalhar em conjunto e o médico-veterinário possui, em sua formação, o treinamento necessário para atuar em prol da Saúde Única, que tanto temos ouvido, mas que nem sempre conseguimos implantar plenamente na prática”, observa.

Para Liria, é preciso trazer o produtor, o proprietário para junto de nós e buscar elementos para prevenir e não mitigar, quando possível, claro, em colaboração com a Saúde e o Meio Ambiente. “O Brasil já teve a experiência da entrada do vírus Zika, em 2016, estamos atentos ao risco da entrada da peste suína africana e assim por diante”, aponta.

Como lembrado pela profissional, o médico-veterinário tem, em sua formação, o treinamento necessário para atuar em eventos sanitários adversos, trabalha com zoonoses de importância, como tuberculose, brucelose, leptospirose, toxoplasmose, entre outras. “Tanto é verdade que atua em áreas da Secretaria da Saúde, seja no controle de doenças infecciosas e dentro da cadeia epidemiológica, a Medicina Veterinária tem participação no combate aos vetores e na busca de potenciais hospedeiros de doenças e, assim, contribuir com melhorias nos programas de Saúde. A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) tem batido na tecla de uma ação conjunta mais efetiva quanto à resistência bacteriana em humanos devido ao consumo de produtos contendo resíduos de antibióticos que foram utilizados nos animais. Portanto, é de responsabilidade da Medicina Veterinária promover ações em Saúde Única”, avalia.

Sendo assim, parece um jargão, como comentado por Liria, mas é necessário investir na Educação. “Nós, como profissionais, temos o dever de transmitir o conhecimento, de forma clara, concisa e que mude paradigmas, sem que elas sejam impostas, mas que enxerguem, em suas palavras e atitudes, a verdade do conhecimento”, declara.

Liria recebendo uma homenagem da Polícia Militar por conta dos diagnósticos de Covid realizados pelo IB (Foto: divulgação)

Por experiência

Quando questionada sobre como foi a oportunidade de trabalhar na linha de frente da pandemia, primeiramente, Liria compartilha que se sentiu humana: “Ser altruísta diante de um cenário pandêmico traz um sentimento de dever cumprido e orgulho por ajudar o próximo. Nos faz acreditar que podemos fazer o bem sem saber a quem e sem querer receber nada em troca. Essa pandemia mudou minha vida! Conheci pessoas formidáveis, trabalhei com pessoas fantásticas que também abraçaram a causa e pudemos ajudar naquilo, sem nenhuma pretensão, no que fazemos de melhor, que é realizar um bom diagnóstico. Cada resultado liberado significava uma pessoa que deveria ficar em casa (isolamento) ou se poderia continuar suas atividades profissionais, seja na segurança pública, como na força aérea brasileira. Analisar os dados ao longo do tempo e discutir os resultados quando observávamos variações de positividade, possíveis fatores e, assim, contribuirmos para tomada de ações de mitigação pelos órgãos competentes. Comparar os dados com a entrada da vacina e verificar que fez a diferença, mostra que a Ciência está no caminho certo e que, em curto espaço de tempo, buscou soluções (antivirais, soros hiperimunes, testes diagnósticos rápidos, entre outros) para este agente que insiste em permanecer conosco”, afirma.

Sendo uma profissional da Medicina Veterinária inserida na área de pesquisa, Liria deixa um recado às mulheres que desejam e que também podem chegar onde querem: “Jamais desistam dos seus sonhos! Nós, mulheres, temos o dom do olhar, do discernimento, da ponderação, da intuição e, aliando tudo isso ao conhecimento adquirido, podemos fazer um trabalho de excelência, seja em que ramo for dentro da Medicina Veterinária. As portas sempre se abrirão, acreditem”, encerra.

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