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Médica-veterinária conta como surge e se estabelece a relação tutor-pet

“A sociedade é taxativa. Já ouvi coisas, como ‘isso é loucura, é apenas um bicho’”, declara Dulciana Lucena

Cláudia Guimarães, em casa

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É possível afirmar que a relação com os animais de companhia é uma das mais intensas? Há quem diga que sente o mesmo amor pelos pets e pelos seus filhos; há quem até escolha ser apenas “pais de cães e gatos” e relata essa convivência como muito prazerosa e satisfatória. Mas, como será que surge e se estabelece esse vínculo tão forte dos tutores com seus animais e vice-versa?

A médica-veterinária Dulciana Figueiredo da Silva Lucena conta que, de início, esse laço surge por conta de dependência. “Os animais começam a perceber quem são seus provedores. Mas, como em toda relação, com o passar do tempo, eles começam a interagir com seus tutores demonstrando sentimentos, como gratidão, saudade, alegria, tristeza, respeito, dentre outros. É semelhante ao que ocorre na relação entre pais e filhos. O que, antigamente, era relatado por tutores, hoje é, cientificamente, provado que tanto o olfato como a audição são responsáveis pela interação homem-animal por meio da liberação de hormônios como a serotonina (hormônio do amor, bem estar, prazer)”, menciona.

Esse vínculo, ao contrário do que muitos pensam, não se limitam aos cães. Os gatos também podem ser tão apegados aos tutores quanto, apesar do temperamento mais independente, conforme destaca a veterinária. “Os felinos costumam escolher o seu tutor favorito na família e busca atenção dele. Demonstra carinho ao ronronar ou fazer agradáveis massagens para demonstrar cuidado e carinho ao seu tutor. São extremamente companheiros, gostam de sempre estar por perto e algumas raças, como o persa, interagem muito bem com crianças. Os felinos também gostam de presentear seus tutores. Não estranhe se ele lhe trouxer orgulhoso o produto de sua caça do dia, como um presente”, brinca.

Quanto aos demais pets, Dulciana diz que cavalos e coelhos e mamíferos em geral costumam interagir bem com seus tutores. “Já quando falamos em répteis, conheço casos isolados de interação e sempre em menor intensidade, quando comparados aos mamíferos”, aponta.

Os gatos também podem ser tão apegados aos tutores quanto os cães, apesar do temperamento mais independente (Foto: reprodução)

Benéfica para ambos

Quando questionada sobre como essa relação pode ser benéfica para os tutores e para os animais, Dulciana exemplifica com o papel dos animais de estimação durante a pandemia, já que eles têm sido responsáveis, até de forma terapêutica, pela redução do estresse e ansiedade das famílias, além de auxiliarem seus tutores durante o processo de dores como as do luto. “Junto às crianças, ajudam a desenvolver a afetividade, respeito aos limites, senso de responsabilidade, além do entretenimento. Já para os pets, o ser humano é sinônimo de proteção e segurança. Pois, além de colaborar como o provedor do pet, essa convivência tem contribuído na evolução das espécies. Basta lembrar de onde vieram (lobos selvagens) e hoje os cães são considerados como membros das famílias e recebem de muitos status de filhos”, comenta.

Com esse contato direto com os tutores, principalmente durante o isolamento social que estamos vivendo há vários meses, é importante saber como evitar problemas comportamentais e psicológicos nos momentos em que o tutor deve se ausentar da residência. Segundo Dulciana, é extremamente comum que, na ausência de seu cuidador, o pet deixe de se alimentar, fique apático, demonstrando tristeza profunda. “Ou seja, é capaz ficar dias na porta do hospital esperando seu tutor receber alta, por exemplo. Em alguns casos, o banzo pode levar até a óbito. Para reduzir a saudade, como o olfato dos cães é extremante aguçado, costumo pedir para os tutores deixar com o pet uma peça de roupa recentemente utilizada, para que se sintam mais tranquilos. Para os felinos, indico que instalem aromatizantes no ambiente ou erva gato (catnip). Façam introdução de brinquedos apropriados para pet, chás, florais e música clássica também têm demonstrado bons resultados”, sugere.

Desfechos dramáticos

Caso um pet faleça durante tratamento na clínica veterinária, todo esse sentimento que liga ele ao tutor pode gerar, de certa forma, um problema para o veterinário gerenciar, além do falecimento do animal? Dulciana considera que amor não se mede e que a dor do tutor pela a perda ou luto por um pet deve ser levada em consideração por parte do médico-veterinário com extremo respeito e consideração.

É comum que, na ausência de seu tutor, o pet deixe de se alimentar, fique apático, demonstrando tristeza profunda (Foto: reprodução)

“Diante de uma situação de doença grave, risco operatório, risco às Saúde Pública com indicação de eutanásia ou óbito, o médico-veterinário deve se portar de forma ética e profissional diante do tutor e diante do Código de Ética da profissão. O Conselho nos orienta a documentar-se diante destas situações.  Pois, sim, diante do processo de luto, alguns tutores buscam encontrar culpados e podem criar problemas para o profissional. Mas, na maioria dos casos, quando o tutor está bem esclarecido sobre a situação real do seu pet, não costumo ter problemas”, declara.

Para esses casos, a profissional considera de suma importância o trabalho do psicólogo durante o processo de luto ou mesmo em situações onde os pacientes apresentam doenças crônicas ou terminais. “Ou até em casos mais extremos, onde o tutor não consegue sepultar o pet e congela. Casos onde o sofrimento do tutor é eminente e nem sempre os médicos-veterinários têm preparo para dar o acolhimento necessário. Diante do sofrimento dos tutores por seus pets, ocorre um processo de muito preconceito sobre eles. É como se fosse errado sentirem tal dor, a sociedade é taxativa. Já ouvi coisas como ‘isso é loucura, é apenas um bicho’. Isso cria barreiras para que o tutor não viva seu luto”, conta.

Mudança de tutores: adaptação

Em casos em que o pet precisa ser doado por algum motivo, mesmo após alguns anos de convivência com o tutor, ele sentirá falta de sua casa antiga? A veterinária afirma que cada caso é um caso. “Já adotei uma cadela Rottweiler adulta que amava os antigos tutores e se adaptou muito bem ao nosso convívio. Mas tudo é questão de adaptação. Acompanho o caso de uma Pastor Alemão que, mesmo coberta de amor pela nova família, o processo de adaptação durou mais de um ano. Tem muito a ver com os traumas que o pet traz”, salienta.

Os animais de rua, como mencionado pela profissional, também demoram um tempo significativo para adaptar-se. “Devido ao grande número de maus-tratos sofridos, mesmo quando submetidos a situações de conforto e alimentação de boa qualidade, é preciso um tempo para que adquiram confiança em seus novos tutores”, frisa.

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