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Mudanças climáticas podem interferir na Saúde Única e gerar problemas no planeta

Alguns cuidados com os pets são essenciais para a garantia de saúde e bem-estar

Cláudia Guimarães, da redação

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Para quem gosta, realmente, de seus animais de companhia, cuidado não é algo que precisa ser lembrado, acontece naturalmente. Mas, especialmente quando há mudanças bruscas de temperatura ao longo do ano, essa atenção se faz ainda mais necessária para que a saúde e o bem-estar dos pets se mantenham em boas condições.

No verão deste ano, enfrentamos temperaturas bem acima da média; no outono, experimentamos um pouquinho do que o inverno, que teve início dia 21 de junho, nos reserva, pelo menos em boa parte do País. Conforme explicado pelo biólogo e professor de Biologia, do Centro Universitário N. Senhora do Patrocínio (Ceunsp), Rodrigo Salvetti, como já percebemos, vivemos um momento de mudanças climáticas e a queima de combustíveis fósseis está intensificando o efeito estufa terrestre. A principal consequência disso é o aumento das temperaturas médias do planeta.

“Assim, a tendência é que as temperaturas aumentem em todas as estações, forçando os animais da natureza a migrarem para regiões de clima mais adequado para sua sobrevivência ou, mais difícil, se adaptarem para viver nessas novas condições. Para os pets, que vivem em uma condição ambiental mais controlada, essa adaptação deve ser mais fácil, pois eles têm maior disponibilidade de alimentos, água e proteção comparados àqueles animais que vivem soltos na natureza”, discorre. 

No entanto, as mudanças climáticas, segundo o biólogo, acarretam eventos climáticos mais intensos. “Assim, a possibilidade de termos verões muito mais quentes do que o habitual ou invernos com períodos muito mais intensos de frio é maior, e tanto os animais domésticos, quanto os animais da natureza podem sofrer com essas condições extremas. Em todos os casos, o frio excessivo pode levar à hipotermia, causar rigidez musculares, doenças respiratórias, pneumonias, desidratação, tremores, hipotensão, e até mesmo a morte. Por isso, manter os animais hidratados e agasalhados, sobretudo, com temperaturas do ar inferiores a 10°C é fundamental, além de fornecer uma alimentação adequada. No calor excessivo, os sintomas mais comuns são letargia, respiração ofegante excessiva, respiração rápida, tremores, salivação, inquietação excessiva e falta de apetite prolongada. Nesse caso, o ideal é manter o animal em um local fresco e arejado, e mantê-lo hidratado”, orienta.

Já na natureza, os animais procuram abrigos em tocas no chão ou no interior dos troncos das árvores. “Como o solo e a casca da árvore atuam como isolantes térmicos, eles conseguem se manter aquecidos até que as ondas de frio ou calor passem e, assim, eles possam sair novamente”, explica Salvetti.

De acordo com a médica-veterinária e professora do curso de Medicina Veterinária, do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), Juliana Andrade, nas épocas com temperaturas mais baixas, os tutores devem estar atentos, pois alguns animais são mais sensíveis que outros ao frio. “Portanto, nestas horas, o tutor conhecer o seu pet é de extrema importância para saber até que ponto as baixas temperaturas o afetam para que adaptações na sua rotina sejam feitas”, indica. No inverno, Juliana aconselha evitar passear com os pets nos horários mais frios: “Prefira os horários de temperaturas mais amenas e, caso o animal de estimação tenha pelo baixo ou sinta muito frio, as roupinhas quentes de inverno são uma ótima pedida. Também é importante manter a caminha aquecida e, caso o animal viva no quintal, a casinha deve ter cobertores e, também, ser aquecida. Pode-se utilizar, inclusive, garrafas pets com água aquecida para que ele tenha mais conforto”, sugere.

Já nas épocas mais chuvosas, Juliana comenta que, se for inevitável o passeio, após o retorno para casa, o tutor deve se certificar de secar bem o animal: “Não o deixe molhado, pois a umidade diminui a temperatura corporal e pode favorecer resfriados e problemas dermatológicos. Se o pet está acostumado com roupinhas e acessórios, vale a pena utilizá-los no inverno para evitar que o animal sinta frio. O importante é estarem agasalhados e em bem-estar”, destaca.

No calor excessivo, os animais podem apresentar letargia, respiração ofegante excessiva, respiração rápida, tremores, salivação, entre outros sintomas
(Foto: reprodução)

Cuidando dos bichos, cuidando do planeta

Juliana afirma que as mudanças climáticas associadas à destruição da fauna e da flora favorecem o surgimento de novas pandemias, seja pela disseminação de microorganismos já existentes, como, também, pela mutação de alguns vírus e surgimento de outros microrganismos. “As mudanças climáticas e a aproximação da vida selvagem com os humanos podem facilitar a disseminação de vírus tão letais quanto o coronavírus devido às relações desarmoniosas entre o homem e o meio ambiente. Eventos como o desmatamento e caças ilegais favorecem a todas as mudanças no clima e na forma como os microrganismos vivem até então”, alerta.

A veterinária cita um estudo publicado na revista especializada Proceedings of the Royal Society Biological Sciences, em que cientistas americanos mostram, por meio de uma análise minuciosa, como a proximidade entre animais selvagens e humanos pode fazer com que surjam mais doenças infecciosas. “Os animais selvagens que aumentaram em abundância e se adaptaram bem a ambientes dominados por humanos compartilham muitos vírus, isso inclui algumas espécies de roedores, morcegos e primatas, sendo que os morcegos são fonte de patógenos de alto risco, incluindo a síndrome respiratória aguda grave (SARS), o vírus Nipah, o vírus Marburg e o ebola vírus”, menciona.

No Brasil, segundo Juliana, também temos uma preocupação imensa: com os javalis. “Estes animais, extremamente ágeis, viajam por vários territórios, não conhecem fronteiras e, desta forma, podem carrear e disseminar patógenos de importância em Saúde Pública e muitos deles já erradicados no Brasil. Estes mantêm uma proximidade com rebanhos de suínos, muitas vezes, cruzando e originando descendentes que, em algumas regiões, são conhecidos como ‘javaporco’ e, desta forma, mantêm uma relação próxima com os humanos, também favorecendo a transmissão de doenças. Uma grande movimentação de um determinado patógeno entre seres humanos e animais favorece sua mutação e com isso mudança de características que muitas vezes favorecem a manutenção do patógeno e aumenta a dificuldade de controle do mesmo.”, explica. 

Além desses pontos citados por Juliana, a médica-veterinária, professora Titular Doutora de Medicina Veterinária, na Universidade São Judas Tadeu, Thais da Cruz Alves dos Santos, traz outra questão relevante sobre o assunto: o aumento na temperatura do planeta pode levar à extinção de espécies. “Ao longo dos anos, vimos muitas espécies serem extintas. As temperaturas elevadas provocam fenômenos de desertificação, enchentes e elevação do nível do mar. Consequentemente, os ambientes em que vivem os animais sofrem alterações e se tornam inabitáveis”, lamenta.

Muitas espécies, como expõe a profissional, perdem os seus locais de refúgio, ficam vulneráveis e estressadas, o que compromete até a reprodução e acasalamento. “Devemos pensar que existem animais que não conservam temperatura corpórea constante, ou seja, sua temperatura é a mesma do ambiente, como por exemplo répteis como cobras e lagartos. Pequenas alterações climáticas modificam as reações químicas internas e podem levar a um desbalanço metabólico significativo”, evidencia.

Alguns peixes e répteis, animais cuja temperatura do corpo é a mesma do ambiente, sofrem, inclusive, alterações nas gônadas, como explica Thais dos Santos. “Dependendo da temperatura ou da presença de hormônios na água de rios e mares, podem nascer apenas machos ou apenas fêmeas. O desbalanço no número de indivíduos de sexos diferentes causa um insucesso reprodutivo. Novos indivíduos não são formados e, ao longo do tempo, os animais reduzem drasticamente a sua população. Estima-se que, para cada espécie extinta na natureza, cerca de sete a nove outras que dependem dela como fonte de alimentação ou como predadores, por exemplo, também desaparecem. A natureza nos dá esses sinais, especialmente considerando os animais selvagens”, avalia.

Na visão de Thais, a Covid veio, em 2019, “ensinar” muito para a ciência e para os seres humanos. “Esse vírus demonstrou padrões bem diferentes, tornando pessoas idosas mais susceptíveis, porém causando menor risco para crianças e jovens, por exemplo. Cada vírus que surge traz um padrão de contágio e transmissão que pode ser único. A aceleração dos processos que ocorrem na Terra e modificam a temperatura, ambientes e até as próprias espécies, podem gerar doenças desconhecidas. A ciência tem um grande desafio pela frente. Não podemos simplesmente culpar os animais selvagens. Nós domesticamos muitos deles e algumas civilizações buscam novas alternativas para combater a escassez de proteínas. Precisamos estudar e realizar as ações com planejamento e aliados à ciência, dessa forma, podemos trazer alternativas mais seguras para conviver com os animais selvagens em nosso planeta”, argumenta.

O frio excessivo pode levar os pets à hipotermia, causar rigidez musculares, doenças respiratórias, pneumonias, desidratação e tremores (Foto: reprodução)

Saúde dos pets

Em relação aos pets, Thais diz que as alterações climáticas também comprometem o seu funcionamento, mas, principalmente, o comportamento. “Vemos adaptações e humanização em excesso que modificam o ambiente e hábitos das espécies. Isso torna os animais mais estressados e reduz a sua longevidade”, relata.

Para Juliana, a melhor forma de prevenir problemas de saúde nos pets é estarmos atentos com os cuidados necessários para que sua saúde se mantenha em dia, como: vacinação, vermifugação, controle de ectoparasitas, manter rotina de check-ups e avaliações com o médico-veterinário, além de cuidados com higiene após os passeios diários. “Quanto às doenças zoonóticas, que são de extrema importância, segue a mesma regra de estarmos atentos aos nossos pets: após qualquer alteração observada, o animal deve ser levado para uma consulta médica e, quando se diagnostica uma zoonose, ou seja, uma doença que pode ser transmitida do animal para os seres humanos e vice-versa, deve ser tomada uma série de cuidados muito importantes”m salienta.

Além disso, pessoas que mantêm contato direto com animais selvagens, uma vez identificada alguma patologia que possa ter risco de ter se contaminado, devem procurar ajuda médica o mais rápido possível, conforme orienta Juliana. “Dessa forma, é possível evitar a disseminação e mutação de patógenos importantes em Saúde Pública”, acrescenta.

Juliana Andrade observa que as mudanças climáticas estão redistribuindo e aumentando os habitats ideais de mosquitos e outros patógenos que transmitem doenças. “Em alguns casos, esses patógenos estão levando doenças contagiosas para comunidades que não as haviam desenvolvido antes. Só nesta situação, podemos observar o quanto as mudanças climáticas têm uma estreita relação com Saúde Pública, por isso, a importância da abordagem da ‘One Health’ ou ‘Saúde Única’, que une o cuidado humano, animal e do meio ambiente de forma conjunta, como estratégia de esforços em Saúde Pública e a garantia de bem-estar das populações por meio da atuação do médico-veterinário, que é o profissional atuante quando o assunto é zoonose e Saúde Pública”, conclui.

Rodrigo Salvetti já faz um alerta: o inverno desse ano promete ser mais rigoroso do que os últimos. “As ondas de frio que já vivenciamos poderão ser intensas e frequentes ao longo de toda a estação, já que estamos em período de La Niña – evento de resfriamento das águas do oceano Pacífico – que acentua eventos climáticos extremos em diversos países, inclusive no Brasil. Esse fenômeno facilita o avanço das massas de ar que se originam no polo Sul, que podem chegar por aqui mais intensas e causar frios recordes, principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil”, avisa.

Além disso, a docente Thais lembra que o inverno de 2022 se apresenta ainda com incertezas em relação à Covid e, também, ao vírus da gripe. “O Brasil teve um surto de gripe no início do verão, em dezembro de 2021, que preocupou os profissionais da saúde. Enquanto isso, o inverno no hemisfério Norte foi bastante rigoroso. Podemos esperar um inverno severo e devemos, como cidadãos, nos precaver com as vacinas e medidas de higienização. Não podemos esquecer dos animais e prevenir a disseminação de doenças. Aprendemos com a Covid a importância do isolamento social em casos de sintomas gripais e devemos sempre ter em mente: a disseminação dos piores vírus é entre seres humanos”, frisa.

Tendo isso em vista, os profissionais recomendam cuidados com a saúde dos animais e dos humanos. Uma dica é se manter e manter os pets agasalhados, com uma alimentação e hidratação adequadas.

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