Opções
Destaques Inovação e Mercado

Nas redes sociais, veterinário deve tomar cuidado para não ferir Código de Ética Profissional

Cláudia Guimarães, em casa

Nas redes sociais, veterinário deve tomar cuidado para não ferir Código de Ética Profissional
Por Equipe Cães&Gatos
28 de janeiro de 2022
Última atualização: 28/01/2022 - 10:38

Cláudia Guimarães, em casa

claudia@ciasullieditores.com.br

Alguns não são adeptos aos costumes dessa geração, mas a maioria das pessoas já se rendeu às redes sociais e não se imagina mais sem aqueles feeds de notícias cobertos de fotos, vídeos e outros formatos de informações que só encontramos ali. A prática, óbvio, também foi aderida por profissionais de diversas áreas, entre elas, a Medicina Veterinária. No entanto, o médico-veterinário deve estar atento para não cometer nenhum deslize que fira seu Código de Ética Profissional.

Ato bastante recorrente, principalmente nas redes sociais, é um veterinário se intitular especialista em algo que, realmente, não é aprovado
(Foto: reprodução)

O médico-veterinário que atua em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e também é advogado, especialista em Direito Médico Veterinário, José Alfredo Dallari, comenta que as redes sociais são ferramentas importantes no relacionamento e na publicidade profissional e, por isso, vêm ganhando espaço no dia a dia dos profissionais. “Entretanto, existem muitos colegas fazendo a propaganda de forma imprudente e fugindo do Código de Ética Profissional do Médico-Veterinário, a Resolução 1138/16, do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), e, também, da Resolução 780/2004”, aponta. 

Segundo ele, os erros mais comuns são cometidos sob o argumento de que “todo mundo está fazendo” e os principais são: a publicação ostensiva do “antes e do depois” e a realização de lives em redes abertas apresentando, a qualquer pessoa, tratamentos e técnicas privativas do médico-veterinário. “O ‘antes e depois’ caracteriza uma propaganda enganosa, pois induz o tutor a acreditar na superioridade do colega e pode gerar uma disputa com base no Código de Defesa do Consumidor (CDC). Além disso, também infringem o art. 3 da Resolução 780/2004, bem como o art. 11, inciso I, III, IV, lembrando que, atualmente, também existe a Lei de Proteção de Dados”, menciona

Nesse caminho, Dallari considera importante destacar que esse tipo de propaganda é considerado sensacionalista e autopromocional, que também fere o art. 17 em seu inciso IV e o art. 27 e 28 da Resolução 1138/16, bem como o art. 8 da Resolução 780/2004”, denuncia.

Outro ato bastante recorrente, principalmente nas redes sociais, é um veterinário se intitular especialista em algo que, realmente, não é aprovado. “Essa discussão é delicada, temos que entender o que é especialização no sentido de estudos direcionados e dedicação no assunto e diferenciar de especialidade, obtida por um veterinário especializado que preste uma prova em entidades reconhecidas pelo CFMV e registre esse título junto ao CFMV/CRMV, conforme determina o inciso XIV do art. 8º da Resolução 1138/2016. Apenas dessa forma é obtido o título de especialista, ou seja, ambos, especialista e especializado, têm o conhecimento, ambos estudaram o assunto em profundidade, ambos fizeram um curso de pós-graduação (lato ou strito senso), no entanto o especialista filiou-se a uma entidade que é reconhecida pelo CFMV, prestou uma prova e registrou seu título”, explica.

Sendo assim, ambos têm o conhecimento, ambos podem atuar na área, mas a legislação entende que só pode se dizer especialista quem é filiado, prestou uma prova de reconhecimento técnico e registrou esse título junto ao CFMV/CRMV. “A meu ver, é mero formalismo que se mantem na Legislação, uma discussão que já tem tomado vulto, afinal, ambos têm o estudo, ambos têm a perícia, ambos atuam numa área especifica. A única diferença é estar filiado a uma instituição que defenda os interesses de uma categoria dentro da Medicina Veterinária”, opina Dallari.

Sobre a prescrição de técnicas e tratamentos em lives nas redes sociais, o profissional lembra que essa pratica é uma infração ética prevista no VII do art. 8 da Resolução 1138/2016. “Ali estamos fornecendo a leigos informações, ensinamentos, meios ou métodos privativos da competência profissional do veterinário. Essa informação pode ser utilizada de forma equivocada por um leigo e, em tese, o profissional pode ser responsabilizado, pois receitou sem prévio exame do paciente”, pontua.

O veterinário e advogado atesta que fazer uma live com orientações “genéricas” é um conteúdo bacana de ser divulgado sem infringir as regras: “Mas quando um profissional ensina técnicas, por exemplo anestésicas, ele está infringindo o nosso Código de Deontologia e Ética Profissional. Ressaltando que também é uma forma de sensacionalismo e autopromoção, que induz um leigo, pessoa que desconhece a Medicina Veterinária, a acreditar em sua ‘qualidade’ superior nos serviços prestados”, reforça.

Por outro lado, se utilizadas corretamente, as redes sociais podem oferecer benefícios aos médicos-veterinários. “Todos podem utilizar de propaganda e publicidade para conquistar espaço comercial, só que nós, veterinários, temos que atentar para o Código de Ética, lembrando que nem tudo é permitido fazer, mesmo que outros estejam fazendo, e cabe a nós defendermos nossa profissão”, argumenta.

Assim, Dallari afirma que não há nada de errado em produzir peças publicitárias com qualidade e respeito e utilizar dessas peças para mostrar sua clínica, hospital ou mesmo sua “especialidade”. “Mas você não pode dar descontos, fazer promoções, garantir resultados, expor clientes e outras atitudes que aviltam a profissão”, destaca.

Se utilizadas corretamente, as redes sociais podem oferecer benefícios aos médicos-veterinários (Foto: reprodução)

O que fazer nas redes sociais?

Nosso entrevistado, então, declara que o veterinário pode fazer textos explicativos de orientação de manejo, sem citar medicamentos ou técnicas. “Por exemplo, explicar o que é o tártaro, que existem cuidados de manejo que podem ser realizados, que é importante buscar orientação com um profissional. Em uma ou outra publicidade, informar que, no seu estabelecimento, você tem condições de realizar a limpeza e o tratamento dentário com qualidade e respeito ao paciente”, exemplifica.

Se o tema a ser tratado for diabetes, por exemplo, Dallari orienta o profissional a informar o que é a patologia, quais os sinais que despertam a suspeita, os cuidados que devem ser tomados e a orientação para que procure um profissional qualificado. “Em outra publicação informar que você tem a especialização ou a especialidade de endocrinologia e que faz o diagnóstico e o tratamento de Diabetes. Nesse sentido, você faz publicações separadas, técnica que pode ser utilizada em qualquer situação”, orienta.

O profissional ainda salienta que é importante estar atento ao uso inadequado de termos como “a melhor equipe”, ou “as melhores instalações e equipamentos”. “São termos que remetem à autopromoção e faltam com a ética, pois, indiretamente, estão afirmando que os outros não são bons ou não têm os melhores equipamentos e instalações”, indica.

Em relação a ensinar técnicas, o profissional sugere a criação de grupos exclusivos, onde seja necessário comprovar a formação profissional. “Ou monte cursos, junto a faculdades, e a responsabilidade do controle passa a ser da entidade educacional”, aconselha.

Como observado pelo profissional, a Medicina Veterinária vem se transformando no decorrer das últimas duas décadas e um dos pontos é em relação à especialização que vem tomando espaço. ‘Estamos deixando de ser ‘veterinários’ para ser ‘médicos-veterinários’ e essa valorização depende, também, do colega que precisa monitorar seus passos e, ainda, cobrar das autoridades a responsabilização dos colegas mais afoitos, ressaltando que é nossa obrigação levar aos Conselhos esses tipos de problemas. Nesse ponto, é importante entender que não se trata de denúncia, mas, sim, de cobrança em relação à valorização profissional”, relata.

Na visão de Dallari, quando o bom profissional deixa como está e não leva os problemas ao conhecimento do Conselho, acaba prevalecendo a concorrência desleal e o “canibalismo profissional”. “Entendo que o próprio CFMV/CRMV, mantendo um tipo de ‘plantão de fiscalização’, atuando mais diretamente nas redes sociais, notificando e alertando aos ‘menos avisados’ de que o comportamento adotado prejudica a todos, conseguirá bons resultados para a nossa profissão”, avalia.