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Plataforma visa auxiliar veterinários de todo o mundo na questão ‘saúde mental’

Iniciativa Not One More Vet (Nem um Veterinário Mais) vem para combater o suicídio dentro da Medicina Veterinária

Cláudia Guimarães, em casa

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Ter uma boa saúde é mais que cuidar e receber cuidados para seu físico. A saúde da mente é tão importante quanto a do corpo e, para que ela seja enaltecida, é preciso discutir sobre assuntos que, na maioria das vezes, evitamos, como é o caso do suicídio.

Nos Estados Unidos, visando transformar o status de bem-estar mental dentro da Medicina Veterinária, para que os médicos-veterinários possam sobreviver e prosperar por meio de educação, recursos e suporte, foi criada a iniciativa Not One More Vet (NOMV), que significa Nem um Veterinário Mais. Contatamos a diretora executiva da plataforma, Darlene Bos, que nos explica o funcionamento do projeto: “A NOMV aborda o bem-estar na Medicina Veterinária por meio de vários caminhos inovadores, incluindo: o maior grupo de apoio veterinário ponto a ponto do mundo, um programa educacional que fornece liderança com foco no bem-estar; um programa de subsídio de apoio que fornece apoio financeiro imediato; um sistema on-line de apoio a crises projetado especificamente para profissionais veterinários; e pesquisas para promover o avanço do bem-estar, saúde mental e redução do suicídio em veterinários”, discorre.

Segundo Darlene, a criadora do grupo NOMV no Facebook, em outubro de 2014, foi a Dra. Nicole McArthur, após a morte por suicídio da veterinária de renome mundial, Dra. Sophia Yin. “As notícias nos dias que se seguiram ao falecimento de Sophia trouxeram à tona as taxas alarmantes de suicídio na profissão. Naquele momento, muitos perceberam que a Medicina Veterinária pode ser muito isoladora e que tantos profissionais ao redor do mundo estão lutando com a realidade da prática do dia a dia”, observa.

Desde o início, a NOMV, como comentado por Darlene, cresceu e se tornou uma grande rede que fornece suporte para profissionais veterinários em todo o mundo. “Em 2017, a NOMV tornou-se uma instituição de caridade, permitindo à organização expandir sua programação para incluir educação de bem-estar e apoio financeiro para seus membros. Hoje, a NOMV está se expandindo rapidamente para se tornar líder em recursos de bem-estar veterinário e saúde mental”, comemora.

A NOMV atende a todos os profissionais envolvidos na área, o que inclui: veterinários, técnicos veterinários, equipe de suporte e estudantes de Veterinária e tecnologia veterinária. “Temos mais de 28 mil membros em nossos fóruns e esse número está crescendo rapidamente. Na última semana, recebemos milhares de outros pedidos de adesão. A participação nos fóruns é muito alta, com uma taxa de engajamento consistentemente superior a 70%”, compartilha Darlene.

Nessas páginas, os administradores oferecem uma série de recursos aos médicos-veterinários, incluindo suporte de pares; informações de recursos, como acesso a profissionais de saúde mental, linhas diretas; um programa de subsídio de apoio que fornece suporte financeiro durante uma crise; recursos para encontrar pessoal de ajuda; e recursos educacionais para apoiar o bem-estar.

“Diariamente, a maioria de nós, veterinários, se depara com situações que nos afetam” (Foto: reprodução)

Contras da profissão. Para a presidente da NOMV, Carrie Jurney, não há uma única razão para problemas de bem-estar veterinário e, portanto, não há uma única solução que consiga resolver isso. “Agora é que estamos participando da pesquisa – então aqui está minha tentativa de resumir tudo com base na ciência: é uma questão de natureza e criação. As pessoas que são atraídas pela Medicina têm um tipo de personalidade. Perfeccionista, motivado, muito empático e, sim, mais do que um pouco neurótico. Essas são, na verdade, as características que tornam um cuidador maravilhoso. Você quer alguém que queira ajudar, alguém que presta atenção aos pequenos detalhes, riscos e problemas. Mas você pode ver como também podemos ser nosso pior inimigo”, argumenta.

Como destacado pela executiva, em todas as áreas da Medicina, é preciso lutar contra a mãe natureza para viver ou fazer viver. “Mesmo quando somos motivados e perfeitos, nem sempre conseguimos vencer. Pequenos erros nos perseguem e nossos cérebros podem ficar obcecados por pequenas coisas negativas. Então, é como se pegássemos esse cérebro e os colocamos em uma panela de pressão, que é o hospital veterinário. O pessoal do veterinário não faz pausas. Um terço dos veterinários tira menos de uma semana de férias por ano, incluindo os feriados principais. Quando questionados sobre quantos dias por semana você está completamente ausente do trabalho, em média, a maioria dos veterinários respondeu zero. 44% dos profissionais veterinários não fazem intervalos para o almoço. Nossos amigos da MightyVet (outra plataforma de suporte aos veterinários) fizeram uma camiseta que diz ‘Não se esqueça de fazer xixi’, porque, honestamente, passamos o dia todo ignorando nossas próprias necessidades biológicas para que possamos trabalhar mais rápido e salvar mais animais. É difícil alcançar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional – você já perdeu seu jantar de aniversário por causa do trabalho? Eu já”, declara.

É assim que os veterinários, então, chegam ao conflito, na visão de Carrie: “Diariamente, a maioria de nós, veterinários, se depara com situações que nos afetam. É chamado de sofrimento moral. Logística, finanças, circunstâncias que nos colocam em situações que nos impedem de fazer o que consideramos certo. Não há nada mais que queremos no mundo do que salvar um animal de estimação, dedicamos nossas vidas a isso. Mas não podemos fazer isso de graça, porque também precisamos comer. 52% dos veterinários enfrentam diariamente a situação em que não podem ajudar um animal, porque o tutor não pode pagar pelos cuidados. Esse tutor odeia esse momento, eu odeio esse momento. É angustiante para todos”, expõe.

E é aí que, segundo Carrie, começa o cyberbullying, já que os tutores de animais de estimação tristes, agora, recorrem às redes sociais para expor suas queixas aos veterinários. “E os códigos de ética profissional, as leis de confidencialidade, significam que não podemos nos defender. Garanto que há dois lados em cada história que você lê sobre ‘um veterinário terrível’. Não estou dizendo que somos perfeitos, mas, geralmente, essas histórias são baseadas em: 1) expectativas irrealistas e 2) as realidades financeiras da Medicina”, alerta.

Veterinários encontram, diariamente a morte, o fim de uma vida, a frustração e a tristeza de uma família (Foto: reprodução)

Carrie afirma que o debate sobre suicídio dentro da Medicina Veterinária serve para conscientizar sobre as altas taxas de suicídio e problemas de saúde mental no veterinário, permitindo que os afetados se sintam mais confortáveis ​​em procurar ajuda e recursos. “Traz a conscientização para os proprietários de escritórios, gerentes e pessoal de recursos humanos para que possam lidar com o problema no ambiente de trabalho. E traz consciência aos responsáveis ​​pelos animais de estimação sobre o que seus veterinários estão lidando a portas fechadas”, opina.

Adesão brasileira. A médica-veterinária Nathaly Paiva Ituassu ficou sabendo da NOMV pelas redes sociais e acredita que, sem dúvida alguma, a participação de todos os veterinários deveria ser imediata: “Temos que nos unir para quando o colega ao lado der sinal de ‘fraqueza’, estarmos ali sendo um sustento”, avalia.

Na opinião de Nathaly, o suicídio é um tema que vem sendo discutido mundialmente, pois cada vez mais há relatos de excelentes veterinários se perdendo devido ao alto grau de cobrança, responsabilidade jogada nas costas, como se fossemos os responsáveis por tudo de errado que acontece. “É uma grande falta de empatia. Temos uma cobrança massacrante diariamente. Somos colocados como algozes quando aquele tutor não tem condição financeira para fazer o tratamento do seu animal ou quando aquele acumulador, que tem mais animais do que pode ter, nos joga a responsabilidade de ter que se trabalhar de graça, sendo que, muitas vezes, é o que acontece mesmo. Ficamos tão envolvidos com a dor do animal que acabamos assumindo para nós a responsabilidade que não é nossa. Somos anjos quando salvamos e viramos demônios da noite para o dia quando o paciente que está sucumbindo em casa chega para nós em estado crítico e vem a óbito. Como se nós, médicos-veterinários, pudéssemos ter a decisão sobre vida ou morte”, lamenta.

Nathaly revela que tem colegas que tentaram o suicídio: “A sensação, além da dor que dilacera o coração, é de impotência, de nos questionarmos o porquê de uma profissão tão linda ser tratada com tanto desdém. As pessoas precisam entender que nossa profissão é igual a qualquer outra, temos e devemos receber por nosso trabalho. Somos médicos-veterinários porque amamos o que fazemos e isso não tem a ver com ser obrigado a trabalhar de graça. Hoje, o que mais existe são tutores que se acham veterinários porque pesquisaram no Google medicamentos para seus animais sem saber o que estão fazendo, sendo negligentes, imprudentes e omissos e, quando precisam de nós, nos colocam o peso de ter responsabilidade total sobre os acontecimentos, buscam o mais barato sem saber da qualidade, submetem seus animais a cirurgias de R$50, onde matematicamente a conta não fecha e, quando acontece algo errado, vão até as redes sociais gritar, denegrir, xingar, ameaçar e, ali, são apoiados por juízes de internet, donos da verdade”, lastima.

O médico-veterinário professor e Coordenador do Curso de Medicina Veterinária da FEA (Andradina SP), Fábio dos Santos Nogueira, também soube da NOMV pelas redes sociais e decidiu participar pois acredita que é um tema que precisa ser debatido e explorado nas universidades desde o primeiro ano. “O aluno deve estar preparado para lidar com frustrações, desilusões, tristezas, competitividade, sucesso e fracassos da nossa profissão”, avalia.

“Temos que nos unir para quando o colega ao lado der sinal de ‘fraqueza’, estarmos ali sendo um sustento” (Foto: reprodução)

Nogueira comenta que, muitas vezes, há a sensação de que o problema só ocorre em nossa região, com a nossa cidade, com o nosso Estado, com nosso país. “Com iniciativas como essa, podemos ver que o problema é universal. Os problemas são iguais, os médicos-veterinários têm muita dificuldade no controle emocional, principalmente em situações de estresse. A saúde mental do veterinário deve ser acompanhada, muitas vezes, por profissionais capacitados e que saibam identificar o problema”, pondera.

Como destacado pelo profissional, a Medicina Veterinária é, normalmente, ligada ao amor: “’Vou fazer Veterinária porque amo animais’. E assim o estudante entra com aquela carga e aquele conceito de querer salvar todos os animais. E não será assim! Nós trabalhamos e encontramos diariamente a morte, o fim de uma vida, a frustração, a tristeza de uma família, a impotência e aquela sensação de que poderia fazer mais e, principalmente, a decisão e a palavra final sobre a eutanásia. A eutanásia, infelizmente, está muito banalizada e, para muitos profissionais, em algumas situações optam para tirar mais um ‘problema’.  Acredito que, quando junta todas essas situações, que normalmente se acumulam, o veterinário tendo conhecimento técnico das drogas e eutanásia, se vê diante de uma situação de suicídio. Na verdade, ele não quer tirar a vida dele cometendo o suicídio, ele quer tirar tudo aquilo que está dentro dele, que foi acumulado durante muitos anos”, constata.

O profissional ficou sabendo, depois de muitos anos, que um aluno que gostava de contar piadas durante a graduação, que era ótimo estudante e cantor, animava qualquer festa, depois que se formou, casou e teve um filho, foi trabalhar em São Paulo e cometeu o suicídio depois de alguns anos. “A sensação é de tristeza e daquela angústia de como professor: será que eu não poderia ter alertado sobre as desilusões. Será que estamos preparando esses alunos para o que vem pela frente?”.

Por isso, ele acredita que é preciso preparar os futuros médicos-veterinários: “O mundo está mudando, novas doenças, novos conceitos de prevenção, nova visão de como sairemos depois da pandemia e, principalmente, de como trataremos a saúde mental das pessoas que se relacionam estão em debate. O veterinário ganhará cada vez mais um papel muito importante como gestor de Saúde Única e deve estar preparado em todos os sentidos”, argumenta.

Nogueira aproveita a oportunidade para deixar uma frase para todos os colegas de profissão, estudantes e para aquele jovem que, nesse exato momento, fala que seu sonho é ser médico veterinário: “Não desperdice a sua vida. Siga o seu coração, corra atrás dos seus sonhos, mas saiba que, durante todo esse percurso, encontrará espinhos e frustrações que serão importantes para o seu crescimento”.

Na edição deste mês da C&G, também há uma entrevista com o psicólogo e mestrando em Psicologia, Victor Linking Magalhães Campos, que falar sobre os cuidados com a saúde mental e, ainda, mostra como ajudar os colegas que se encontram diante desse problema. Clique aqui e boa leitura!

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