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Uma relação perigosa

O excesso de peso pode agravar doenças articulares em animais de estimação; a prevenção e o manejo adequado podem garantir a qualidade de vida dos pets
Por Equipe Cães&Gatos
Por Equipe Cães&Gatos

O sobrepeso em pets é uma condição crescente que traz diversas implicações para a saúde dos animais. Entre os problemas mais comuns associados ao excesso de peso estão as doenças articulares. 

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Segundo a médica-veterinária e doutoranda da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (USP-FMVZ), Bruna Stafoche, o excesso de peso sobrecarrega as articulações, promovendo o desenvolvimento ou a progressão e agravamento de doenças articulares.

Fernanda Vituri

A médica-veterinária fisiatra e co-fundadora do Instituto AmarElo Vet, Fernanda Vituri, acrescenta que o excesso de peso induz uma sobrecarga em todas as articulações apendiculares, afetando a postura e dificultando a mobilidade dos animais. “Além disso, a obesidade é um quadro inflamatório crônico que afeta todo o organismo, causando fadiga e piorando a dor nas articulações que já possuem algum grau de degeneração ou desgaste”.

Segundo Fernanda, a obesidade piora qualquer tipo de doença articular, seja ela congênita ou adquirida. “As mais comuns são as doenças articulares relacionadas ao desenvolvimento, como a incongruência do cotovelo, a luxação de patela e a displasia coxofemoral, muito prevalente em cães. Nos animais mais idosos, tanto cães quanto gatos podem apresentar processos degenerativos na coluna, que também pioram bastante com o excesso de peso”.

No caso da osteoartrite em cães, Bruna explica que o sobrepeso e a obesidade podem contribuir de mais de uma forma para a progressão da doença, pelo aumento da sobrecarga nas articulações, pela liberação de adipocinas que são substâncias que promovem inflamação e atuam na degeneração da cartilagem articular.

Segundo Fernanda, muitos estudos sugerem que a obesidade causa diversas alterações no metabolismo dos animais, que induzem um estresse oxidativo nas articulações, predispondo a um quadro inflamatório e degenerativo articular, mais conhecido como osteoartrite. “Essa inflamação culmina na produção de enzimas que degradam a cartilagem, contribuindo para a perda de sua proteção, tão importante para preservar a articulação”.

De que maneira a obesidade pode causar inflamação nas articulações de cães e gatos? Bruna responde que o tecido adiposo não serve apenas para estocar células de gordura (adipócitos). “Hoje, sabemos que o tecido adiposo funciona como um órgão endócrino, que produz e secreta hormônios e adipocinas que influenciam diretamente no metabolismo animal, seja para controle da saciedade como, também, participa de vários outros processos biológicos por meio de mediadores que podem promover inflamação e alterações no sistema imunológico. Com o aumento da adiponectina, os condrócitos aumentam a produção de várias moléculas, como a NOS2 (óxido nítrico sintase tipo II), IL-6, MMP-3, MMP-9 e MCP-1, que são mediadores da degeneração da cartilagem. O óxido nítrico (NO) produzido por NOS2 desempenha um papel crucial na regulação das funções da cartilagem, afetando a apoptose dos condrócitos e a degradação da matriz extracelular”, explica. 

Fernanda afirma que um corpo mais pesado gera aumento na pressão sobre as articulações, prejudicando a movimentação delas. “O passo tende a ficar mais curto e lento, reduzindo a amplitude do movimento articular. Quando falamos então de animais que já nasceram com alterações biomecânicas articulares, como na displasia coxofemoral por exemplo, essa movimentação fica ainda mais prejudicada e incômoda”.

Ainda sobre isso, Bruna conta que a carga articular é essencial para a manutenção de uma cartilagem saudável, mas uma redução ou um aumento na carga fora dos níveis fisiológicos normais, ou uma mudança na direção das forças articulares (por exemplo, com instabilidade articular) pode ser prejudicial.  “A biomecânica articular pode ser alterada por alguma anormalidade primária de congruência ou estabilidade, ou por uma mudança de suporte de carga secundária ao próprio excesso de peso corporal. Ao alterar a biomecânica articular e aumentar a carga, a obesidade pode ter um papel tanto no início quanto na progressão da osteoartrite”.

Em filhotes, excesso de peso durante a fase de desenvolvimento osteoarticular dos animais, segundo Fernanda, pode comprometer tanto a função quanto a conformação dessa articulação, gerando um impacto biomecânico para o resto de suas vidas. “Além disso, tendem a apresentar uma menor massa muscular desde cedo, piorando sua postura e mobilidade quando adultos”.

Bruna Stafoche é médica-veterinária e doutoranda na FMVZ-USP

Para Bruna, alguns estudos apontam que a prevenção do sobrepeso desde os primeiros meses de vida pode prevenir o desenvolvimento de doenças articulares, como por exemplo, a displasia coxo-femoral, outros estudos não conseguiram comprovar esse efeito causal. “Em todo caso eu sempre digo, prevenir é muito melhor que remediar, e a prevenção da obesidade só trará benefícios ao animal, tanto para as articulações, como também para o metabolismo por inteiro, prevenção de endocrinopatias e até dermatopatias”.

Sinais de que há algo errado

De acordo com Fernanda, um animal com problemas articulares apresenta sinais como alterações na marcha e na forma de apoiar os membros no solo. “Em geral, quando o animal sente dor em uma articulação, ele instintivamente aumenta sua descarga de peso nas demais, poupando o membro acometido e sobrecarregando os outros. Elevar a cabeça ao apoiar o membro torácico, claudicar durante a caminhada, ou, até mesmo, jogar a cauda para um determinado lado ao apoiar um dos membros pélvicos podem ser alguns desses sinais”, explica.

O papel da dieta 

A dieta possui um papel importante na perda de peso e, consequentemente, no tratamento das doenças articulares. “A alimentação precisa promover a perda de peso e, ao mesmo tempo, suprir as necessidades de nutrientes e proteínas para dar a saciedade necessária e preservar a massa muscular, tão importante para dar a estrutura adequada para as articulações. Um acompanhamento com veterinário nutrólogo é fundamental para orientar qual tipo de dieta é mais recomendada, considerando fatores como idade e presença de outras comorbidades”, afirma Fernanda.

Segundo Bruna, a perda de peso ameniza as manifestações clínicas, melhorando a qualidade de vida desses animais e acredita-se que a perda de peso possa diminuir a progressão da doença. Sobre as dietas, ela conta que, tanto ela quanto os exercícios, visam promover a perda de peso e manutenção da massa muscular, que trará maior conforto e qualidade de vida para os animais e diminuirá a progressão da doença articular. Mas quando o animal está em crise de dor, é necessário repouso”. 

Sobre exercícios, Fernanda acrescenta que são fundamentais para manter a força e massa muscular, além de ajudarem a reduzir a inflamação presente nesse organismo. “O veterinário fisiatra é a melhor pessoa para avaliar a condição física desse animal e delinear os exercícios necessários para cada articulação”.

Ele está acima do peso?

Para saber se o animal está acima do peso, Bruna conta que deve ser utilizado o  índice de condição corporal (ICC), que é um método simples para acessar a composição corporal dos animais e, provavelmente, a ferramenta mais utilizada na prática veterinária. “É um método semiquantitativo subjetivo, que utiliza características visuais (de cima e de lado) e palpáveis (costelas, cintura, etc.) para estimar o grau de adiposidade do animal. A escala de 9 pontos é a mais utilizada. A composição corporal é atribuída em uma escala que varia de 1 a 9, de baixo peso (magro) a obeso, com uma condição corporal adulta ideal estimada em 15% a 20% de gordura corporal. O índice ideal para cães é 4/9 ou 5/9 e para gatos 5/9. Com esse sistema, cada aumento de unidade no ICC equivale, aproximadamente, a 10% a 15% maior que o peso corporal ideal; assim, um cão ou gato com um ICC de 7 é, aproximadamente, 20% a 30% mais pesado do que seu peso ideal. Na prática, os tutores devem sempre estar atentos e visualmente inspecionar seus animais com frequência. Os animais devem ter uma leve cintura quando olhados de cima, e ao tocar as costelas devem ser facilmente palpáveis”, diz.

Fernanda conta que ela, geralmente,  se atenta à conformação corporal desses animais, ou seja, na visualização e palpação de algumas estruturas anatômicas importantes. “O animal que está no seu peso ideal tem as costelas, coluna e ossos do quadril facilmente palpáveis, uma cintura presente, e uma discreta gordura abdominal. Caso essas estruturas sejam dificilmente palpáveis, ou a cintura não estiver presente, provavelmente estaremos diante de um animal em sobrepeso. Os sinais de alerta para problemas articulares são: um menor motivação para se movimentar; redução no nível de atividade, como deixar de realizar atividades favoritas por esses animais, ou passar grande parte do tempo em repouso ou dormindo (muito comum em gatos); dor ao manipular o corpo desse animal ou ao movimentar espontaneamente o corpo; claudicação ao apoiar um membro; alterações na postura, como a cifose”.

Orientação 

Bruna aponta que os médicos-veterinários devem conscientizar os tutores desde a primeira consulta sobre a prevenção da obesidade e de doenças articulares. “O manejo alimentar ad libitum, que é aquele em que a ração/alimento fica disponível o tempo todo para o animal não é recomendado. Os animais devem receber uma quantidade de alimento controlada por dia e esse cálculo pode ser feito por um médico-veterinário para determinar a quantidade diária individual do animal, esse método é preferencial. O tutor também pode seguir as recomendações de quantidade sugeridas da embalagem do alimento, porém deve acompanhar o peso do animal para possíveis ajustes tanto para mais ou menos, a depender do nível de atividade do animal e a taxa metabólica basal. Explicar para o tutor a ferramenta de avaliação de índice de condição corporal (ICC) é uma boa aliada para que o tutor acompanhe a domicílio possível ganho de peso; mostrar para o tutor que as costelas devem ser facilmente palpáveis é muito útil e educar sobre a oferta de alimentos/petiscos para que seja controlada e fornecer opções de petiscos de baixa densidade calórica”, explica. 

Ela também comenta que o controle do peso é uma das poucas intervenções que comprovadamente aumentam a expectativa de vida dos animais. “Animais obesos vivem, em média, dois anos a menos que animais em peso ideal. Essa informação é valiosa para ser compartilhada com o tutor de um animal que precisa de motivação para seguir um plano de perda de peso de seu animal e, também, para conscientizar tutores da importância de prevenir essa doença”, afirma e completa, ao alertar, que o uso de diclofenaco (por ex: cataflam, voltaren, tandrilax, torsilax) em cães é totalmente contraindicado devido aos graves efeitos colaterais, infelizmente, muitos tutores com o intuito de aliviar a dor de seus animais acabam administrando esses medicamentos que são facilmente encontrados em casa e levando os animais a óbito por sangramento, úlcera e/ou perfuração gástrica”.

Já Fernanda comenta que a orientação dada aos tutores deve ser em relação à observação de fatores como nível de atividades dos animais, conformação corporal e postura (linearidade da coluna, elevação da cabeça e do quadril), além de conscientizá-los a manter uma quantidade adequada de alimento, evitarem petiscos e alimentos calóricos como frutas, e a estimularem seus animais a manterem atividade físicas com orientação veterinária. “É importante sempre lembrarmos que a osteoartrite é uma doença crônica e sem cura, e que a obesidade é um fator que piora em todos os aspectos o controle dessa doença. E que a adesão da família no tratamento é fundamental para o sucesso desse tratamento ao longo de toda a vida do animal”, finaliza.

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