A alergia alimentar em cães e gatos é uma reação imunológica adversa a certos elementos da sua dieta. Essa resposta é desencadeada pelo sistema imunológico, que, erroneamente, reconhece certos ingredientes como perigosos, resultando em inflamações que podem variar de leves a graves.
A comunicadora e médica-veterinária nutróloga de cães e gatos, Carla Maion, explica que não existem evidências substanciais que apontem para uma predisposição racial específica em relação às alergias alimentares em cães e gatos. “A suscetibilidade a essa condição parece independente da raça do animal, sugerindo que fatores genéticos e ambientais desempenham papéis mais proeminentes”, declara.
Em relação à idade, Carla conta que, embora cães e gatos de todas as faixas etárias possam desenvolver alergias alimentares, é mais comum observar os primeiros sinais durante os primeiros anos de vida. “Estudos indicam que a predisposição genética pode influenciar a suscetibilidade à alergia alimentar em animais de estimação. Se um animal tem parentes próximos com histórico de alergias, a probabilidade de desenvolver a condição pode ser maior”, salienta.
Identificação de sinais em cães
Embora não haja uma correlação clara com raça específica ou idade, como mencionado acima pela profissional, é crucial reconhecer que a alergia alimentar pode manifestar-se em qualquer animal, independentemente de suas características raciais ou faixa etária. “Os sintomas associados à alergia alimentar em cães e gatos podem variar, mas, frequentemente, incluem manifestações cutâneas e gastrointestinais”, frisa.
De acordo com Carla, os sinais mais comuns incluem prurido cutâneo, evidenciado por coceira excessiva, lambedura frequente e mordedura nas patas, região facial, anal e orelhas. “A pele do animal pode apresentar vermelhidão, inflamação e, em casos mais graves, pode ocorrer perda de pelo e formação de feridas. Além dos sintomas cutâneos, a alergia alimentar pode se manifestar no trato gastrointestinal, causando gastroenterite, vômitos e diarreias. Estes sintomas podem ser acompanhados por desconforto abdominal, anorexia ou hiporexia, disbiose seguida de flatulência e, em casos mais severos, perda de peso”, enumera.
A veterinária considera importante observar que os sintomas da alergia alimentar podem se sobrepor a outras condições dermatológicas e/ou gastrointestinais, tornando o diagnóstico mais desafiador. “Além disso, em alguns casos, a alergia alimentar pode desencadear sintomas sistêmicos, como letargia, aumento da frequência cardíaca e dificuldades respiratórias. Estes sinais podem indicar uma reação alérgica mais grave e requerem atenção veterinária imediata”, alerta.
Sinais nos felinos
Em gatos, Carla informa que a alergia alimentar, muitas vezes, se manifesta predominantemente por meio de sintomas dermatológicos e incluem prurido intenso, lambedura excessiva, especialmente na área abdominal e nas pernas, e o desenvolvimento de feridas na pele decorrentes da coceira persistente. Sinais adicionais como inflamação, vermelhidão e perda de pelos, geralmente localizados em áreas específicas podem acontecer.
Segundo Carla, é crucial ressaltar que os sintomas específicos podem variar entre indivíduos e o diagnóstico de alergia alimentar em gatos pode ser desafiador devido à possibilidade de sobreposição com outras condições dermatológicas.
O que causa?
O problema é, frequentemente, desencadeado por determinados ingredientes presentes na dieta dos animais e incluem proteínas de origem animal, como carne de vaca, frango, ovos, como discorre a profissional. “Além disso, produtos lácteos, ovos, trigo, soja e milho também são conhecidos por provocar reações alérgicas em alguns animais.
Carla ainda comenta que, além dos ingredientes alimentares, aditivos, corantes e conservantes presentes em rações também podem ser responsáveis por desencadear reações alérgicas em alguns animais. “É importante notar que a alergia alimentar difere da intolerância alimentar. Enquanto a alergia envolve uma resposta imunológica específica, a intolerância está relacionada à incapacidade do sistema digestivo em processar determinados alimentos, resultando em problemas gastrointestinais”, diferencia.
Desvendando a alergia
Carla relata que o diagnóstico da alergia alimentar em cães e gatos demanda uma abordagem cuidadosa e coordenada, considerando a complexidade dos sintomas associados.
O processo diagnóstico geralmente envolve as seguintes etapas:
- Anamnese e Histórico Clínico: O veterinário coleta informações detalhadas sobre a dieta atual do animal, histórico médico e padrão de sintomas. Esse levantamento ajuda a identificar possíveis fatores desencadeantes e padrões observados ao longo do tempo.
- Exposição e Observação Dietética: Uma estratégia comum é a exclusão de certos alimentos da dieta do animal. Recomenda-se uma dieta hidrolisada ou inédita, composta por fontes de proteína e carboidratos que o animal não tenha consumido anteriormente. Pode haver uma construção gradual, em casos de dieta caseira, testando outros ingredientes semanalmente.
- Reexposição Gradual: Após um período de exclusão bem-sucedido, os alimentos removidos são reintroduzidos gradualmente na dieta, de maneira controlada. Esse processo visa observar se há uma recorrência dos sintomas.
- Monitoramento Atento dos Sintomas: Durante a reintrodução, veterinário e o tutor observam atentamente qualquer manifestação de sintomas. A presença de reações adversas ao reintroduzir determinados alimentos sugere a possível existência de alergia alimentar.
- Testes Específicos: Em determinadas situações, o veterinário pode optar por realizar testes específicos, como testes cutâneos ou exames de sangue, para identificar alérgenos específicos. Esses testes podem fornecer confirmação e detalhes sobre os causadores da alergia.
Soluções personalizadas
O tratamento de animais com alergia alimentar é multifatorial, como explicado pela veterinária nutróloga, e visa controlar os sintomas, proporcionar alívio ao paciente e gerenciar esta condição a longo prazo. As principais abordagens envolvidas no tratamento:
- Dieta hipoalergênica ou caseira personalizada: Uma parte fundamental do tratamento é a implementação de uma dieta coadjuvante ao tratamento. Esta dieta exclui os ingredientes que desencadeiam alergias e é composta por fontes de proteína e carboidratos que o animal não tenha ingerido anteriormente ou que tenha boa tolerância. A adesão rigorosa a essa dieta é crucial para evitar a recorrência dos sintomas.
- Suplementação nutricional: Em alguns casos, ácidos graxos ômega-3 e outros princípios pró anti-inflamatórios podem ser recomendados.
- Medicamentos antialérgicos: Anti-histamínicos ou corticosteróides podem ser prescritos para controlar os sintomas agudos, especialmente em casos de prurido intenso, inflamação e desconforto e devem ser considerados durante o período de triagem alimentar.
- Tratamento de Infecções Secundárias: Devido ao coçar excessivo da pele, pode ser necessário administrar antibióticos ou outros medicamentos apropriados.
- Monitoramento Contínuo: Ajustes na dieta ou no tratamento são necessários por longos períodos. O veterinário pode recomendar visitas regulares para avaliação clínica.
- Educação: Tutores devem ser educados sobre a importância de seguir a dieta recomendada, evitar a introdução de alimentos não autorizados e estar atentos a quaisquer sinais de recorrência dos sintomas.
“É crucial destacar que o tratamento da alergia alimentar é, muitas vezes, um processo contínuo e pode demandar paciência e dedicação por parte dos proprietários. A participação ativa e o comprometimento do tutor são elementos essenciais para o sucesso no tratamento”, frisa a profissional.
Vários aspectos destacam esta importância:
- Adesão à dieta recomendada: Aplicação rigorosa da dieta hipoalergênica indicada pelo veterinário. A conformidade estrita é fundamental para evitar exposição a alérgenos e prevenir a recorrência de sintomas. Isso envolve não apenas seguir a dieta principal, mas também abster-se de oferecer qualquer tipo de petisco ou alimento não autorizado.
- Vigilância constante dos sintomas: O tutor deve estar atento a quaisquer alterações nos sintomas. Observar a pele, comportamento alimentar e sinais gastrointestinais é crucial para detectar rapidamente qualquer reação adversa.
- Comunicação efetiva com o veterinário: Compartilhar informações detalhadas sobre quaisquer mudanças na rotina do animal ou na dieta. Essas informações fornecem insights valiosos para ajustar o plano de tratamento conforme necessário.
- Participação em consultas veterinárias regulares: Seguir o cronograma de consultas veterinárias recomendado. Essas visitas oferecem oportunidades importantes para avaliar o progresso do tratamento, realizar ajustes necessários na dieta ou medicação, e discutir eventuais preocupações ou novos sintomas.
- Compreensão da natureza contínua do tratamento: Carla afirma que é crucial que o tutor compreenda a importância do tratamento a longo prazo e esteja ciente dos desafios potenciais associados à alergia alimentar. A paciência desempenha um papel fundamental, já que a alergia alimentar frequentemente requer uma abordagem contínua para alcançar resultados positivos.
“Em resumo, a parceria colaborativa entre o tutor e o veterinário é essencial para um manejo bem-sucedido da alergia alimentar em animais de estimação. O comprometimento do tutor é um fator crítico para assegurar que o plano de tratamento seja seguido com consistência, proporcionando ao animal uma qualidade de vida melhor e minimizando os impactos da alergia alimentar”, finaliza.