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VETERINÁRIA DE FELINOS COMENTA OS PRINCIPAIS MITOS ACERCA DA ESPÉCIE

“Ter gato não é pra qualquer um”, defende profissional, que indica estudos sobre o pet antes de adotá-lo

Cláudia Guimarães, em casa

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Aposto que você, “gateiro”, já ouviu alguém fazendo alguma suposição nada verdadeira sobre gatos e ficou chateado, mesmo que momentaneamente, com aquela pessoa. Afinal, só quem vive na companhia desses bichanos sabe bem como são e que todos os mitos negativos acerca da espécie não passam de inverdades.

Mas qual será o motivo de tantos boatos em relação aos felinos? A médica-veterinária e comportamentalista especializada em Felinos Domésticos e sócia proprietária da Clinfel Medicina Felina e Hemofel – Banco de Sangue Felino (Campinas-SP), Carolina Nicolini, sugere que, talvez pelo fato de a espécie ter menos tempo de convívio com seres humanos, ou seja, um tempo menor de domesticação. “Para se ter uma ideia, os cães possuem, em média, 41 genes ligados à domesticação contra 13 dos gatos. Eles ainda são seres semi-domesticados, muito a ser estudado e compreendido”, destaca.

Carolina observa que, cada vez mais, é possível ver profissionais se atualizando no mundo dos gatos. “Vemos profissionais deixando a clínica de lado para se dedicar à psicologia/psiquiatria e comportamento felino. Por não se saber muita coisa ainda, surgem as especulações e mitos sobre a espécie”, argumenta.

A veterinária relata que o gato se mostra mais independente do que o cão em relação aos humanos, por isso, não é comum ver um felino seguindo uma pessoa, assim com o cão faz, por exemplo. “Cada gato pode reagir e se comportar de maneira diferente diante da mesma situação, mesmo tendo tratamento idêntico, por isso, é difícil estabelecer uma regra geral para a relação tutor-gato. O que orientamos é para lerem mais sobre a espécie (em fontes confiáveis), passar a observá-lo mais e entendê-lo como único, com suas particularidades e manias, e respeita-lo acima de tudo”, orienta.

As mães podem ficam despreocupadas com seus gatos na gravidez e após o nascimento dos bebês (Foto: reprodução)

Já sobre e relação veterinário-gato, Carolina cita que, na clínica, é utilizada a prática Cat Friendly (clínica amiga do gato). “Por não conhecer o paciente, nos colocamos em seu lugar para tentarmos entender o que ele sentiria em determinadas situações (pessoas, barulhos, cheiros diferentes)”, narra e parte para os comentários dos boatos sobre a espécie:

Gatos oferecem risco para grávidas e bebês? A profissional declara que as pessoas associam a toxoplasmose aos gatos, pois eles são os únicos animais que, se contaminados com o protozoário, por meio da caça ou ingestão de carne crua contaminada, podem eliminá-lo nas fezes, contaminando o ambiente, principalmente, terras e plantações. “Apenas 1% dos gatos transmitem o toxoplasma apenas uma vez ao longo de sua vida, por um período de três semanas, e, para isso acontecer, os oocistos (estágio de ‘ovo’ inicial do toxoplasma), que são eliminados nas fezes, precisam estar infectantes (mais de 48h no ambiente) para, assim, contaminar a pessoa que precisará ingerir essas fezes contaminadas com ‘ovos’ esporulados”, explica.

Vale ressaltar que outros animais, como bovinos, aves, suínos, também podem adquirir toxoplasma, a diferença, segundo Carolina, é que os oocistos não são eliminados pelas fezes e o parasita fica alojado nos músculos, por isso, o maior fator de risco para a grávida é a ingestão de carne crua ou malcozida e verduras mal lavadas (uma vez que os gatos defecam os hortaliças e plantações).

“As mamães podem ficam despreocupadas com seus gatos, realizar no pré-natal com exame de sangue que detecta anticorpos para o Toxoplasma e, caso seja positiva pra IgG (cerca de 1/3 da população), não corre risco algum de adquirir uma infecção primária aguda. O resultado positivo, nesse caso, é algo bom, significa que a mulher já está protegida e que seu sistema imunológico está armado com anticorpos capazes de combater o protozoário. Sendo negativo, deve evitar se expor a qualquer risco de contaminação, limpando a caixa sanitária do gato todos os dias e evitando comer os alimentos da forma citada acima”, recomenda.

Gatos são autistas? Essa é mais uma frase comum de quem desconhece a espécie. Mas, de acordo com a especialista, determinar se um gato tem autismo é muito difícil, já que alguns não apresentam qualquer comportamento específico. Quando esse pet tem, realmente, o autismo deve ser ajudado a se adaptar a novas situações e é preciso evitar mudanças em sua rotina, principalmente mudança de tutores ou casas.

Outro mito é acerca do gato preto, mas ele é apenas mais um pet normal, que merece todo carinho, respeito e amor (Foto: reprodução)

Como destacado por Carolina, é importante manter o cronograma do gato aproximadamente inalterado e não mudar os móveis ou caixote/casa do lugar, para que se sinta confortável em lugares que são familiares. “Eles olham nos olhos dos tutores, embora algumas pessoas digam que não, e isso é considerado um tipo de linguagem, de conversação entre eles. Aquele leve piscar de olhos, o abre e fecha bem lentamente é um dos tipos de comunicação mais prazerosos para os gatos. O que nós, veterinários, evitamos em uma consulta felina é iniciar o exame físico do animal pela frente, olhando nos olhos. Predadores olham as presas no olho antes de atacar e o gato ainda é uma espécie em adaptação. Como não os conhecemos, buscamos uma certa ‘distância segura’ que o vá deixar mais confortável, sem medo e insegurança e não se sentir ameaçado. Dando sempre tempo ao tempo, eles vão se soltando e chegando até nós por livre e espontânea vontade, olhando nos olhos e conversando conosco”, revela.

Outros mitos. Além dessas questões que surgem entre quem nunca teve um felino, também existem outras como que o gato preto dá azar, que Carolina rebate: “Um gato preto nada mais é que um felino com melanismo, ou seja, uma característica genética que lhe confere a coloração escura da pelagem. Contudo, ele é apenas mais um pet normal, como todos os outros, que merece todo carinho, respeito e amor. Como veterinária de felinos e tutora de um gato preto, pessoalmente, vejo que são muito amistosos, cordiais e carinhosos. Na rotina clínica, só perdem para os malhados branco e laranja”, aponta.

Também há o mito de que gatos não se apegam ao tutor, que surgiu da comparação da interação cão-tutor, como explanado pela veterinária: “Gatos individuais podem mostrar afeto e que gostam de seu tutor de várias maneiras, se esfregando neles ou sentando em seu colo; enquanto gatos mais independentes podem demonstrar afeto apenas por estarem no mesmo cômodo que o cuidador. Há muita variação em como os gatos demostram comportamentos sociais em relação às pessoas”, conta e, agora, menciona as dúvidas que os próprios tutores de felinos têm:

Fêmeas devem parir uma vez antes da castração? Essa é uma polêmica, com prós e contras a serem levados em consideração pelo veterinário, juntamente com o tutor, como declara Carolina. “Talvez a resposta mais apropriada seria: depende. Do ambiente em que ela vive, se existe contactante (outro gato) que possa cruzar com ela, se faz marcação territorial, se vocaliza muito, se é uma gata semi-domiciliada (que fica em casa, mas também sai para a rua). O que sabemos é que a gata precisa perder seus estímulos hormonais para se adaptar melhor ao espaço indoor, evitando estresse, depressão imunológica e outros fatores comportamentais”, diz.

Quem acha que pets sem acesso à rua não ficam doentes está enganado. Existem diversas enfermidades que os felinos podem contrair, de acordo com a veterinária (Foto: reprodução)

Na maioria das vezes, a veterinária revela que optam por castrar entre 4 e 8 meses de vida. “Vale lembrar que gatas ciclam, em média, a cada 21 dias e podem iniciar com 2 ou 3 meses de idade (mesmo sem sinais de cio, como vocalização, rolamentos no chão, patinação com as patas traseiras). O que precisamos entender é que a castração é indispensável”, salienta.

Gatos que não têm acesso à rua não ficam doentes? De acordo com nossa entrevistada, existem diversas doenças que os felinos podem contrair, mesmo estando dentro de casa, como dermatites de contato, alérgicas, de fundo genético ou congênito, além do próprio estresse, que acaba desencadeando doenças clínicas, como obstrução uretral, anorexia, queda do sistema imunológico, entre inúmeras outras.

O que o livra da rua, segundo ela, são doenças infecciosas como Fiv (vírus da imunodeficiência felina), Felv (vírus da leucemia felina), TVT (tumor transmissível), machucados por brigas, atropelamentos, entre outros. “Um gato domiciliado vacinado, vermifugado e com todos os recursos que a espécie precisa (enriquecimento ambiental para amenizar qualquer tipo de estresse), manejo adequado das liteiras sanitárias, comedouros e bebedouros (água sempre potável), cuidados com plantas e produtos tóxicos, manutenção de pelagem com escovação de acordo com o tamanho do pelo, escovação dentária, entre outros, vai viver muito bem sem apresentar problemas tão cedo. Importante ter sempre um veterinário de confiança que possa orientá-lo quando a periodicidade dos check-ups”, sinaliza.

Pré-conceitos atrapalham? Carolina acredita que a fase de “manchar a reputação” dos gatos já passou. “Claro que ainda vemos muitas pessoas que se dizem odiar gatos, no entanto, percebemos o crescimento pela procura da espécie por milhares de tutores no mundo e no Brasil. Os países europeus já possuem mais gatos que cães em sua população (60% pra 40%). Aqui no Brasil, também estamos caminhando para isso: o crescimento anual por gatos tem sido de 8% ao ano contra 4% de cães e, em breve, estaremos com mais de 50% nos lares brasileiros”, aponta.

Além disso, atualmente, como dito pela profissional, muito mais gatos têm aparecido em clínicas veterinárias e a busca por especialista em felinos tem crescido absurdamente. “Acredito que essa ‘má reputação’ tem, cada dia mais, diminuído. Gato é o pet do futuro”, garante.

Quem decide adotar um gato, como destacado por Carolina, precisa entender a espécie, ler, se informar e conversar com quem já tem gato e com veterinários especialistas em felinos. “Pois não é um cão pequeno que estará complementando o lar, mas, sim, um animal ainda semi-domesticado, com adestramento ainda limitado e que ainda carrega, em sua genética, muitas características dos seus ancestrais selvagens. É de extrema importância entender quais as necessidades especiais de um gato e o que precisa ser feito para transformar a casa em um território para uma melhor adaptabilidade e bem-estar no meio urbano. Além disso, o tutor deve lembrar que, além de amar e cuidar, terá custos elevados. Pesquisar bem e pedir orientação para o veterinário especialista é fundamental. Ter gatos não é para qualquer um”, sugere.

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