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Veterinária e zootecnista comentam sobre as graduações no Brasil

Número de cursos, avaliação de instituições e futuro dos profissionais são alguns dos tópicos abordados

Cláudia Guimarães, em casa

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Começo esse texto com números: 466 e 147. Esses algarismos representam, respectivamente, os cursos de Medicina Veterinária e Zootecnia cadastrados no Sistema e-MEC, do Ministério da Educação (MEC). Comparado com alguns países, essa soma é extremamente alta, mas, será que, de fato, impacta no mercado de trabalho e na carreira dos profissionais?

A médica-veterinária e presidente da Comissão Nacional de Educação, do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), Maria José de Sena, declara que as Instituições de Ensino Superior (IES) que se propõem a ofertar algum curso de graduação precisam ter o compromisso com a sociedade de formar profissionais habilitados em sua área e de exercer suas atividades em concordância com o que preconiza as diretrizes curriculares de cada curso. “Neste sentido, partimos do princípio que as IES que ofertam o curso de Medicina Veterinária estejam formando de maneira adequada seus discentes”, observa.

No entanto, Maria José destaca que é preciso entender que formar de maneira correta não se restringe a formar apenas um profissional apto para o desempenho das suas atividades. “Compreende formar médicos-veterinários que possuam conhecimentos e habilidades, em consonância com os requisitos das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), obtidos a partir da aplicação de estratégias de ensino-aprendizagem adequadas que garantam que as competências adquiridas estejam presentes no dia a dia daquele profissional. Nesse sentido avaliações externas, como o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), que apontam quais são as IES que fazem uso dessas ferramentas e que colocam no mercado profissionais com competência, são de extrema importância”, avalia.

Brasil oferta mais cursos de Medicina Veterinária do que o somatório das ofertas de todo o resto do mundo (Foto: reprodução)

O que a fração representa? Sobre a quantidade de graduações disponíveis no Brasil, em específico, Maria José enxerga com muita preocupação. “Hoje, nosso País oferta mais cursos de Medicina Veterinária do que o somatório das ofertas de todo o resto do mundo. E isso se torna um problema muito sério para a profissão e para a sociedade, considerando que as próprias avaliações oficiais do MEC (como o ENADE) demonstram um quantitativo expressivo de cursos avaliados com conceitos 1 e 2, que estão abaixo das expectativas ao que se refere à qualidade de ensino. Estes resultados demonstram, também, que os profissionais formados nesses cursos estão atuando na sociedade, mesmo sem possuírem uma formação adequada, o que é extremamente preocupante”, destaca.

Por sua vez, a professora e coordenadora do curso de Zootecnia da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) e presidente da Comissão Nacional de Educação em Zootecnia do CFMV, Ana Claudia Ambiel Corral Camargo, afirma que o desempenho dos estudantes, assim como a avaliação das instituições e dos cursos é aferido pelo MEC, por meio do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES). “Esse documento é o norte a ser seguido pelos cursos para elaborar e atualizar o projeto pedagógico da graduação. Os cursos de Zootecnia do Brasil participam da prova Enade, a cada três anos, desde a sua primeira edição em 2004. Com base nos relatórios síntese de área – Zootecnia, publicado INEP/MEC, constata-se que, em 2004, 23 (45%) cursos de zootecnia participantes da prova receberam conceito satisfatório (5, 4 e 3 em uma escala de 1 a 5) e, na última edição (2019), 64 (66%) cursos obtiveram conceitos satisfatórios, evolução em números absolutos e percentuais bastante significativa. Diante desses dados, afirmo que, sim, as universidades e cursos brasileiros estão formando excelentes zootecnistas e atendendo a demanda do mercado de trabalho”, analisa.

Ana Claudia ainda adiciona que, para a Zootecnia, o número de cursos em não é excessivo em função do crescimento do uso de tecnologias de produção, da importância do agronegócio na economia nacional, no aumento a cada ano das exportações de produtos de origem animal e da demanda crescente que é possível observar por zootecnistas no mercado de trabalho.

Além de melhorar a qualidade dos cursos ofertados, em relação às disciplinas essenciais e corriqueiras da Medicina Veterinária, Maria José observa que, hoje, o mundo aponta que um(a) profissional deve ser capaz não só de atuar nas mais diversas áreas da profissão, mas que também possua aptidão de agir de maneira humanista, crítica, reflexiva e resolutiva. “Hoje, é preciso ter a capacidade de empreender, que se antecipe aos problemas futuros com proposições preventivas, que esteja desenvolvendo as suas atividades considerando as práticas de sustentabilidades e preservação do meio ambiente, assim como com base nos princípios básicos do respeito e da ética. Essas características são peças indissociáveis no exercício da profissão, entre outras”, argumenta.

Para Ana Claudia, o que faz falta no ambiente acadêmico está associado à estrutura e apoio governamental: “De acordo com o levantamento realizado em 2019, pelo CFMV, como base nas informações disponíveis no MEC, 119 cursos de Zootecnia estavam em funcionamento – hoje, 147 – sendo que 27% foram criados no século XX e, nas duas primeiras décadas deste século, 87 cursos, representando 73% dos cursos existentes atualmente. Ou seja, quase três quartos dos cursos de Zootecnia do Brasil ainda não atingiram a maioridade e estão em processo de consolidação de infraestrutura (laboratórios e setores de produção, por exemplo) e, até mesmo, de corpo docente. Além disso, 85% dos cursos de Zootecnia do Brasil (Relatório Síntese Enade/INEP/MEC, 2019) são públicos e, como sabemos, os recursos governamentais destinados à educação superior no Brasil, principalmente na última década, para a construção de benfeitorias, são escassos”, aponta.

Em 2020, docentes tiveram que filtrar os pontos essenciais na abordagem do conteúdo de suas disciplinas e a adotar novas metodologias de avaliação(Foto: reprodução)

O que muda com a pandemia? No aspecto da formação acadêmica, a pandemia, como lembrado por Maria José, exerceu uma pressão inesperada para a adoção do ensino remoto. “Poucos docentes estavam habilitados a utilizarem plataformas digitais. Consequentemente, houve um movimento de oferta de cursos e programas voltados ao estabelecimento de percursos formativos em ambiente virtual. Nestes, os docentes foram incentivados a utilizar estratégias ativas, a filtrar os pontos essenciais a serem considerados na abordagem do conteúdo de suas disciplinas e a adotar novas metodologias de avaliação. Tais ações podem contribuir positivamente para a quebra de resistências às estratégias inovadoras no processo ensino-aprendizagem, o que é fundamental para o estabelecimento do modelo de desenvolvimento de competências preconizado pelas DCNS 2019. Por outro lado, uma forte preocupação é que a adoção indiscriminada de metodologias de ensino remoto, sem as devidas adequações, contribua ainda mais para a precarização da formação profissional”, pondera.

O período de pandemia, está sendo um enorme desafio para os professores e instituições de ensino superior manter a qualidade do ensino e o desenvolvimento das habilidades e competências necessárias para o exercício profissional, como reforçado por Ana Cláudia: “Houve a necessidade de conhecer e desenvolver habilidades com as ferramentas de comunicação, pelos professores e alunos, além de todos os cuidados com a biossegurança na realização de atividades práticas. Essas mudanças deixaram vários legados que serão incorporadas em maior ou menor grau no ensino superior, entre eles, destaco o desenvolvimento da autonomia de aprendizagem nos alunos. Eles passaram a trilhar a busca pelo conhecimento, dependendo menos do professor, a compreender e encontrar diferentes soluções e repostas. Confesso que muitas vezes fui surpreendida pela capacidade dos meus alunos em entregar um produto acadêmico que foi além do solicitado e passei a ter a certeza de que os alunos que me surpreenderam vão fazer a diferença no mundo do trabalho”, comemora.

Na opinião de Maria José, é necessário mostrar à sociedade a importância do(a) profissional médico(a)-veterinário(a). “No que diz respeito à atuação profissional, intensas discussões foram desencadeadas nas redes sociais sobre nossa profissão quando houve a convocação do veterinário junto a outros profissionais da área de saúde e a nomeação pro tempore de um veterinário para a pasta da Saúde. Muitos manifestaram desconhecimento a respeito da contribuição que o profissional poderia, efetivamente, oferecer dentro do cenário da pandemia e, até mesmo, colegas de profissão ironizaram a medida governamental. Por outro lado, a participação de médicos-veterinários no processo de elaboração da vacina contra a Covid-19, bem como nos laboratórios de diagnóstico molecular da doença, mostrou o ecletismo e relevância da profissão. Tais situações permitiram uma abertura para a exposição do papel do profissional dentro do conceito de Saúde Única”, avalia.

Comissões possuem papel importante de discutir temas importantes diretamente ligados às profissões de Veterinária e Zootecnia (Foto: reprodução)

Representatividade. A CNE/CFMV tem como papel principal discutir temas importantes diretamente ligados ao profissional médico-veterinário com as comissões regionais de ensino da Medicina Veterinária, promover discussões nacionais, que nesse momento estão pautadas na implantação das DCNs 2019, entre outros. “Não atuamos dentro das IES. Nossa atuação é com as Comissões Regionais de Ensino, formadas na sua grande maioria por coordenadores e coordenadoras de cursos de Medicina Veterinária”, explica Maria José.

Para 2021, a CNE/CFMV iniciou uma série de reuniões com as comissões regionais de ensino, onde foram discutidos diversos temas do cotidiano dessas comissões. A partir dessas reuniões, segundo a presidente, tem sido elaborada a pauta de ações estratégicas a serem desenvolvidas a partir de 2021. “Além da ampliação dos espaços de discussão das DCNs, com vistas a dirimir dúvidas e possibilitar sua implantação, também serão abordados outros temas relevantes como o aprimoramento do processo de Acreditação dos cursos, a importância da área de Bem-Estar Animal na formação e atuação profissional, a adequação dos hospitais universitários, entre outros. Estaremos trabalhando com as comissões regionais e com a Diretoria do CFMV para alcançarmos os melhores resultados para a profissão”, garante.

Já a CNEZ/CFMV tem como missão zelar pela qualidade do ensino e pela valorização do profissional, coordenar discussões que possam nortear a qualidade do ensino de Zootecnia no Brasil, propondo ações nas instituições de Ensino Superior e órgãos governamentais; e realizar divulgação estratégica e contínua da Zootecnia, das suas áreas de atuação e das atribuições do Zootecnista como responsável técnico. A CNEZ é responsável, ainda, pela organização de eventos nacionais com a finalidade de criar espaços para discussões e articulações com os diversos segmentos da sociedade e entre coordenadores de curso de zootecnia para o crescimento e consolidação da Zootecnia no Brasil.

Quando questionada sobre as metas da Comissão para 2021, Ana Cláudia declara: “O fato de sermos zootecnistas e promotores de discussões com os coordenadores de cursos de Zootecnia de todo o Brasil nos permite vislumbrar metas para a CNEZ a partir de 2021. Entretanto, a gestão desta comissão se encerra em dezembro de 2020, o que nos limita divulgá-las agora. No momento oportuno, informaremos nossas pretensões à futura Comissão para seu conhecimento e, se aprovadas, publicização das mesmas”.

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