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Veterinária negra narra episódio de racismo e como recebeu auxílio do Afrovet

Neste Dia da Consciência Negra, mostramos a luta da classe Veterinária contra o preconceito

Cláudia Guimarães, em casa

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Ataque, humilhação, intolerância racial. A médica-veterinária autônoma especializada em atendimento clínico de pets silvestres e exóticos, Talita Fausto da Motta Santos, foi vítima de racismo enquanto ministrava uma palestra on-line, em março deste ano, para um grupo de estudantes de Medicina Veterinária.

“Como eu estava no modo apresentação, não vi nada. Mas, em um determinado momento, comecei a ouvir uma intensa poluição sonora (falas, xingamentos e voz do atual presidente foram as únicas coisas que reconheci no momento do ocorrido). Os responsáveis pela transmissão fecharam a sala e, posteriormente, soube que, além dos sons citados, foram projetados imagens e sons de primatas. Alguns estudantes gravaram o ocorrido, então pude ter acesso depois”, relembra.

Esse relato mostra que o racismo ainda existe, sim, em pleno ano de 2021 e, por ser tão real, invade todos os ambientes, inclusive a Medicina Veterinária. “É importante ressaltar que pessoas pretas sofrem racismo a vida toda: racismo estrutural, racismo justificado como piada, racismo violento, etc. Seja como for, sempre é uma situação ruim, ainda mais exercendo a profissão. No entanto, diante da estrutura racista da nossa sociedade, a vida caleja. Nunca estaremos preparados, porém, temos a clara noção de que pode ocorrer em qualquer momento. Então, felizmente, não me diminui em absolutamente nada o fato de ter sofrido o ataque. Uma atitude como essa só diminui quem pratica”, compartilha Talita.

Lutando contra o preconceito

Em 2020, foi criado o coletivo Afrovet, iniciativa de extrema importância para todos os médicos-veterinários, graduandos, vestibulandos e, também, para as crianças pretas que sonham em ser veterinárias, servindo de inspiração, impulso e influência positiva. A cofundadora, diretora Geral, diretoria de Eventos e diretoria de Marketing do Afrovet, Merielen Silva Albuquerque, declara que, dentre as atividades desenvolvidas pelo grupo, destaca-se a divulgação dos perfis de médicos-veterinários e de graduandos, com ênfase nas suas experiências e formação profissional.

“Dessa forma, damos visibilidade para que todos sejam reconhecidos pela sociedade e possam ser contatados por clientes ou convidados para eventos e palestras de instituições que tenham interesse. O Afrovet também é um local onde são contadas histórias de vida de diversos veterinários negros, como ultrapassaram seus obstáculos e não desistiram, apesar de todo racismo institucional e estrutural existente cotidianamente em suas vidas, sendo inegável a presença do mesmo, no Brasil”, menciona.

Atualmente, o coletivo conta com 207 membros de todo o País, sendo que, grande parte possui mestrado, doutorado e diversas titulações em inúmeras áreas do conhecimento relacionado à Medicina Veterinária. “Também possuímos um espaço para discentes, o qual conta com 172 participantes”, insere Merielen.

Na iniciativa de auxiliar veterinários vítimas de racismo, como Talita, o cofundador, diretor Geral e diretor Científico do Afrovet, Augusto Renan Rocha Severo dos Santos, conta que, primeiramente é realizado o acolhimento e apoio emocional para o profissional ou graduando de Medicina Veterinária. “Ao mesmo tempo, salientamos a importância de que seja feito um boletim de ocorrência e que a vítima do racismo dê sequência à denúncia para que os fatos sejam apurados e os culpados sejam punidos, para que isso sirva de exemplo para outros casos. Disponibilizamos o contato de advogados e psicólogos negros, para que as vítimas do racismo possam entrar em contato com esses profissionais de forma particular”, revela.

Por se tratar de uma rede de graduandos e médicos-veterinários pretos, Augusto Renan conta que recebem denúncias diretamente de profissionais dessa área. “Porém, caso seja relatado para nós algum caso de racismo com um funcionário de um estabelecimento veterinário, com certeza, iremos procurar dar todo o suporte possível”, garante.

Debate sobre consciência negra

Por ser o dia da Consciência Negra e Dia de Zumbi dos Palmares, na visão de Augusto Renan, é uma data em que as pessoas pretas têm uma mobilização e uma visibilidade muito grande pelas causas negras por todo o Brasil e em todas as esferas da sociedade. “Logo, é muito importante discutirmos essa temática racial na Medicina Veterinária para expor e discutir como o racismo estrutural afeta, negativamente, os graduandos e profissionais da Medicina Veterinária. A partir disso, podemos propor ações de políticas afirmativas e de combate ao racismo, visando a equidade”, considera.

Os veterinários e pessoas no geral que enfrentem situações de racismo devem, como orientado por Augusto Renan, reunir o maior número de provas possíveis do ato racista, por meio de testemunhas, gravação de vídeos, áudios e etc., e fazer um boletim de ocorrência (B.O.) na Delegacia da Polícia Civil o mais rápido possível. “Também é preciso entrar em contato com um advogado para que ele possa representar a vítima e dar sequência ao processo jurídico, pois se somente for realizado o B.O., sem que haja uma representação, o processo de injúria racial ou racismo não terá sequência, logo, o criminoso não será julgado e nem punido”, alerta.

Voltando para nossa entrevistada Talita, apresentada no início desse texto, ela nos conta que, antes do ataque que sofreu durante a apresentação de palestra on-line, já havia sido submetida, algumas vezes, ao racismo, quando atendia em consultório. “Foram  inúmeras as vezes que, mesmo vestindo jaleco, com estetoscópio no pescoço e sendo a única  profissional no local, insistiam para eu ‘chamar o médico-veterinário’. Já houve questionamento dentro do consultório sobre ‘como eu consegui entrar na Veterinária’. E tantos outros casos que eu poderia contar aqui. Sempre foi com um tom muito direto, a pessoa deixando claro sobre o que estava falando”, denuncia.

E, com certeza, Talita não é a única vítima de racismo, já que há inúmeros relatos de profissionais e estudantes pretos sofrendo racismo dentro das universidades, hospitais e consultórios que chegam até o Afrovet. “O coletivo me ajudou dando visibilidade ao caso, algo que é de extrema importância. Devemos falar sobre isso! Inclusive, para que todos possam rever sua postura profissional e social em relação ao tema”, argumenta.

Talita salienta que é importante entender que, quando ficamos sabendo de um desses casos, não se trata de um caso isolado. “Atitudes racistas acontecem todos os dias e de todas as formas possíveis. Para piorar, a maioria dos ataques são invalidados como ‘vitimismo’, ‘má interpretação’ e ‘brincadeira’, comentários esses sempre proferidos por pessoas brancas, no intuito de justificar tais atitudes. Felizmente, a passos lentos, a realidade está mudando e crimes racistas estão sendo expostos com as pessoas pretas perdendo o medo de denunciar”, observa.

Augusto Renan cita outros casos de racismo que chegaram até o Afrovet: “Em 02 dezembro de 2020, no Rio de Janeiro, um cliente se recusou a ser atendido pelo médico-veterinário negro Dr. Raffael de Oliveira e usou palavras racistas para ofendê-lo. Em agosto de 2021, uma professora (que é uma veterinária branca) de um curso de atualização de Medicina Veterinária, no Rio de Janeiro, proferiu falas racistas durante uma de suas aulas, o que gerou indignação e revolta dos alunos presentes. Estes foram casos pontuais que foram denunciados a nós e que teve como resultado a confecção de nota de repúdio para cada caso e que foi amplamente divulgado nas nossas redes sociais, com o objetivo de combater o racismo e não deixar que esses casos ficassem impunes”.

A médica-veterinária Talita assegura que esses episódios de racismo não trouxeram nenhum impacto negativo para ela, enquanto ser humano e profissional: “Sigo fazendo o que amo, estudando muito e tentando contribuir positivamente o máximo que posso dentro da profissão e na minha vida”, declara.

Ações de combate do Afrovet

Merielen Albuquerque, a cofundadora do coletivo, comenta que uma das iniciativas do grupo é o programa Afromentor (@afromentor), o qual teve sua segunda edição recentemente. “O projeto luta para que a relação graduando/profissional seja mais próxima e promissora para ambas as partes, pois o graduando tem a oportunidade de ter o impulso necessário para focar em seus objetivos e se ver plenamente capaz de ser como seu Afromentor e, futuramente, poder inspirar outras pessoas”, explica.

Também há a Liga Afrocêntrica de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária (@lacav.afrovet), que possui como fundadores, além de Merielen, Lucas Alexandre e Núbia Kekere. “A liga, semanalmente, traz palestras, eventos e atualizações sobre essa área. Organizamos, também, o II Simpósio Brasileiro Afrocentrado de Medicina Veterinária (@simbamedvet) com grade de palestrantes 100% preta, que teve sua primeira edição em 2020, sendo um sucesso, pois a representatividade nos eventos é de suma importância”, compartilha.

Na opinião de Merielen, a existência de uma rede de médicos-veterinários e graduandos negros, como a Afrovet, é muito importante. “A partir do momento que estamos presentes nas mídias sociais, expondo nosso trabalho, deixamos de ser invisibilizados e, além de sermos reconhecidos pelo que desempenhamos, também passamos a ser agentes de combate a esse racismo estrutural e institucional”, comenta.

Com isso, ela acredita que as pessoas e profissionais pretos se tornam mais fortes e veem como é importante serem agentes contínuos de mudança, principalmente pelo fato de servirem de espelho para todas as crianças que os admiram. “Principalmente para as crianças negras, pois elas vivem em uma sociedade onde quase não se veem representadas, logo nos tornamos um ponto de referência. Isso é representatividade e é uma responsabilidade muito grande. Considerando que tudo o que fazemos no presente é importante para termos ainda mais avanços na luta contra o racismo no futuro”, discorre.

Para Talita Santos, grupos como o Afrovet são de suma importância para dar suporte e voz aos profissionais que, geralmente, estão sozinhos em seu ambiente de trabalho. “Lidamos com pessoas, cuidamos de vidas. É essencial que todos façam uma autocrítica e se perguntem de que forma estão agindo dentro do seu círculo social e no seu meio de trabalho para que o racismo acabe”, frisa.

E Merielen finda essa reportagem com uma frase que se tornou o lema do Afrovet e traduz qual é o objetivo da luta desses profissionais: “O nosso legado fará diferença para as próximas gerações”.

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