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Veterinária que cuida e pesquisa serpentes comenta suas principais realizações profissionais

No mês da mulher, Kalena Barros da Silva encoraja mulheres a lutarem por seus espaços na Veterinária

Cláudia Guimarães, da redação

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Ainda estamos no mês de março e, então, vale destacar o trabalho de mais uma mulher dentro da Medicina Veterinária, não é? Até porque a força e o empenho de nós, mulheres, deveria ser reconhecido devidamente em todos os meses do ano.

Nossa personagem de hoje é a médica-veterinária Kalena Barros da Silva. Se você tem medo de cobra, por outro lado, ela tira isso de letra, já que trabalha no Museu Biológico, do Instituto Butantan, cuidando da saúde dos animais, em sua maioria serpentes.

Antes de falar sobre sua atual atuação, a veterinária lembra quando decidiu se graduar em Medicina Veterinária e como foi o processo de formação. “Demorei algum tempo para ter certeza de que essa era a profissão que eu queria seguir. Já havia feito alguns semestres do curso de Biologia antes e minha principal certeza era que eu queria trabalhar com animais diferentes, aqueles que todo mundo tinha medo, como tubarões, orcas, serpentes, grandes felinos. A partir do momento que me decidi pela Veterinária, tudo foi bem fácil e intuitivo: graças ao suporte dos meus pais, pude realizar vários estágios em diferentes universidades, zoológicos e no próprio Instituto Butantan durante a graduação, o que só aumentou a certeza de que estava no caminho certo”, compartilha.

Kalena conta que, desde o início, sempre gostou de reprodução, clínica e patologia. “O mais importante para mim, até então, era poder trabalhar e gerar conhecimento a partir do que não era tão conhecido: aqueles animais ‘diferentes’”, adiciona. Mas esse deixou de ser seu único objetivo na carreira a partir do momento em que a área de pesquisa chamou atenção da, até então, estudante.

O trabalho de Kalena é cuidar da saúde de mais de 300 animais de dois setores em que atua no Instituto Butantan (Foto: divulgação)

Voltada à pesquisa

De acordo com ela, surgiu, em si, o desejo de buscar o novo, de conhecer o que ninguém conhecia, algo que trago desde a infância. “Quando entrei na faculdade, busquei por professores que orientavam projetos de pesquisa e fiz duas iniciações científicas ao longo da graduação: uma com endoparasitas de equinos e outra com bioquímica sanguínea de jiboias. À medida em que a conclusão do curso se aproximava, eu seguia encantada com a pesquisa, e quatro dias após a minha colação de grau, eu já estava matriculada no mestrado na Universidade de São Paulo (USP), realizando um grande sonho que era desenvolver pesquisas com serpentes”, expõe.

Seu projeto de pesquisa foi com aspectos da reprodução da jararaca-ilhôa, uma espécie endêmica da ilha da Queimada Grande (litoral sul de São Paulo), considerada criticamente ameaçada de extinção. “No entanto, a precariedade de recursos estruturais e financeiros, bem como a falta de perspectiva de emprego, deixam boa parte dos pós-graduandos brasileiros desmotivados para avançar com suas pesquisas, por mais importantes que sejam, e comigo não foi diferente. Mas, graças ao incentivo e suporte de uma rede de apoio formada por familiares e amigos, poucos meses após a conclusão do mestrado, ingressei no doutorado. Segui trabalhando com a mesma espécie de serpente, aprofundando a pesquisa sobre reprodução e, quando já estava na metade do doutorado, aconteceu o que, para mim, foi a realização de mais um sonho, talvez o maior de todos: fui convidada para trabalhar no Instituto Butantan”, comemora.

Como médica-veterinária do Museu Biológico do Instituto Butantan, os esforços de Kalena são voltados não somente para o objetivo geral do trabalho, como publicações científicas ou o tratamento de animais doentes, mas, também, para a comunicação com a sociedade. “Esse diálogo entre saúde animal, humana e população permite comunicar informações sobre a biologia e comportamento destes animais e como a fragmentação do habitat e desmatamento são capazes de aumentar encontros indesejados, causando um desequilíbrio do ecossistema e acidentes ofídicos, afetando negativamente a conservação da nossa biodiversidade”, explica.

Pedras no caminho

Como em muitos setores de nossas vidas, costumo dizer que pisamos em várias pedras até parar de sentir dor, principalmente nós, mulheres. Com Kalena não foi diferente. Ela nos conta que sofreu preconceito por ser uma profissional mulher dentro de suas funções diversas vezes. “Infelizmente, assim como na sociedade de maneira geral, o machismo e misoginia estão muito presentes em todas as áreas de atuação da Medicina Veterinária e podem ser observados pela remuneração desigual, em relatos de assédio moral e sexual, na distribuição de tarefas e na falta de reconhecimento e confiança no trabalho a ser desenvolvido”, observa.

Os principais episódios com Kalena aconteceram durante a pós-graduação, quando alguns professores e colegas proferiam e reproduziam publicamente frases e comportamentos machistas. “Isso colocava em dúvida a minha capacidade ou a de outras colegas de realizar determinada atividade, atribuindo estas limitações ao fato de sermos mulheres ou, ainda, por sermos mulheres, atribuíram a nós determinadas tarefas, por exemplo, arrumar malas, objetos, cozinhar, etc.”, menciona.

Um episódio que marcou bastante a profissional ocorreu em uma aula prática no doutorado, durante uma atividade de palpação retal de uma vaca para a aspiração folicular. “Infelizmente os animais que são utilizados para este fim são palpados por vários alunos em uma única aula, inúmeras vezes ao longo da vida, estando sujeitos a lesões e infecções. Neste caso em especial, a vaca já se encontrava visivelmente desconfortável e agressiva, pois era a única da aula e já havia sido palpada inúmeras vezes. Quando chegou a minha vez de realizar o procedimento eu desisti e disse à professora que não queria fazer. A professora compreendeu, sem maiores questionamentos, mas, enquanto eu aguardava o término da atividade, um colega veio me perguntar se estava tudo bem e disse que, provavelmente, meu mal-estar e desistência de realizar o procedimento estava relacionado à tensão pré-menstrual (TPM) e que mulheres costumam ter essa ‘dificuldade’ nesse tipo de aula. Então, pude perceber, além do machismo explícito, a incapacidade desse colega de pensar questões relacionadas ao bem-estar animal, o que é lamentável, pois muito provavelmente este profissional ainda realizará esse tipo de procedimento incontáveis vezes ao longo de sua carreira”, considera.

Questões raciais também precisam urgentemente ser olhadas dentro da Medicina Veterinária, como destaca Kalena. “Pessoas negras, especialmente mulheres negras, vêm sendo excluídas sistematicamente destes espaços. É preciso que busquemos mais do que debater sobre racismo, precisamos dar oportunidade para que mulheres negras ocupem este lugar, pois como diria a filósofa Djamila Ribeiro: ‘Se [apenas] pessoas brancas continuarem falando sobre negras, não vamos mudar a estrutura de opressão que já confere esses privilégios aos brancos. Nós, negras e negros, seguiremos apartados dos espaços de poder’”, cita.

O projeto de pesquisa de Kalena foi com aspectos da reprodução da jararaca-ilhôa, uma espécie considerada criticamente ameaçada de extinção
(Foto: reprodução)

Trabalhando até na pandemia

Durante esses anos pandêmicos que vivemos e que ainda enfrentamos, Kalena permaneceu trabalhando e cuidando da saúde de mais de 300 animais nos dois setores em que atua no Instituto Butantan. “Nada disso teria sido possível sem a colaboração de colegas, biólogas e biólogos, que estiveram ao meu lado nesse momento”, reconhece.

A profissional se sentiu muito honrada em ter a confiança de tantos colegas e gestores que acreditaram e acreditam em seu trabalho. “Durante a pandemia não foi diferente, com o apoio de colegas, pude realizar meu trabalho da melhor maneira possível, cuidando da saúde dos animais que estão sob nossa responsabilidade. Além disso, tenho muito orgulho de fazer parte dessa instituição que teve e tem um papel fundamental na pandemia, produzindo vacinas, levando informação e ciência para nossa população e combatendo as fakenews”, salienta.

Kalena aproveita a entrevista para encorajar mulheres e meninas a seguir esta profissão tão bonita e importante para o cuidado com nosso planeta, que é a Medicina Veterinária. “É inegável que, ao longo da história, fomos colocadas em locais restritos e menos prestigiados da sociedade e isso se repete até hoje, cotidianamente. Portanto, precisamos nos unir em busca do que nos foi negado, dos locais de liderança e destaque, demonstrando todo nosso preparo, capacidade e competência. A igualdade salarial, a preocupação com a segurança física e psicológica das mulheres e a ocupação feminina de cargos majoritariamente ocupados por homens devem ser pautas presentes e discutidas em todos os cenários possíveis. Quanto mais mulheres estiverem presentes nos espaços, mais próximas estaremos de um mundo melhor e mais justo”, encerra.

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