in

VETERINÁRIOS DEVEM ABORDAR A GUARDA RESPONSÁVEL COM CLIENTES

Campanha Dezembro Verde visa evitar maus-tratos e abandono de animais

Campanha Dezembro Verde visa evitar maus-tratos e abandono de animais

Cláudia Guimarães, da redação

[email protected]

A família cogita, sem qualquer planejamento, adotar um animal de estimação. A criança implora chorando, os pais cedem e escolhem a raça dos sonhos e, sem pensar nos cuidados que um pet exige a longo prazo, o trazem para a casa. Hoje, no Dia Internacional dos Direitos Animais, abordamos o tema abandono, amplamente debatido na campanha Dezembro Verde. A ação tem sido aderida em diferentes tipos de instituições e torna o mês um período de conscientização e educação sobre a guarda responsável.

A médica-veterinária que atua na clínica médica de pequenos animais, Fernanda Távora Untura Costa, revela que um dos maiores problemas que enfrenta no consultório é a falta de planejamento financeiro para realizar um tratamento ou imunização do animal.  “O tutor deve se informar sobre prevenção de doenças e, caso isso ocorra – e em algum momento da vida irá acontecer -, quais são os custos inerentes à situação como: consultas, exames, internações e procedimentos cirúrgicos”, enumera.

Seguindo as orientações de Fernanda, a família deve conversar antes de adotar um animal e se organizar para determinar onde o pet ficará se forem viajar, qual é o estilo e necessidades daquela espécie ou raça, qual o tamanho do animal em relação à casa, quem vai levar para passear e como será a rotina e educação dele. “Além disso, é preciso lembrar que, hoje, os pets possuem expectativa de vida, em média, de 15 anos. Sendo assim, durante todos esses anos, ele será de responsabilidade da família. Com este planejamento feito, a chegada e permanência do novo membro na família será muito mais tranquila e prazerosa”, assegura.

abandonarcao

Por ser senciente, o animal percebe que foi rejeitado e entra em sofrimento (Foto: reprodução)

Essa descrição nada mais é do que a tão dita guarda responsável, conforme explica a veterinária: “É quando o tutor possui um compromisso para toda a vida do animal e assegura o seu bem-estar físico e emocional. No meu ponto de vista, o abandono é cruel e covarde. Além disso, piora os problemas sociais que o nosso País enfrenta, como por exemplo, a disseminação de zoonoses (doenças que são transmitidas do animal para o homem)”, aponta.

Não são objetos… Por isso, as pessoas não devem se desfazer deles como se fossem. No entanto, segundo Fernanda, estudos apontam que as principais causas de abandono são: ninhadas inesperadas, mudança de casa, fatores econômicos, perda de interesse pelo animal, comportamento problemático do pet, alergia, nascimento de um filho, internação ou morte do tutor, férias ou medo de pegar toxoplasmose durante a gravidez. “Perceba como a falta de informação traz consequências tristes. Todas as causas de abandono poderiam ser evitas se o tutor se informasse corretamente. Além da informação abundante que existe hoje na internet, o apoio técnico de um veterinário pode ajudar no correto direcionamento para o tutor ou se houvesse um planejamento antes da adoção”, comenta.

Diante dessas situações, Fernanda acredita que o médico-veterinário, como um formador de opinião, deve criar um elo de confiança com o tutor para que o mesmo se sinta à vontade para contar suas dificuldades sem ser julgado. Em sua opinião, apenas com uma conversa aberta é que o clínico poderá orientar e ajudar a resolver cada questão. “Se a família for viajar, existem hotéis para pets ou o tutor pode pesquisar destinos que aceitem animais. Enfim, para todo problema existe solução”, ressalta.

Direito dos animais. Como apontado pela profissional, segundo as regras do bem-estar animal, o pet deve estar livre de fome e sede, livre de desconforto, com condições de abrigo e descanso, livre de dor e injúria, garantindo a prevenção e tratamento rápido e adequado, livre para expressar os comportamentos naturais da espécie e livre de medo e estresse. “Não é só o sofrimento físico que precisa ser evitado. O sofrimento mental pode causar traumas e o que chamamos de síndromes (conjunto de sinais e sintomas), como a Síndrome de Ansiedade por Separação (SAS), um distúrbio que se manifesta por diversas alterações comportamentais, como medo e fobia”, descreve.

gatoegravida

Entre as principais causas de abandono está o medode pegar toxoplasmose durante a gravidez por faltade informação (Foto: reprodução)

Fernanda também lembra que, além dessas regras básicas do bem-estar-animal, é importante que a população saiba que o abandono de animais é crime e o infrator pode sofrer penalidades previstas na Lei de Crimes Ambientais (lei federal 9.605/1998), como detenção de três meses a um ano, além de multa. A penalidade consta no artigo 32 da legislação e é aumentada, de um sexto a um terço, quando ocorre a morte do animal. “Muito já se sabe sobre os efeitos positivos da presença de animais de estimação para a nossa saúde. Além de serem ótimas companhias, ajudam a combater o estresse, reduzem as chances de uma criança desenvolver alergias deixando o sistema imunológico mais forte, os responsáveis pelos passeios são menos propensos à obesidade, melhora na autoestima, entre outros. Com tudo isso, nada mais justo que retribuir aos pets todos esses benefícios que vem com a sua convivência”, avalia.

Conscientização. Em sua visão, a campanha Dezembro Verde tem fundamental importância para trabalhar a conscientização dos tutores em relação às suas responsabilidades perante o animal. “Cães e gatos, como todos os outros animais, são seres sencientes, ou seja, têm medo, dor, prazer, alegria, estresse e o mais importante: a memória. Traumas sofridos não são esquecidos e o abandono causa um grande impacto na saúde emocional deles. O tema deve ser abordado nos consultórios para que o tutor tenha empatia com o animal e esteja ciente sobre a guarda responsável”, finaliza.

A presidente da Comissão Técnica de Bem-estar Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), Cristiane Schilbach Pizzutto, declara que o animal percebe que foi rejeitado e entra em sofrimento. “O abandono provoca um alto índice de estresse, com aumento da liberação de cortisol e alterações do comportamento”, afirma a médica-veterinária, referindo-se à possibilidade da manifestação de agressividade, prostração, apatia, pânico, entre outros desvios comportamentais. Os quadros são agravados pela exposição ao frio, fome e medo. “Podemos dizer que é semelhante ao sofrimento humano, especialmente pelo fato de o animal criar laços com as pessoas com que convivia, ligação que também já é apontada em pesquisas”, adiciona.

Para o médico-veterinário presidente da Comissão Técnica de Políticas Públicas (CTPP), do CRMV-SP, Carlos Augusto Donini, a oportunidade serve para esclarecer que são considerados animais abandonados não só aqueles que foram descartados nas ruas. “A grande maioria dos cães e gatos em vias públicas é semidomiciliada, ou seja, tem ‘tutor’ e ‘casa’, mas, claramente, seus proprietários negligenciam a guarda”, observa.

O CRMV-SP destaca que denúncias de maus-tratos e abandono requerem provas ou flagrante. Por isso, é indicado que haja registros em fotos e vídeos, além de recuperar imagens de circuitos de condomínios que possam ter filmado o ato. O material deve ser levado às autoridades policiais, que darão início às investigações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

EVENTO PET NA RUA CONTOU COM A PARTICIPAÇÃO DA HERCOSUL, EM RS

PROJETO ESCOLAR DE CURITIBA AUXILIA ANIMAIS EM SITUAÇÃO DE RUA