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Veterinários devem ter atenção ao distinguir lesão na boca de felinos entre benignas e malignas

Úlcera indolente é um problema que acomete os lábios de gatos domésticos e é muito confundida com neoplasias

Cláudia Guimarães, da redação

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O médico-veterinário que trabalha com gatos deve estar sempre atento e preparado para um bom atendimento: desde manejo adequado e cuidados para amenizar o estresse dos felinos até boas suspeitas e comprovações de diagnóstico para um tratamento adequado. Um problema que, segundo estudos, pode ser frequente na clínica de felinos é a úlcera indolente, tema central da nossa reportagem.

A médica-veterinária especialista em clínica e cirurgia de cães e gatos, mestre em Ciência Animal e em pesquisas em saúde, Evelynne Hildegard Marques de Melo, explica que essa é uma das manifestações dermatológicas que compõe uma síndrome denominada Complexo Granuloma Eosinofílico-CGE. “Este é um grupo de padrões de três reações que afetam a pele, a cavidade oral e as junções mucocutâneas dos gatos. As três lesões clínicas primárias do EGC incluem placa eosinofílica, granuloma eosinofílico e úlcera indolente (também chamada de úlcera eosinofílica ou roedor)”, elucida.

A úlcera indolente, segundo a veterinária, é uma lesão que ocorre nos lábios de alguns felinos domésticos, muito confundida com neoplasias, devido ao aspecto circular, avermelhado e profundo. “Em alguns gatos está associada a lesões no interior da boca também, enquanto outros apresentam a lesão limitada à região labial”, adiciona.

Evelynne revela que, na investigação das causas, estão: alergias de contato (pode ser por contato com insetos que foram caçados pelo felino), contato com recipientes do alimento do animal (alguns derivados plásticos), contato com e ingestão de algumas substâncias do alimento comercial (ração) e fatores genéticos do indivíduo. “Além disso, é muito forte o fator trauma na região dos lábios onde ocorre uma compressão com os dentes incisivos e caninos. Por esse motivo, essas úlceras estão, normalmente, no lábio superior”, discorre.

Se não tratadas, as lesões passam a ser crônicas (presentes por tempo prolongado no animal) e podem se agravar (Foto: reprodução)

Problema comum nos gatos?

Como mencionado anteriormente, há estudos demonstrando que é comum lesão em cavidade oral de felinos, mas Evelynne alerta: “Contudo, há de se diferenciar as lesões malignas das lesões benignas e a úlcera indolente é benigna”, destaca.

A veterinária dá o exemplo de um estudo recente no Brasil, que teve como objetivo determinar estatisticamente a prevalência de doenças bucais diagnosticadas no departamento de patologia, entre 2010 e 2020. “A pesquisa mostrou que o complexo granuloma eosinofílico (EGC) estava presente em n = 21/59 casos; e o sítio anatômico mais comumente afetado por lesões tanto benigna quanto maligna foi a gengiva (n = 41/143 casos) (GURGEN, 2021) e, por isso, é tão importante abordar esse tema pela necessidade de diferenciar as lesões benignas das malignas a fim de acelerar a decisão terapêutica”, defende.

Há, como explicado pela profissional, úlceras indolentes agudas e crônicas, de pequena e grande proporção (do tamanho da cabeça de um alfinete à extensão de 2-3cm). “As úlceras indolentes crônicas são ‘feias’, porém, normalmente, indolores. No entanto, quando há acometimento somado a lesões na língua e palato duro (céu da boca), os felinos tendem a apresentar salivação excessiva, recusa a se alimentar, posição corporal tensa (posição de esfinge egípcia), não se lambem (não se higienizam), magreza, desnutrição e suas consequências na perda da qualidade de vida”, enumera.

Por isso, a médica-veterinária chama atenção para que, durante a avaliação clínica de felinos domésticos, por qualquer motivo, a primeira investigação deve ser abrir a boca do animal para observar se há lesões no seu interior. 

Durante a avaliação clínica de felinos, por qualquer motivo, a primeira investigação deve ser abrir a boca do animal para observar se há lesões no seu interior (Foto: reprodução)

Descobrir e tratar

Evelynne explica que o diagnóstico das úlceras indolentes é clínico. “Há extensa documentação científica destacando que apenas os sinais físicos característicos são suficientes para o diagnóstico. A experiência do profissional colabora muito para os diagnósticos clínicos”, reitera.

Na sequência, é possível fazer confirmação com exames de citologia com um imprint cutâneo, onde o veterinário pressiona uma lâmina de vidro contra a lesão e, ali, ficam capturadas células do tecido que o vidro encostou e o material é levado ao laboratório para análise. “Outra forma é por Histopatológico, que é a remoção de pequeno fragmento da lesão (um corte com bisturi) para também ser analisado em laboratório”, sugere. Para Evelynne, esses exames para apoio diagnóstico são importantes para descartar suspeitas de neoplasias (lesões malignas), tal como, principalmente, o carcinoma espinocelular. 

As úlceras indolentes são, fortemente, acometidas por bactérias e pela ação dos eosinófilos (uma das células de defesa do corpo que causa hipersensibilidade), como ilustra a profissional, “Então, a terapêutica envolve, obrigatoriamente, associação de um antibiótico e um corticoide. Pelas características já bem descritas na literatura médico veterinária, as bactérias comuns da cavidade oral, como anaeróbios, ficam exacerbadas e um antibiótico indicado é amoxicilina com clavulanato de potássio. E, pelas características autoimunes da doença, um corticoide eficaz, segundo a literatura médica, é prednisolona”, indica e ainda salienta: “Mas é uma prioridade investigar a causa da doença para que o problema não retorne após ter sido curado com medicamentos”.

Se não tratadas, as lesões passam a ser crônicas (presentes por tempo prolongado no animal) e podem se agravar, uma vez que, de acordo com a veterinária, há forte acometimento bacteriano no local. “Com o agravamento do problema, os animais podem parar de se alimentar e, a partir daí, enfrenta-se muita complicação com os felinos devido a suas características fisiológicas frente à baixa ingestão proteica. Eles podem, facilmente, entrar em lipidose e esteatose hepática. Então, ao menor sinal, os tutores devem levar o animal para uma consulta com o veterinário”, recomenda.

Na edição nº 274 da C&G VF, é possível conferir um artigo de Evelynne com mais quatro colegas veterinários, que relatam o sucesso terapêutico em três felinos. Clique aqui para conferir.

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