“Rex!”, “Mimi!”, “Luna!” ou aquele apelido carinhoso que só existe dentro de casa. Basta chamar e, em alguns casos, o cão ou o gato imediatamente olha, se aproxima ou demonstra alguma reação.
Mas será que os pets realmente entendem que aquela palavra é o seu nome?
De acordo com a médica-veterinária comportamental Ana Luisa Lopes, cães e gatos conseguem reconhecer e associar determinados sons às próprias experiências, mas isso não significa que tenham a mesma compreensão que um ser humano possui sobre o conceito de nome.
“Eles não necessariamente vão entender que aquela palavra ou aquele som é o nome deles”, explica.
Na prática, o animal aprende que, quando determinado som é pronunciado, algo pode acontecer em seguida — principalmente quando a associação envolve experiências positivas.
O nome é aprendido por associação
Segundo Ana Luisa, cães e gatos aprendem por meio do condicionamento. Assim, a repetição de uma palavra associada a determinadas consequências faz com que o animal passe a reconhecer aquele som e antecipar o que pode acontecer depois.
Se, ao ouvir seu nome, o pet recebe carinho, brinca, ganha alimento, um brinquedo ou outra experiência que gosta, aquele som passa a adquirir significado dentro desse contexto.
“Eles começam a entender que, toda vez que a pessoa fala aquela palavra, coisas legais podem acontecer”, afirma a médica-veterinária.
O mesmo processo explica por que os animais também podem aprender diferentes apelidos. Um cão chamado oficialmente de “Ragnar”, por exemplo, pode responder a formas mais curtas ou carinhosas usadas repetidamente pelos responsáveis.
Isso acontece porque o animal não depende necessariamente de uma única palavra para estabelecer a associação. A aprendizagem também envolve a forma como o chamado é feito e tudo o que acontece ao redor dele.

Entonação, linguagem corporal e contexto também influenciam
Outro fator importante é a tonalidade da voz. Uma mesma palavra pode produzir respostas diferentes dependendo da maneira como é pronunciada.
Conforme diz Ana Luisa, quando o responsável utiliza uma voz mais aguda e associada a interações positivas, o animal pode apresentar maior tendência a se aproximar. Já um tom mais firme ou ríspido pode reduzir a probabilidade de resposta, especialmente se aquele padrão estiver relacionado a experiências negativas.
A linguagem corporal também entra nessa equação. O pet pode observar movimentos, postura e outros sinais emitidos pela pessoa durante o chamado.
Além disso, o contexto em que o nome é pronunciado faz diferença. Cães, por exemplo, podem aprender não apenas a partir da palavra, mas também das situações nas quais ela costuma aparecer.
“Não necessariamente a gente vai conseguir identificar se o animal está reconhecendo especificamente o nome, a voz, a entonação, o movimento que a pessoa está fazendo ou o próprio contexto. Pode ser um conjunto de todas essas informações”, pontua a profissional.
Por isso, uma resposta positiva ao chamado pode ser resultado da combinação de vários elementos, e não exclusivamente da palavra utilizada.
Por que o pet nem sempre vem quando é chamado?
Se o animal reconhece determinado chamado, por que algumas vezes parece simplesmente ignorá-lo?
A resposta está justamente na importância do contexto e nas experiências anteriores.
Um cão pode responder prontamente quando está em casa, em uma situação tranquila, mas não apresentar a mesma reação durante um passeio, quando há muitos estímulos competindo por sua atenção.
“Será que vale realmente a pena eu soltar o meu brinquedo que estou roendo aqui e ir até ela? Será que vai existir algo de tão legal assim quando ela me chama?”, exemplifica Ana Luisa.
Isso significa que não responder imediatamente não deve ser interpretado automaticamente como desobediência ou falta de treinamento. O animal pode estar envolvido em outra atividade, diante de estímulos mais relevantes naquele momento ou ter aprendido que o chamado nem sempre resulta em algo interessante.
As experiências negativas também têm um peso importante. Se o responsável costuma chamar o animal para dar broncas, retirar objetos, interromper atividades de que ele gosta ou submetê-lo a situações desagradáveis, o pet pode aprender que aquele chamado prevê uma consequência negativa.
Nesse cenário, a tendência de se aproximar pode diminuir.
Broncas podem prejudicar a resposta ao chamado
Um dos principais equívocos na interpretação do comportamento dos pets é acreditar que, quando um cão ou gato se esconde, abaixa o corpo ou coloca as orelhas para trás depois de uma bronca, ele necessariamente compreendeu que fez algo “errado”.
Ana Luisa explica que cães e gatos não possuem uma compreensão moral ou ética equivalente à humana. Eles podem, entretanto, associar determinados contextos e comportamentos às consequências que receberam anteriormente.
“Eles não entendem que o que fizeram naquele momento é errado, mas podem sim fazer todas as associações do contexto com algo negativo”, ressalta.
Um exemplo é o animal que urina fora do local adequado e se esconde quando o responsável chega. Embora seja comum interpretar esse comportamento como “culpa” ou como se o pet soubesse exatamente qual foi o erro, a explicação comportamental pode ser outra: ele pode ter associado a chegada do responsável e a presença da urina a uma experiência negativa anterior.
Por isso, utilizar o nome do animal para repreendê-lo repetidamente pode enfraquecer a associação positiva com aquela palavra. O chamado, que deveria funcionar como uma forma de comunicação e aproximação, pode passar a prever uma situação desagradável.

Como ensinar o pet a reconhecer o próprio nome?
Para cães e gatos recém-adotados, a associação pode ser construída gradualmente. A recomendação é repetir o nome em diferentes momentos e, quando o animal olhar ou se aproximar, oferecer uma consequência positiva.
A recompensa não precisa ser necessariamente um petisco. Pode ser carinho, brincadeira, interação social, alimento, a própria ração ou uma atividade de que o animal goste.
“É estar perto daquele animal, repetir em alguns momentos o nome dele e, se quando falar o nome ele olhar para você ou vier, ter ali de forma mais ativa algum tipo de recompensa”, orienta a médica-veterinária.
Com o avanço da aprendizagem, o responsável pode aumentar gradualmente a distância e variar os ambientes e situações. O nome pode ser utilizado quando o pet está em outro cômodo, durante uma atividade ou em um passeio. Quando ele responder, a associação positiva é reforçada.
O tempo de aprendizagem, porém, não é igual para todos os animais. Alguns cães e gatos podem estabelecer essa relação rapidamente, enquanto outros precisam de mais repetições e tempo.
Por isso, mais importante do que exigir uma resposta imediata é construir uma associação positiva e respeitar o ritmo individual do pet.

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