Infelizmente, muitos cães ainda vivem em situação de rua e não possuem acesso a uma vida digna, regada pelo amor e conforto que merecem.
As ONGs possuem um papel fundamental para ajudar esses animais e estão distribuídas por todo o mundo, realizando um trabalho exemplar.
Mesmo em meio a tristeza, sempre surgem histórias marcantes e com final feliz. Para conhecê-las conversamos com três instituições, que conseguem mudar a vida de muitos cães.
O Super Poder de Fiel
Segundo Raquel Facuri, uma das fundadoras e diretora de operações e comunicações do Instituto Ampara Animal, a organização surgiu em 2010 com o objetivo de transformar a realidade de cães e gatos em situação de vulnerabilidade no Brasil.
“O instituto se dedica à proteção animal através de ações, como resgate, cuidados, castração, conscientização e adoção, buscando reduzir o abandono e maus-tratos. A iniciativa do Ampara Animal nasceu da percepção de que o resgate direto não era suficiente para resolver o problema do abandono animal”, comenta.
Hoje o Ampara se tornou uma referência na proteção animal no Brasil e atua em diversas frentes. São elas:
- Resgate e cuidados: oferece abrigo, tratamento veterinário e alimentação para animais abandonados e resgatados;
- Castração: realiza campanhas de castração para controlar a população de animais abandonados e reduzir o número de nascimentos;
- Conscientização: desenvolve projetos de educação e conscientização sobre a importância da posse responsável, guarda, bem-estar animal e direitos dos animais;
- Adoção: promove eventos e campanhas de adoção para encontrar lares responsáveis para os animais que estão sob seus cuidados;
- Apoio a abrigos: atua como uma “ONG mãe”, amparando mais de 450 abrigos cadastrados em nível nacional com recursos como ração, medicamentos, vacinas e suporte veterinário;
- Engajamento corporativo: trabalha com grandes empresas em projetos de responsabilidade social e proteção animal.
Em 15 anos de atuação, Raquel relembra uma história comovente. “Recebemos uma denúncia de uma idosa, que após perder seu marido estava sozinha tentando cuidar de mais de vinte cães. O luto, somado às dificuldades financeiras e físicas, tornava a tarefa impossível. Embora a Ampara Animal não realize resgates, a gravidade e a urgência dessa situação nos tocaram profundamente. Então, mobilizamos nossa equipe para garantir que cada um daqueles animais tivesse uma nova chance”, conta.
De acordo com ela, em meio ao resgate tinha um cão especial, cuja história os marcou de forma única.
“Ele recebeu o nome de Fiel, pois mesmo sofrendo maus-tratos em casa nos primeiros dias chorava querendo voltar. Sua coragem e lealdade se tornaram o símbolo de todo esse resgate e inspiraram a criação de um curta-metragem de animação voltado ao público infantil. Nasceu assim “O Super Poder de Fiel”, um filme que celebra a importância da adoção de animais abandonados e busca despertar nas crianças valores como empatia, responsabilidade e amor pelos animais”, conclui.
O filme do Fiel pode ser acessado neste link.
O impressionante Diogo
Outra ONG que realiza um trabalho exemplar é a AATAN.
“A instituição foi fundada há mais de duas décadas pela Dirma, uma mulher apaixonada pelos animais e determinada a fazer a diferença diante do sofrimento que presenciava nas ruas. Com poucos recursos, mas muita coragem e empatia, ela começou a acolher cães abandonados em sua própria casa. O que era um gesto individual de compaixão, se transformou em uma organização reconhecida, que hoje abriga dezenas de animais e continua lutando diariamente por eles”, explica a vice-presidente da AATAN, Luciana Bandeira.
Ela afirma que, atualmente, a instituição abriga cerca de 105 cães e 60 gatos, totalizando aproximadamente 165 animais sob seus cuidados. Todos eles foram acolhidos, pois estavam em situação de abandono, maus-tratos ou negligência.

“Muitos têm idade avançada, deficiências físicas ou condições crônicas de saúde, o que torna o trabalho de acolhimento, tratamento e manutenção ainda mais desafiador”, relata.
Dentre eles, Diogo é um exemplo até hoje na AATAN. Segundo Luciana, sua história é impressionante.
“Diogo era agitado e brincalhão. No abrigo era daqueles que pulava quando alguém chegava, chamava atenção, queria colo, carinho, qualquer coisa que o tirasse da rotina pesada. A vida no abrigo nunca é tranquila, é barulhenta, cheia de desafios, e ele parecia enfrentar tudo com energia”, relembra.
Contudo, um dia isso mudou. A vice-presidente conta que, do nada, o cão perdeu os movimentos das patas traseiras. Um dia estava correndo e no outro sequer conseguia se levantar.
“Não houve trauma, não houve aviso, simplesmente parou de andar. Foram meses difíceis. O cão se arrastava, se sujava nas próprias fezes, tentava se levantar, mas não conseguia. Até que então, lentamente, algo começou a mudar. O Diogo foi se recuperando sozinho! Primeiro se apoiava um pouco, depois ficava mais tempo em pé e logo dava passos cambaleantes. A cada dia, mais firme e mais forte, até voltar a andar”, comenta.
Bandeira ainda complementa explicando que a recuperação foi acompanhada com emoção por todos no abrigo.
“Foi um daqueles momentos que renovam as forças, que nos lembra por que vale a pena continuar. Meses depois, para a alegria de todos, se recuperou, ganhou peso, voltou a ser o Diogo serelepe de sempre e, por fim, foi adotado. A pessoa que o conheceu se encantou de imediato. Se apaixonou pela história, pelo olhar e pelo jeito dele. Levou para casa não só um cão que voltou a andar, mas um companheiro cheio de vida, pronto para recomeçar de verdade”, finaliza.
O recomeço de Marrom
Com foco em animais com deficiência, o Instituto Cãodeirante surgiu em 2020. A organização foi fundada a partir do incômodo com a escassez de informações sobre animais com deficiência e com a invisibilidade destes animais nas divulgações e nos eventos de adoção.
“Desde então nos tornamos um movimento pioneiro no Brasil voltado à conscientização, visibilidade e incentivo à adoção de pets com deficiência, rompendo estigmas e propondo novas formas de se relacionar com a diferença. Nosso trabalho é transversal: atuamos em frentes de educação, comunicação e inovação. Organizamos eventos de adoção, produzimos conteúdo nas redes sociais com mais de 80 mil seguidores, oferecemos apoio a tutores e protetores e, recentemente, lançamos a primeira IA inclusiva do país, a Marrom, voltada ao universo pet, com atendimento via WhatsApp para tirar dúvidas sobre cuidados com cães com deficiência”, esclarece Sophia Porto Kalaf, presidente-fundadora do instituto.
Inclusive, quem inspirou a criação do Cãodeirante foi um cãozinho deficiente chamado Marrom.
“Marrom era um cão paraplégico resgatado em situação de vulnerabilidade extrema e levado para um abrigo em Cotia, onde viveu por mais de três anos. Eu já fazia trabalho voluntário nesse lugar há alguns anos e sempre me mobilizei para buscar lares para esses animais, que não costumavam fazer sucesso. Me intrigava o fato de ninguém nunca ter se interessado pelo Marrom, mesmo sabendo o motivo de ele não ser escolhido. Ele era um cachorro incrível, único. Eu me apaixonei e decidi adotá-lo”, lembra Sophia.
De acordo com a presidente, foi com o Marrom que aprendeu que a deficiência não é sinônimo de limitação, mas de singularidade.
“A convivência com ele foi tão transformadora, que se tornou o ponto de partida para o Cãodeirante. Foi em homenagem ao Marrom que nomeamos a inteligência artificial que criamos de Marrom, como uma forma de eternizar seu legado e fazer com que continue ajudando outros animais com deficiência”, conta.
A representante do instituto afirma que Marrom partiu em 2023, mas foi ferramenta de transformação para muitas histórias.

O Mano do Marrom
Atualmente, Sophia tem quatro vira-latas, sendo dois deles cães com deficiência. O mais recente a chegar foi o Manolo, adotado exatamente um ano após a partida do Marrom.
“Curiosamente, ou talvez por obra do destino, Manolo guarda muitas semelhanças com Marrom: a pelagem marrom, uma faixa branca no peito e a paraplegia. Seu nome nasceu da junção carinhosa de “mano do Marrom”, como um gesto de continuidade e afeto por tudo o que vivemos com o Marronzinho”, comenta.
Ainda de acordo com ela, apesar de personalidades muito diferentes – Manolo é mais intenso e desafiador —, os dois compartilham uma história marcada por vulnerabilidade e negligência.
“Manolo foi cruelmente jogado de uma ponte em Guarulhos e só foi encontrado por acaso, em um local remoto, por uma família que vivia em uma ocupação na região. Resgatado em estado crítico com fratura total na coluna, passou mais de 100 dias internado até poder, enfim, experimentar o que sempre mereceu: cuidado, dignidade e amor. Foi nesse momento que nossos caminhos se cruzaram. Ao saber da história me emocionei profundamente, era como se o Marrom me dissesse, de alguma forma, que aquele era o momento certo. Ao ver a semelhança entre eles, tanto física quanto no desafio da deficiência, não tive dúvidas: Manolo viria para casa. E veio, trazendo com ele um novo capítulo da nossa história de amor pelos que mais precisam ser vistos”, conclui emocionada.
A dura realidade dos cães nos abrigos
Os abrigos e ONGs seguem cada vez mais cheios de cães disponíveis para adoção. Desses, poucos têm a oportunidade de ganhar um lar amoroso e seguro e muitos passam toda a vida nas instituições.
A vice-presidente da AATAN esclarece que os cães mais procurados, geralmente, são os filhotes e os de porte pequeno, principalmente os que têm uma aparência mais “fofinha” ou pelagem clara.
“Isso acontece porque muitas pessoas priorizam fatores estéticos ou práticos, como o tamanho”, afirma.
Por outro lado, cães idosos, com deficiência física, de grande porte e os pretos estão entre os menos adotados.
“Infelizmente, ainda há muito preconceito com cães que fogem do “padrão idealizado” e muitos tutores em potencial ignoram o quanto esses animais podem ser companheiros incríveis, afetuosos e gratos”, comenta.
Sophia compartilha dessa opinião.
“As maiores dificuldades para conseguir a adoção de animais com deficiência estão diretamente ligadas ao imaginário social, que ainda associa deficiência a dor, dependência extrema e “pena”. Existe um filtro estético e capacitista, muitas vezes inconsciente e proveniente de um capacitismo estrutural, que faz com que esses animais nem cheguem a ser considerados por quem está em busca de um pet para adotar”, explica.
Independentemente das preferências, a verdade é que todos os cães merecem uma oportunidade de terem uma vida feliz. Adoção é um ato de amor.
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