Por mais que os cães sejam mais acometidos por afecções dermatológicas, os gatos também podem desenvolver doenças de pele, como o complexo granuloma eosinofílico felino, conhecido popularmente apenas como granuloma eosinofílico felino.
A doença, que consiste em um padrão de reação inflamatória da pele, é caracterizada por uma intensa infiltração de eosinófilos. Ela pode desencadear três apresentações clássicas: úlcera eosinofílica – ou úlcera indolente -, placa eosinofílica e granuloma eosinofílico linear.
“Embora tenham apresentações clínicas diferentes, todas essas manifestações refletem um mesmo processo inflamatório imunomediado, geralmente, associado a mecanismos de hipersensibilidade”, afirma Erick Elbert Marques, médico-veterinário pós‑graduado em Dermatologia Veterinária, mentor, professor e palestrante.
De acordo com o profissional, a ativação dos eosinófilos leva à liberação de mediadores inflamatórios e proteínas citotóxicas, que contribuem para o dano tecidual e para a manutenção da inflamação cutânea.
Mesmo podendo acometer felinos de qualquer idade, raça ou sexo, é mais comum que a condição seja vista em gatos jovens ou adultos. Erick comenta que algumas linhagens de gatos siameses e outras raças orientais parecem apresentar maior predisposição para determinadas manifestações do complexo.
Com relação ao sexo, não existe uma predisposição claramente estabelecida na literatura.
“Outro ponto importante é que o complexo granuloma eosinofílico felino não é contagioso. Portanto, não existe risco de transmissão entre animais ou para os seres humanos”, explica Marques.
Doença alérgica de base
Na grande maioria das vezes, o granuloma eosinofílico felino consiste em uma manifestação cutânea desencadeada por um processo alérgico subjacente.
“Entre os principais fatores desencadeantes destacam-se a dermatite alérgica à picada de pulgas (DAPP), a hipersensibilidade alimentar, a dermatite atópica felina e as reações a picadas de insetos”, pontua.
No entanto, em alguns pacientes a causa primária da doença não é claramente identificada, sendo esses animais classificados como idiopáticos.
Dessa forma, as manifestações clínicas da enfermidade variam de acordo com a forma do complexo.
- Úlcera eosinofílica: geralmente ocorre no lábio superior e se apresenta como uma lesão ulcerada bem delimitada e, normalmente, pouco dolorosa;
- Placa eosinofílica: costuma ser caracterizada como uma lesão eritematosa, elevada e intensamente pruriginosa, frequentemente localizada no abdômen ventral, região inguinal ou face medial das coxas;
- Granuloma eosinofílico: pode se apresentar como lesões lineares ou nodulares, muitas vezes, observadas em membros posteriores, lábios ou até na cavidade oral.
Além disso, diferente do que muitos pensam, nem sempre a região dos lábios é a única acometida.
“Embora a úlcera eosinofílica seja frequentemente observada no lábio superior, outras manifestações do complexo podem ocorrer em diferentes regiões do corpo. As placas eosinofílicas, por exemplo, são mais comuns em abdômen ventral e região inguinal, enquanto os granulomas eosinofílicos podem ocorrer em membros posteriores, lábios, queixo ou até na cavidade oral. Logo, a distribuição anatômica pode ser bastante variável”, esclarece o médico-veterinário.
Diagnóstico clínico
O diagnóstico da doença envolve a avaliação clínica combinada com o histórico do paciente e a realização de exames.
De acordo com o profissional, a citologia cutânea é um exame extremamente útil nesses quadros e, frequentemente, revela grande quantidade de eosinófilos.
Já em casos atípicos, ou quando é necessário descartar diagnósticos diferenciais, a biópsia cutânea com avaliação histopatológica pode ser indicada. O tratamento, por sua vez, visa o controle da inflamação cutânea.
“Entre as opções terapêuticas mais utilizadas estão corticosteroides sistêmicos e, quando há infecção secundária, antibióticos podem ser necessários. Porém, tratar apenas a lesão sem abordar a causa alérgica de base, normalmente, resulta em recidivas”, destaca.
Prevenção e cura
Quando se consegue identificar a causa de base e controlar o fator desencadeante, muitas vezes, é possível obter resolução completa das lesões do complexo eosinofílico felino.
Todavia, Marques pontua que em pacientes com doenças alérgicas crônicas, como a dermatite atópica felina, as recidivas podem ocorrer ao longo da vida e, nesses casos, o objetivo do tratamento passa a ser o controle clínico da doença.
Já a prevenção está diretamente relacionada ao manejo dos fatores desencadeantes.
“Isso inclui, principalmente, controle rigoroso de pulgas, investigação adequada de alergias alimentares e manejo ambiental em pacientes atópicos. Em gatos com histórico recorrente, o acompanhamento dermatológico periódico permite identificar recaídas precocemente e ajustar o tratamento conforme necessário”, conclui.
