Revista

    Medicina Veterinária intervencionista em pauta no COMDOR 2025

    Lucas Pimentel destaca a evolução da abordagem da dor e o papel transformador da Intervenção e Medicina Veterinária Regenerativa

    Medicina Veterinária intervencionista em pauta no COMDOR 2025
    Camila Santos
    Camila Santos
    1 de agosto de 2025
    Última atualização: 01/08/2025 - 17:52

    Camila Santos, de Campinas (SP)

    - PUBLICIDADE -

    O Congresso Medvep de Dor e Anestesiologia Veterinária (COMDOR 2025), realizado de 31 de julho a 2 de agosto no Expo Dom Pedro, em Campinas/SP, reuniu especialistas de diversas áreas para discutir um dos pilares mais complexos da medicina veterinária: a dor. No Painel 4 — Intervenção e Medicina Veterinária Regenerativa — o médico-veterinário Lucas Pimentel, com atuação destacada em anestesiologia, tratamento da dor e cuidados paliativos, apresentou a palestra “Medicina Veterinária intervencionista da dor: onde estamos e para onde estamos indo?”, propondo uma profunda reflexão técnica e ética sobre o futuro da prática clínica.

    Com mais de 140 anos desde a primeira intervenção analgésica em um animal, realizada por um médico com uso de epidural toracolombar e cocaína em 1885, Pimentel contextualizou a evolução histórica dos procedimentos intervencionistas. Desde os bloqueios por conhecimento anatômico, nos anos 1980 e 1990, passando pela introdução dos neurolocalizadores no final dos anos 1990 e o uso de ultrassom nos anos 2000, até os recentes avanços com inteligência artificial a partir de 2022, a trajetória da medicina veterinária tem sido de rápida aproximação com os recursos da medicina humana.

    Mas essa evolução técnica, segundo o palestrante, exige consciência crítica: “Não adianta postar vídeo no Instagram se o paciente não está ganhando com isso. Nosso compromisso é com ele — que está num quarto escuro, sem falar, e precisa da nossa intervenção para encontrar a luz no fim do túnel”.

    Com sala cheia, Lucas Pimentel promoveu uma reflexão técnica e ética sobre o futuro da prática clínica (Foto: FeedFood)

    A analogia do “labirinto escuro” foi central em sua fala, ressaltando a dificuldade de avaliar e tratar a dor em animais que não verbalizam. “Nosso diagnóstico é mais complexo. Precisamos ser peritos em anatomia, entender o tipo de dor predominante e, principalmente, saber quem é o nosso paciente”, reforçou. Para Pimentel, cada caso exige avaliação personalizada e conhecimento aprofundado da dor — se nociceptiva, neuropática ou mista — para escolher a melhor técnica ou bloqueio.

    Ao abordar os bloqueios loco-regionais, o palestrante destacou sua importância tanto para dor aguda quanto crônica, inclusive como estratégia de “reset” da dor — interrompendo as vias de transmissão e modulando a hiperexcitabilidade da medula espinhal. “É possível reorganizar circuitos neurais e devolver conforto ao paciente. Fisioterapia tem papel fundamental nesse processo, mas o bloqueio bem executado pode ser o ponto de virada no manejo da dor crônica”, afirma o especialista em sua palestra no COMDOR.

    Entre as técnicas discutidas, Pimentel deu ênfase à epidural sacrococcígea com corticoides e morfina, utilizada com sucesso em pacientes com estenose degenerativa lombossacra e síndrome da cauda equina. Embora o protocolo ideal preveja três aplicações, reconheceu as limitações da rotina clínica e destacou que mesmo uma única aplicação pode trazer grande alívio. “Os resultados são visíveis já na primeira intervenção. Mas para isso, é preciso ter preparo técnico, acesso a equipamentos e romper com o conservadorismo clínico”, pontua.

    O palestrante também abordou barreiras que ainda dificultam a implementação das técnicas intervencionistas na prática cotidiana, como formação técnica limitada, alto custo de equipamentos e resistência cultural. “A frase ‘sempre fiz assim e deu certo’ ainda ecoa nos corredores das clínicas, mas isso não é ciência. A medicina veterinária precisa ser baseada em evidências, e não em achismos”, critica.

    Lucas Pimentel deixou um chamado à responsabilidade e ao compromisso com o bem-estar animal. “O futuro da medicina intervencionista é promissor. Mas só vale a pena se ele for construído em benefício direto do paciente. Tudo começa com uma pergunta: ele está ganhando com isso?”, conclui.

    LEIA TAMBÉM:

    COMDOR 2025 reúne 520 participantes e traz profissionais de renome a Campinas (SP)

    Dor na coluna vertebral: Paulo Marinho aborda condutas clínicas e cirúrgicas

    Congresso de Dor e Anestesiologia Veterinária, o COMDOR, acontece nesta semana

    Compartilhe este conteúdo