Durante o CBA 2026, o médico-veterinário Julio Israel Fernandes, professor titular de Clínica de Animais de Companhia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), conduziu a palestra “Mais um quadro de Dermatite Atópica. Será?”, trazendo uma reflexão importante sobre os desafios do diagnóstico dermatológico na rotina clínica veterinária.
Ao longo da apresentação, o especialista chamou atenção para um problema recorrente nos atendimentos: cães tratados como portadores de dermatite atópica sem que outras enfermidades tenham sido devidamente descartadas. Segundo ele, doenças como esporotricose, demodicose, DAPP (Dermatite Alérgica à Picada de Pulgas), leishmaniose e infecções cutâneas frequentemente podem simular quadros de atopia.
“O diagnóstico de dermatite atópica é um diagnóstico de exclusão. Não existe um exame único que confirme a doença. Antes de fechar o diagnóstico, precisamos descartar outras enfermidades que também cursam com prurido”, explicou.
Diagnóstico diferencial na rotina clínica

Durante a palestra, Julio Fernandes apresentou diversos casos clínicos atendidos pela equipe da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), mostrando situações em que animais chegaram ao serviço já medicados para alergias, mas apresentavam outras doenças dermatológicas.
Entre os exemplos citados, estavam cães diagnosticados inicialmente com dermatite atópica, mas que posteriormente tiveram confirmação de esporotricose, demodicose e leishmaniose após exames complementares.
O professor reforçou que o excesso de tratamentos empíricos, especialmente com corticoides e antibióticos, pode mascarar sinais clínicos e atrasar o diagnóstico correto.
“Se o paciente não melhora, precisamos rever o diagnóstico. Muitas vezes o tratamento não falha; o problema é que estamos tratando a doença errada”, afirmou.
Importância dos exames
Outro ponto enfatizado durante a apresentação foi a necessidade de valorizar exames básicos da rotina dermatológica, como raspado cutâneo, citologia e cultura bacteriana.
Segundo o especialista, muitos casos poderiam ser resolvidos mais rapidamente se esses procedimentos fossem realizados antes da introdução de terapias imunossupressoras.
“O clínico precisa examinar o paciente. Não podemos transformar o atendimento em apenas encaminhamento. Dermatologia também é prática clínica”, destacou.
Julio Fernandes também alertou para a importância do controle parasitário contínuo, especialmente em cães atópicos, já que a DAPP pode agravar significativamente o quadro de prurido e inflamação cutânea.
Impactos da dermatite atópica
Além dos aspectos clínicos, a palestra abordou o impacto da dermatite atópica na rotina familiar. O palestrante lembrou que se trata de uma doença inflamatória, crônica e sem cura definitiva, exigindo acompanhamento constante e adesão prolongada ao tratamento.
Segundo ele, muitos responsáveis interrompem protocolos quando o animal apresenta melhora temporária, favorecendo recaídas e complicações secundárias.
“A dermatite atópica tem altos e baixos. Quando o responsável interrompe o controle, o paciente pode voltar pior”, comentou.
O professor também defendeu uma abordagem individualizada, considerando a realidade financeira e a capacidade de manejo de cada responsável.
Ao encerrar a palestra, Julio Fernandes reforçou que o aumento dos diagnósticos de alergia não deve fazer com que médicos-veterinários deixem de investigar outras possibilidades.
“Hoje tudo vira alergia. Precisamos lembrar sempre dos diagnósticos diferenciais”, concluiu.

