Caracterizada pela perda progressiva e irreversível da função dos rins, a Doença Renal Crônica (DRC) está cada vez mais comum na prática clínica, especialmente em felinos.
Ciente desse cenário, a campanha Março Amarelo foi criada como uma iniciativa de conscientização voltada para a prevenção, diagnóstico precoce e tratamento da DRC em pequenos animais.
Mas por que a enfermidade está atingindo altos índices? Para Michele Vieira de Azeredo, médica-veterinária com residência em Clínica de Pequenos Animais, mestre em Clínica e Reprodução Animal, pós-graduada em Nefrologia e Urologia Veterinária e coordenadora do curso de pós-graduação em Nefrologia e Urologia Veterinária na Anclivepa-RJ, existem alguns motivos para isso.
“Acredito que hoje temos mais ferramentas de diagnóstico precoce, assim como os responsáveis por pets e os veterinários estão mais informados e atentos. Além disso, os animais estão vivendo mais, o que aumenta a chance de terem doenças comuns dessa faixa etária, como a DRC”, opina.
Outro ponto importante é que existem diferentes causas para a Doença Renal Crônica, que vão desde enfermidades infecciosas até fatores genéticos.
Michele explica que em cães a doença pode surgir de forma secundária a processos infecciosos desencadeados por Leishmaniose, Erliquiose e Babesiose, por exemplo, e doenças sistêmicas, como cardiopatias e hipercortisolismo. Também pode ser uma sequela de Injúria Renal Aguda (IRA) ou de nefropatias juvenis.
“Já em felinos percebo uma crescente de casos de DRC como sequela das ureterolitíases, mas ainda posso citar a DRC juvenil, DRC pós IRA e a de causa desconhecida (idiopática)”, relata.
Por mais que a enfermidade não tenha predisposição de espécie, na prática, é mais comum em gatos do que em cães. Na literatura, entre as raças mais citadas está o Persa, especialmente devido a predisposição à Doença Renal Policística hereditária, que leva à DRC.
A profissional cita que em cães as raças consideradas mais comuns são Shih Tzu, Golden Retriever, Basenji e Sharpei.
“Com relação aos sinais clínicos, nos cães costuma-se notar primeiro poliúria e polidipsia, que pode surgir antes mesmo da azotemia. Por outro lado, em felinos o que chama atenção é a perda de peso lenta e progressiva acompanhada de apetite seletivo. Úlceras orais podem surgir em quadros avançados”, afirma.

Estadiamento
O diagnóstico da Doença Renal Crônica é realizado através de exames de imagem e laboratoriais.
Dentre eles, estão:
- Urinálise: pode apontar isostenúria e proteinúria;
- Bioquímica sérica: nela nota-se, principalmente, azotemia, hiperfosfatemia, hipocalemia (especialmente em gatos) e hipoalbuminemia (se houver síndrome nefrótica);
- Hemograma: pode apresentar anemia normocítica normocrômica;
- Hemogasometria venosa: em alguns casos mostra acidose metabólica;
- Ultrassonografia abdominal: é comum visualizar rins com contorno irregular, perda da definição corticomedular e da arquitetura renal, mineralização e aumento da ecogenicidade cortical.
A azotemia é definida pelo aumento de ureia e creatinina no organismo e ocorre quando 75% da função renal foi perdida. Por mais que ambos os níveis sejam usados para monitorar os rins, quem exerce um papel relevante no estadiamento da enfermidade é a creatinina.
“Existem quatro estágios da DRC determinados, principalmente, pelo valor da creatinina. Mas, também há o subestadiamento de acordo com a pressão arterial e a proteinúria”, explica a médica-veterinária especializada em Nefrologia e Urologia.
Segundo a International Renal Interest Society (IRIS), o estadiamento é realizado após o diagnóstico de Doença Renal Crônica (DRC) e indicado para facilitar o tratamento e o monitoramento adequado do paciente.
Ele se baseia, inicialmente, na creatinina sérica em jejum ou na concentração de Dimetilarginina Simétrica (SDMA) em jejum ou – preferencialmente – em ambas, avaliadas em, pelo menos, duas ocasiões com o animal hidratado e estável.
- Estágio 1: animais com creatinina sanguínea normal (<1.4 mg/dl para cães e <1.6 mg/dl para gatos) e SDMA normal ou levemente elevado (<18 µg/dl), que apresentam alguma anormalidade renal na palpação ou nos exames de imagem;
- Estágio 2: são incluídos nesse estágio pacientes com creatinina acima do limite superior – para cães entre 1.4 e 2.8 mg/dl e gatos 1.6 a 2.8 mg/dl – e SDMA levemente aumentado (de 18 a 35 µg/dl em cães e de 18 a 25 µg/dl em gatos). Os sinais clínicos, geralmente, são leves ou ausentes;
- Estágio 3: é dividido em inicial ou tardio. Nesse estágio há azotemia renal moderada. A creatinina varia de 2.9 a 5.0 mg/dl em ambas as espécies e a SDMA encontra-se entre 36 e 54 µg/dl em cães e 26 a 38 µg/dl em gatos;
- Estágio 4: apresenta risco elevado de sinais clínicos sistêmicos e crises urêmicas. Animais no estágio 4 possuem creatinina a partir de 5.0 mg/dl e a SDMA em cães está acima de 54 µg/dl e de 38 µg/dl em felinos.
Também é importante diferenciar a Injúria Renal Aguda da Doença Renal Crônica na prática clínica. Sobre isso, Azeredo esclarece que animais com DRC possuem evolução lenta, enquanto na IRA a evolução é rápida.
“No exame físico, pacientes com DRC avançada apresentam baixo escore corporal (ECC) e perda de massa muscular, na ultrassonografia detecta-se rins com contorno irregular e perda da definição corticomedular e da arquitetura renal. Na IRA temos pacientes com bom ECC e na ultrassonografia não são visualizadas alterações importantes nos rins, sendo possível notar, em alguns casos, apenas nefromegalia e aumento da ecogenicidade cortical”, pontua.
Além disso, não é possível estabelecer uma expectativa de vida média única para pacientes com DRC, pois ela depende diretamente do estadiamento da doença no momento do diagnóstico.
Entretanto, quanto mais precoce for a identificação da DRC, maior será a expectativa de vida. Isso é o que afirma Carolina Mendonça, médica-veterinária pós-graduada em Geriatria e Nefrologia e Urologia de Pequenos Animais e atual diretora de comunicações da Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária (SBGV).
“Mais do que o estágio da doença, fatores como a presença de comorbidades e, principalmente, a adesão do responsável ao plano de tratamento exercem grande influência sobre a evolução clínica e a expectativa de vida. Na prática clínica, observa- se que, ao longo do tempo, as pessoas tendem a relaxar nos cuidados e retornam ao veterinário apenas quando surgem sinais clínicos evidentes, o que costuma estar associado à progressão da doença e à redução da sobrevida do paciente”, cita.

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