A primavera é uma das estações mais desafiadoras para a saúde dermatológica de cães e gatos. O aumento das temperaturas, as alterações de umidade, o crescimento da vegetação, a maior circulação de pólens e condições favoráveis aos ectoparasitas elevam a pressão sobre pacientes com predisposição alérgica ou barreira cutânea comprometida.
Segundo a médica-veterinária Tatiane Evangelista, que atua na área de Dermatologia, Alergologia e Otologia veterinária, a estação não necessariamente provoca uma nova doença, mas pode revelar uma fragilidade já existente.
“O problema acontece quando começamos a somar fatores: maior exposição aos alérgenos, picada de pulga, alteração da barreira cutânea e proliferação de Malassezia ou bactérias, por exemplo. Em determinado momento, esse paciente ultrapassa seu limiar e entra em crise”, explica.
A recorrência dos sinais na mesma época do ano deve ser valorizada na anamnese e pode ajudar a antecipar crises.
Alérgenos e manifestações clínicas
Pólens de gramíneas, árvores e outras plantas, ácaros ambientais, fungos e seus esporos estão entre os agentes que podem ganhar relevância na primavera. As pulgas também merecem atenção.
A importância de cada alérgeno varia conforme região, clima, ambiente e sensibilização individual. Assim, prurido sazonal não deve ser automaticamente associado à alergia a pólen.
Entre as doenças que podem se manifestar ou piorar na estação estão a dermatite atópica, as dermatopatias alérgicas felinas e a dermatite alérgica à picada de pulgas. Em pacientes atópicos, a sazonalidade pode ser evidente, embora os sinais possam se prolongar ao longo do ano com a evolução da doença.
Nos cães, a dermatite atópica pode desencadear prurido em face, patas, espaços interdigitais, axilas e pavilhões auriculares, além de ter associação com otite externa.
Nos gatos, a apresentação pode incluir alopecia autoinduzida, dermatite miliar, complexo granuloma eosinofílico e prurido em cabeça e pescoço. Esses padrões não definem, isoladamente, a causa.
Já na alergia à picada de pulgas, a ausência de infestação visível não exclui o diagnóstico.
“Um paciente sensibilizado não precisa estar coberto de pulgas. Poucas picadas podem ser suficientes para desencadear uma crise importante”, ressalta Tatiane.

Pele e ouvido no mesmo processo
O aumento de temperatura e umidade pode modificar o microambiente cutâneo e otológico.
Em uma barreira comprometida, inflamação e alterações da microbiota podem favorecer a proliferação de Staphylococcus pseudintermedius e Malassezia spp., contribuindo para a manutenção do prurido e da inflamação.
A repercussão também chega aos ouvidos.
“A orelha é pele. Uma otite externa recorrente não deveria ser encarada simplesmente como ‘mais uma infecção de ouvido’”, afirma.
No paciente alérgico, a otite pode ser uma manifestação da doença dermatológica. Tratar apenas bactérias ou leveduras sem investigar por que o ouvido adoece repetidamente pode deixar a causa primária sem controle.

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