O portal Cães&Gatos acompanhou com exclusividade a transmissão do Workshop Online sobre Nutrição e Enteropatias Crônicas, promovido pela Sociedade Brasileira de Nutrição e Nutrologia de Cães e Gatos (SBNutriPet) em parceria com o Colégio Brasileiro de Nutrição Animal (CBNA).
O encontro reuniu médicos-veterinários das áreas de Clínica Geral, Gastroenterologia e Nutrologia para discutir os principais avanços científicos, novos consensos diagnósticos e estratégias de formulação de dietas para pequenos animais.
A programação abrangeu desde a atualização de conceitos e novas diretrizes diagnósticas até estratégias de modulação da microbiota intestinal e discussão de casos práticos com especialistas da área.
Mudança de nomenclatura e protocolo de triagem
A abertura do evento ficou a cargo da Profa. MSc. Ana Rita Pereira, que ministrou a palestra “Novo consenso sobre o diagnóstico e tratamento das Enteropatias Crônicas inflamatórias: o que precisamos saber?”.
A palestrante ressaltou que a primeira grande mudança do novo guideline está na nomenclatura: o termo “Doença Inflamatória Intestinal” (DII) passa a ser reservado exclusivamente à Medicina Humana. Para cães e gatos, adota-se Enteropatia Crônica (EC), caracterizada por sinais clínicos gastrointestinais persistentes por mais de três semanas.
“O novo guideline traz ainda uma contribuição importante ao reconhecer que a EC pode se manifestar de forma isolada através de hiporexia, apetite seletivo e perda de peso, sem a presença obrigatória de vômito ou diarreia”, afirmou Ana Rita.
A palestrante reforçou que o diagnóstico da EC é dado por exclusão e que nenhum exame isolado — nem mesmo a biópsia por endoscopia — confirma a doença por si só.
A avaliação inicial exige hemograma, bioquímica completa, dosagem obrigatória de albumina e ultrassom abdominal. Nos animais clinicamente estáveis, o ensaio dietético é a conduta de primeira escolha e deve anteceder exames invasivos.
A abordagem nutricional e o teste de dietas
Dando sequência ao cronograma, o Prof. Dr. Aulus Cavalieri Carciofi apresentou a palestra “Abordagens na formulação de dietas para diagnóstico e tratamento das Enteropatias Crônicas”.
O docente destacou que o intestino precisa ser alimentado diretamente pelos nutrientes do lúmen e que estados de jejum prolongado levam à rápida atrofia epitelial.
Ao abordar o teste de dietas, o profissional chamou a atenção para a necessidade de variar as estratégias de formulação.
“Quando testamos dietas, é um erro apenas trocar a marca da ração; o correto é mudar a abordagem alimentar”, pontuou o Prof. Aulus.
Ele elencou como opções a dieta hipoalergênica ou de proteína inédita, a dieta restrita em gordura (low-fat) e a dieta enriquecida com fibras.
O palestrante compartilhou ainda dados de pesquisas da Universidade Estadual Paulista (UNESP), demonstrando que de 50% a 80% dos cães com EC respondem exclusivamente à mudança dietética. Em um estudo com proteína extensamente hidrolisada, 81% dos animais obtiveram-se remissão clínica.
“No teste de desafio após a estabilização, 76% dos cães não voltaram a apresentar diarreia quando expostos à dieta antiga. Isso prova que o manejo nutricional adequado é capaz de restaurar a homeostase e reestabelecer os mecanismos de tolerância imune”, concluiu.

O papel dos bióticos e o tamanho do efeito
No terceiro bloco, a Profa. Dra. Ananda Felix debateu o tema “Quando e como os bióticos vão auxiliar nesses casos?”.
A professora iniciou alinhando os conceitos científicos atuais sobre prebióticos, probióticos, pós-bióticos (conforme consenso da ISAPP de 2021) e simbióticos.
Ananda ressaltou que, embora a suplementação com probióticos traga benefícios estatísticos no Índice de Disbiose, o efeito da qualidade e digestibilidade da dieta é muito superior.
“O fator de maior impacto negativo sobre a microbiota intestinal é a baixa digestibilidade da proteína da dieta, seguida pelo uso indiscriminado de antimicrobianos”, explicou.
A palestrante também destacou o uso de leveduras (como Saccharomyces cerevisiae e S. boulardii), devido ao seu maior tamanho e à resistência natural aos antibióticos bacterianos, além de apontar avanços no uso de probióticos de nova geração, como o transplante fecal oral em cápsulas liofilizadas e o emprego da bactéria Peptacetobacter hiranonis.
O evento foi encerrado com uma mesa redonda de discussão de casos clínicos de Enteropatias Crônicas conduzida pelas mestres Carolina Papalardo e Fernanda Yamamoto, que aplicaram na prática os conceitos debatidos ao longo do dia.

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