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Como a IA pode transformar a Medicina Veterinária? Pesquisa brasileira leva discussão essencial à ONU

Estudo propõe diretrizes para o uso ético e responsável da Inteligência Artificial na profissão e foi debatido durante reunião em Genebra, na Suiça

Como a IA pode transformar a Medicina Veterinária? Pesquisa brasileira leva discussão essencial à ONU
Por Stéfani Campos Chagas
8 de julho de 2026

A Inteligência Artificial (IA) tem conquistado cada vez mais espaço na Medicina Veterinária, especialmente em áreas como o diagnóstico por imagem. No entanto, a incorporação dessas ferramentas à rotina clínica exige discussões sobre ética, governança de dados e regulamentação.

Esse é o foco da pesquisa desenvolvida pela médica-veterinária especializada em Diagnóstico por Imagem, professora, pesquisadora e radiologista veterinária, Morgana de Lima Marcolino, que participou da Global Dialogue on AI Governance promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra (SUI), para debater esses temas em um contexto internacional.

O estudo, atualmente disponível em formato de pré-print e em processo de revisão por pares, propõe uma reflexão sobre os desafios que envolvem a adoção da IA na prática clínica veterinária.

“A Inteligência Artificial não muda os princípios da nossa profissão. Ela muda as ferramentas que temos disponíveis. O nosso compromisso continua sendo oferecer ao paciente a melhor decisão possível, baseada nas melhores evidências disponíveis”, afirma Morgana.

Tecnologia precisa caminhar ao lado da ciência

Segundo a pesquisadora, o interesse pelo tema surgiu ao acompanhar a chegada da Inteligência Artificial no diagnóstico por imagem veterinário.

Mais do que avaliar a capacidade dos algoritmos, ela passou a questionar como essas tecnologias podem ser incorporadas à prática clínica de forma segura e alinhada aos princípios da Medicina Veterinária baseada em evidências.

“Quando surge uma nova tecnologia, precisamos fazer as mesmas perguntas que fazemos diante de qualquer medicamento, exame ou protocolo: como ela foi desenvolvida, quais evidências existem, em quais pacientes foi validada e quais são suas limitações”, explica.

Para Morgana, ética e governança de dados não são conceitos distantes da rotina dos profissionais, mas ferramentas essenciais para garantir transparência, responsabilidade e confiança no uso dessas soluções.

IA na veterinária
Avanço da IA revoluciona o diagnóstico por imagem na veterinária e exige diretrizes claras de uso (Foto: Reprodução)

Pesquisa abre caminho para novas diretrizes

A proposta funciona como um “trabalho guarda-chuva”, reunindo temas que deverão ser aprofundados em pesquisas futuras. Entre eles estão a qualidade dos dados utilizados no treinamento dos algoritmos, os critérios para validação das ferramentas, a criação de diretrizes para uso da IA e a formação dos futuros médicos-veterinários.

Um dos pontos centrais da discussão é a governança de dados, que envolve todo o caminho percorrido pelas informações geradas durante o atendimento dos pacientes.

“Quando falamos em governança, estamos falando de garantir que os dados tenham qualidade, que sejam utilizados de forma responsável, que a privacidade dos responsáveis e dos profissionais seja preservada e que exista transparência sobre como essas informações estão sendo utilizadas”, destaca.

Na avaliação da pesquisadora, o maior risco não está no avanço da Inteligência Artificial, mas na adoção dessas ferramentas sem critérios técnicos bem definidos e sem uma compreensão clara de suas limitações.

Brasil quer participar da construção dessas regras

Embora países da Europa e os Estados Unidos já avancem em discussões sobre ética e regulamentação da IA, Morgana acredita que o Brasil vive um momento estratégico para fortalecer esse debate dentro da Medicina Veterinária.

“O Brasil já ocupa uma posição de destaque na pesquisa em Inteligência Artificial e produz ciência de excelente qualidade. O que eu vejo é que ainda existe uma oportunidade muito grande de aproximar esse conhecimento da Medicina Veterinária”, sustenta.

A participação na reunião da ONU, representou uma oportunidade de trocar experiências com especialistas de diferentes áreas e países, além de levar a perspectiva da Medicina Veterinária para discussões que envolvem governança da Inteligência Artificial e Saúde Única.

“Gostaria que o Brasil não fosse apenas um usuário dessas tecnologias. Gostaria que também ajudasse a construir os princípios que vão orientar a forma como elas serão incorporadas à prática clínica”, ressalta.

Morgana de Lima Marcolino
Morgana de Lima Marcolino, durante a reunião da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra (SUI) (Foto: Arquivo Pessoal)

Educação será fundamental para o futuro

Para a pesquisadora, a incorporação responsável da IA passa pela produção de mais conhecimento científico, pelo fortalecimento da colaboração entre universidades, profissionais e empresas e pela capacitação dos médicos-veterinários.

Ela destaca que os futuros profissionais precisarão não apenas utilizar essas ferramentas, mas também compreender como elas funcionam, quais são seus limites e de que forma foram desenvolvidas.

“Os estudantes que estão entrando hoje na graduação provavelmente trabalharão durante toda a carreira ao lado da Inteligência Artificial. Então precisamos ensiná-los não apenas a utilizar essas ferramentas, mas a analisá-las de forma crítica”, pontua.

Para Morgana, a Medicina Veterinária ainda tem a oportunidade de participar ativamente da construção desse cenário.

“Ainda temos a oportunidade de participar da construção dessa história. Daqui a alguns anos, a Inteligência Artificial provavelmente fará parte da rotina da Medicina Veterinária. A diferença será a forma como escolhemos incorporá-la”, conclui.