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Os pets têm noção de propriedade? Entenda por que eles protegem objetos

Comportamentos como rosnar, esconder brinquedos e vigiar a comida podem estar relacionados à guarda de recursos e exigem atenção dos responsáveis

Os pets têm noção de propriedade? Entenda por que eles protegem objetos
Por Stéfani Campos Chagas
12 de outubro de 2026

Quem convive com cães e gatos provavelmente já presenciou uma situação em que o animal protege um brinquedo, um petisco, a própria cama ou até mesmo um espaço da casa. Em alguns casos, a reação pode incluir rosnados, fuga com o objeto ou até tentativas de mordida.

Mas será que isso significa que o pet entende aquele recurso como uma propriedade, da mesma forma que os seres humanos?

De acordo com a médica-veterinária Camila Celly da Silva Pereira, especializada em Psiquiatria Veterinária e Terapia Comportamental, pós-graduanda em Neurociências do Comportamento e mestranda em Biodiversidade, Bem-Estar e Comportamento Animal, esses comportamentos devem ser interpretados de outra maneira.

“Não podemos dizer que cães e gatos tenham a mesma noção de propriedade que nós, humanos. Para eles, faz mais sentido falarmos sobre o valor que determinado recurso tem naquele momento e naquele contexto”, explica.

Esse recurso pode ser alimento, brinquedo, cama, local de descanso, objeto encontrado e até mesmo uma pessoa.

Guarda de recursos: quando o pet tenta proteger algo

O fenômeno é conhecido como guarda de recursos e está relacionado a comportamentos utilizados pelo animal para manter o acesso a algo que considera valioso ou impedir que outro indivíduo se aproxime.

Segundo Camila, diversos fatores podem contribuir para o desenvolvimento desse comportamento, incluindo características individuais, genética, experiências anteriores, aprendizado, competição por recursos e a própria maneira como as pessoas interagem com o animal.

Um exemplo é quando o cão pega um objeto e o responsável corre atrás dele para retirá-lo à força. A experiência pode fazer com que o animal aprenda que a aproximação daquela pessoa significa a possibilidade de perder algo importante.

Com o tempo, ele pode passar a fugir com o objeto, engoli-lo rapidamente, ficar tenso, rosnar ou até avançar.

A história de vida também pode influenciar. Animais que passaram por situações de privação de alimento, competição com outros pets ou retirada constante de recursos podem desenvolver uma relação diferente com aquilo que consideram importante.

“É importante tentarmos compreender qual emoção e qual necessidade estão por trás daquele comportamento, e não interpretá-lo somente a partir de uma perspectiva humana”, ressalta a médica-veterinária.

propriedade
Entender que o pet defende o valor momentâneo de um objeto ajuda responsáveis a respeitarem sinais de desconforto (Foto: Reprodução)

Nem todo comportamento de proteção é um problema

A guarda de recursos não deve ser identificada apenas pela presença de um animal que prefere ficar sozinho com determinado objeto. Existe um espectro de comportamentos, e o contexto precisa ser considerado.

Um cão que pega um brinquedo e vai para outro local brincar sozinho, por exemplo, não apresenta necessariamente um problema de comportamento.

A preocupação aumenta quando surgem sinais como tensão corporal, interrupção da atividade para vigiar a aproximação de alguém, comer rapidamente quando uma pessoa se aproxima, esconder ou fugir com objetos, rosnar, mostrar os dentes, avançar ou morder.

Também é importante observar a frequência e a intensidade da reação e o quanto ela interfere na rotina da família e no bem-estar do próprio animal.

Outro ponto destacado por Camila é que o valor de um recurso é individual. Um pet pode não se incomodar com a aproximação de uma pessoa enquanto come a ração, mas proteger um petisco específico ou um brinquedo.

“Cada indivíduo possui uma genética, temperamento, história de vida, experiências e aprendizados diferentes”, afirma.

Por que o pet rosna ao proteger um objeto?

O rosnado costuma ser interpretado pelos responsáveis como um comportamento agressivo que precisa ser eliminado. Entretanto, para a médica-veterinária, é importante compreender o que o animal está comunicando.

“O rosnado é comunicação. É o animal dizendo que está desconfortável e pedindo distância”, esclarece.

Antes de chegar a ela o pet pode apresentar sinais mais sutis, como enrijecer o corpo, ficar imóvel, abaixar a cabeça sobre o objeto, olhar fixamente para a pessoa, comer mais rápido, esconder o recurso ou sair carregando aquilo.

Quando esses sinais são ignorados e a pessoa continua se aproximando ou tentando retirar o objeto, o animal pode aumentar a intensidade da resposta, chegando ao rosnado, avanço ou mordida.

Por isso, a orientação é não punir o rosnado. A punição pode inibir uma forma de comunicação sem necessariamente modificar a emoção que está por trás do comportamento. Ou seja, o desconforto pode permanecer mesmo que o animal deixe de demonstrá-lo por meio do rosnado.

Como agir quando o pet protege comida ou brinquedos?

O primeiro passo é evitar o confronto. Retirar objetos à força, abrir a boca do animal, gritar, brigar ou puni-lo são atitudes que podem aumentar a insegurança e fazer com que o pet associe ainda mais a aproximação humana à perda daquele recurso.

Uma possibilidade é trabalhar trocas positivas. Quando for necessário que o animal solte um objeto, pode-se oferecer algo de valor igual ou maior, criando uma associação positiva com a aproximação e com a entrega do recurso.

Também é importante respeitar os momentos do animal. Se ele está comendo ou descansando, por exemplo, não há necessidade de testar constantemente se permite que alguém mexa em sua comida ou manipule seu espaço.

Em casas com crianças, o cuidado deve ser ainda maior. Elas não devem retirar comida ou brinquedos da boca do animal, mexer no pote enquanto come ou invadir o espaço em que o pet está descansando.

A convivência em uma família multiespécie também envolve reconhecer e respeitar a comunicação e os limites do animal.

guarda de recursos
Substituir a retirada de brinquedos por trocas positivas evita a guarda de recursos e garante uma convivência mais segura (Foto: Reprodução)

É possível prevenir a guarda de recursos?

Sim. A prevenção pode começar desde cedo, construindo uma relação em que a aproximação das pessoas não esteja associada automaticamente à perda de algo importante.

Ensinar trocas, reforçar voluntariamente o comportamento de soltar objetos e associar a presença das pessoas próximas aos recursos a experiências positivas são algumas possibilidades.

Em casas com mais de um animal, também é importante disponibilizar recursos suficientes. Isso inclui potes de alimento e água, locais de descanso e brinquedos. Para os gatos, também devem ser considerados caixas de areia e diferentes espaços para que possam se afastar quando desejarem.

Quando a guarda de recursos já está estabelecida, entretanto, o trabalho deve ser individualizado. Casos de rosnado frequente, avanço, tentativa de mordida, mordida, conflitos entre animais ou situações em que a família passa a ter medo de se aproximar do pet indicam a necessidade de buscar acompanhamento profissional.

“O tratamento não deve ser simplesmente fazer o animal ‘aceitar que tirem as coisas dele’. Precisamos modificar a emoção associada à aproximação e ensinar novas respostas, sempre respeitando os limites daquele indivíduo”, pontua Camila.

Além do comportamento, a avaliação pode investigar possíveis causas clínicas. Dor, alterações de saúde e outros transtornos comportamentais podem contribuir para irritabilidade, insegurança ou aumento da reatividade.

Por isso, compreender o que o pet está comunicando é fundamental para evitar confrontos e construir uma convivência mais segura. Mais do que perguntar se aquele brinquedo, cama ou alimento “pertence” ao animal, o importante é entender qual valor aquele recurso tem para ele e por que sua presença ou retirada provoca determinada reação.