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Pesquisadores colhem sêmen de onças do Pantanal para salvar populações isoladas

No futuro, um banco de sêmen e tecidos poderá servir para clonar indivíduos ou ‘ressuscitar’ espécies extintas

A equipe do Instituto Reprocon aciona as armadilhas de laço para a captura de onças-pintadas, distribuídas em um raio de 12 km no entorno da base dos pesquisadores em Passo do Lontra, distrito do município de Corumbá (MS). Por conta da alta temperatura, as armadilhas permanecem fechadas durante o dia, evitando que animais fiquem presos e morram de hipertermia. Os laços são espalhados a cada quilômetro, especialmente em locais em que a presença de onças é mais provável, como barrancos de rios. O objetivo da captura é coletar sêmen e outros materiais biológicos para compor o primeiro banco de germoplasma de onças-pintadas de vida livre do mundo. O motivo do trabalho: transferir genes entre populações de animais isolados por causa da destruição de seus habitats.

O maior felino das Américas costuma se deslocar por milhares de quilômetros para se alimentar ou reproduzir. A falta de conexão entre regiões preservadas – além de outros fatores, como alterações climáticas, caça e tráfico –, fez com que os animais sobreviventes passassem a acasalar somente entre indivíduos de uma mesma população, o que gera filhotes com menor variabilidade genética e, portanto, menos resistentes. Com o passar do tempo, a tendência é que essas populações isoladas sejam extintas.

“A gente acaba tendo esses problemas de endogamia e aí essa população tende a desaparecer com o tempo. A gente chama isso de vórtex de extinção’, explica a médica-veterinária pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), presidente da comissão técnica de bem-estar animal do Conselho de Veterinária do Estado de São Paulo e membro do Reprocon, Cristiane Schilbach Pizzutto.

O presidente fundador do Reprocon, Gediendson Ribeiro de Araújo, padronizou uma técnica de colheita de sêmen (Foto: reprodução/Gustavo Fonseca – NG)

Captura por um bom motivo. Desenvolvidas especialmente para esse tipo de pesquisa, as armadilhas impedem que o animal fique muito tempo preso, o que reduz estresse e desconforto, e são monitoradas continuamente por um rádio de ondas VHF desde a base científica da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) na região. Tudo isso é aprovado previamente pelo Instituto Chico Mendes de Conservação de Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente responsável pela proteção da biodiversidade brasileira.

Instalados os laços, a checagem na base é feita de hora em hora, inclusive durante a madrugada, por pelo menos um pesquisador que fica de plantão à espera de um bip. Quando o sinal dispara, o grupo corre para o barco – eles levam rifle, materiais veterinário e de coleta biológica.

Ao chegar ao destino, primeiro checam se o animal é uma onça, já que outros bichos, às vezes, se prendem na armadilha. Confirmada a captura, o trabalho é feito rapidamente para evitar que o bicho se estresse. Um dardo anestésico é disparado e, em cinco minutos, o animal vai ao chão. Por precaução, pesquisadores aguardam dez minutos antes de se aproximarem.

O próximo passo é preencher uma ficha com informações básicas, como peso, sexo, idade aproximada pela coloração e desgaste dos dentes, temperatura corporal, frequência cardíaca, localização de captura do animal, entre outras. Por meio de um acesso em uma das patas é injetado soro, caso seja necessário administrar algum medicamento. A próxima etapa é a coleta de sangue e do material genético. Para realizar o trabalho da forma mais segura e confortável para o animal, o médico-veterinário professor do programa de pós-graduação da UFMS e presidente fundador do Reprocon, Gediendson Ribeiro de Araújo, padronizou, em seu doutorado, uma técnica de colheita de sêmen. Trata-se de um protocolo anestésico que faz com que o animal durma e, ao mesmo tempo, libere o sêmen, chamada de colheita farmacológica.

“Passo uma sonda na uretra e coleto esse sêmen, que é concentrado, muito bom de trabalhar. Antigamente, a gente coletava com uma técnica mais utilizada mundialmente, a eletroejaculação, que age por estímulos elétricos”, lembra.

Quase todas as técnicas e aparelhos utilizados no procedimento foram desenvolvidos especificamente para coletar material genético em campo no Brasil, só assim seria possível pensar em um banco genético de animais de vida livre.

“Foi necessário desenvolver alguns equipamentos portáteis, com bateria e autonomia de pelo menos oito horas, para poder trabalhar com a mesma qualidade que trabalhamos no laboratório”, explica Araújo. O sêmen, por exemplo, é analisado com um microscópio portátil acoplado a um tablet, que verifica a concentração e movimentação dos espermatozoides.

A abordagem em campo dura cerca de 40 minutos. Ao final, é aplicada uma substância que corta o efeito da anestesia e o animal acorda. Após análises iniciais, o sêmen e algumas amostras de sangue vão para uma pequena geladeira enquanto os profissionais correm para a base de pesquisas para guardá-lo em botijões de nitrogênio líquido antes que o material comece a perder qualidade, o que costuma ocorrer depois de quatro horas. Por causa da baixíssima temperatura, cerca de -196ºC, o material não tem prazo de validade, e poderá ser usado por décadas. Uma base de dados computadorizada auxilia na identificação de tudo que está congelado.

Além do sêmen, o sangue colhido vai para o banco de germoplasma e servirá para o geneticista indicar o melhor cruzamento a fim de gerar filhotes mais fortes (Foto: reprodução/Gustavo Fonseca – NG)

“As fêmeas poderiam ter seus óvulos coletados, mas a técnica de aspiração por laparoscopia, apesar de pouco invasiva em relação a outros tipos de cirurgias de reprodução, ainda requer adaptação para ser realizada em campo. Mesmo assim, elas fornecem material significativo para o banco, como o sangue e, futuramente, tecidos para obter fibroblastos, o que permitirá a clonagem de indivíduos. Para isso, o grupo pretende desenvolver protocolos específicos para essa coleta”, informa o profissional que ainda adiciona que tanto o macho, quanto a fêmea são importantíssimos na conservação. “E quando falo conservação é em vida livre, mas, também, a conservação em cativeiro, que chamamos de ex situ. O ideal é capturar animais de vida livre, coletar esse material para termos no banco, mas também usar esse material para oxigenar a população em cativeiro”, salienta.

Populações isoladas. Para o ICMBio, iniciativas como o Reprocon, são positivas, sobretudo para populações extremamente ameaçadas como as da Caatinga e Mata Atlântica. “Isso é o banco: é ter amostra de animais. Amostras identificadas com os dados do animal, o local que foi coletado. Você pode, daqui 20 anos, descongelar esse material e usar para inseminar uma onça em vida livre ou em cativeiro. Já o sangue servirá para que o pesquisador de genética nos direcione para o melhor cruzamento a fim de revigorar os animais”, diz Ribeiro de Araújo.

O trabalho para abastecer o banco é constante. A cada nova coleta, mais material é estocado e disponibilizado para utilização, conforme a necessidade de zoológicos e outros centros de conservação e pesquisa. Quanto mais indivíduos de diferentes localizações, maior a variedade genética armazenada.

Fonte: National Geographic Brasil, adaptado pela equipe Cães&Gatos VET FOOD.

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