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Resistência parasitológica em cães abre a programação científica do VMX 2026

A resistência parasitológica é uma realidade e representa um desafio para responsáveis e médicos-veterinários

Resistência parasitológica em cães abre a programação científica do VMX 2026
Por Danielle Assis
17 de janeiro de 2026

De 17 a 21 de janeiro de 2026, a cidade de Orlando, nos Estados Unidos, recebe a VMX 2026, principal feira veterinária do mundo. O primeiro dia da programação científica de palestras teve início com um tema de elevada relevância na Medicina Veterinária atual: a resistência parasitológica.

O conteúdo foi apresentado por Jeba Chelladurai, médica-veterinária mestre em Microbiologia pela Universidade Estadual de Dakota do Norte, doutora em Patologia Veterinária com ênfase em Parasitologia pela Universidade Estadual de Iowa e certificada pelo Conselho Americano de Medicina Veterinária (ACVM) em Parasitologia Veterinária e Imunologia Veterinária.

Um dos pontos apresentados pela profissional durante a palestra foi a importância de um diagnóstico assertivo, que visa identificar corretamente qual é o parasita que se desenvolveu no organismo do animal.

“Apenas olhando as fezes do paciente não é possível fazer essa identificação”, destacou.

Dipylidum caninum

Um dos focos da apresentação de Jeba foi o Dipylidium caninum, classificado como a tênia mais frequente em cães e gatos domésticos. Para diagnosticar a infecção, a veterinária citou a possibilidade de esmagar a proglótide entre duas lâminas de vidro. Isso faz com que os ovos sejam liberados, sendo possível observá-los em microscópio.

Após chegar a um diagnóstico conclusivo, a única medicação disponível para tratamento atualmente é o praziquantel. Para garantir um tratamento assertivo, o ideal é que o responsável pelo animal anote exatamente o dia e a hora em que o fármaco foi administrado para a criação de uma linha do tempo.

Além do dia e horário de administração do praziquantel, é fundamental o acompanhamento quanto a pausa na eliminação de proglótides e, caso volte a acontecer, é importante anotar essa informação, visto que através dela pode-se determinar se há resistência parasitológica ou não.

Outro ponto relevante no manejo da dipilidiose é o controle de pulgas, que são consideradas vetores da infecção.

“As pulgas são hospedeiros intermediários da doença. Por isso, se não houver um produto antipulgas em uso, a reinfecção será constante”, comentou Chelladurai.

Inclusive, a reinfecção é bastante comum nesses casos. Existem dois motivos para isso. Um deles é a não visualização das pulgas por parte do responsável pelo animal. O outro está relacionado ao curto período pré-patente, capaz de fazer com que ectoparasitas não diagnósticados sejam ingeridos, levando a uma nova infecção.

cachorro beagle com pulga
As pulgas são hospedeiros intermediários da dipilidiose em cães (Foto: Reprodução)

Resistência verdadeira 

Para definir a presença de resistência parasitológica existe um passo a passo. “Uma vez que sabemos que o praziquantel foi administrado corretamente, que houve reteste e que o animal está em uso de um preventivo contra pulgas, podemos descartar reinfecção e, então, estabelecer resistência verdadeira”, informou a especialista.

No entanto, nos casos de falha terapêutica, a recomendação é:

  • Administrar praziquantel na clínica veterinária e na dose correta de 5 a 7,5 mg/kg. Assim, é possível garantir a adesão ao tratamento e a administração do medicamento na dose adequada para o peso do cão;
  • Se isso não funcionar, pode-se usar uma dose maior de praziquantel (25 mg/kg), preferencialmente pela via oral. Nessa dose o uso ainda é considerado seguro;
  • Caso ainda não funcione, é indicado o praziquantel combinado com oxantel e pirantel, uma vez ao mês por até três meses. No entanto, esse uso não é visto em bulas e deve ser manipulado, sendo importante que os responsáveis pelo animal estejam cientes disso.

Se mesmo assim o protocolo não for eficaz, Jeba citou uma outra possibilidade medicamentosa que ainda não está disponível em muitos países e também é off-label: o nitroscanato.

“O nitazoxanida é um produto de uso humano e, se o responsável puder arcar com o custo, pode ser utilizado”, explicou.

Já se nada disso funcionar, infelizmente, é necessário optar por uma conduta de observação, que nem sempre é bem vista pelos tutores.

Conforme a médica-veterinária, o Dipylidium caninum pode sobreviver por até um ano. Durante esse período, o responsável continuará vendo proglótides nas fezes.

“O principal problema é o desconforto emocional dos tutores, o nojo e o medo de infecção. Isso faz com que eles busquem outros profissionais, o que não é bom. O lado negativo da resistência ao praziquantel é que os tutores não entendem bem que esses são casos difíceis e, às vezes, acabam até se desfazendo do animal”, relatou.

Contudo, vale destacar que o Dipylidium caninum não é um verme altamente patogênico e a doença em humanos ocorre apenas pela ingestão de pulgas. Portanto, a proglótide em si não infecta pessoas diretamente.

Futuro da resistência parasitológica 

Ainda é preciso muita pesquisa sobre a resistência parasitológica, especialmente no que diz respeito a dipilidiose. Chelladurai pontuou sobre a necessidade de mais estudos a respeito desse tema e que ainda não há uma ferramenta de PCR para identificar o Dipylidium resistente, porém já existem projetos em desenvolvimento.

“Atualmente, estamos observando um aumento desses casos. Hoje, faço cerca de uma consulta por semana sobre resistência ao Dipylidium. Não sabemos se o uso mensal de praziquantel aumenta a resistência, mas acreditamos que sim. Existem, no momento produtos que oferecem praziquantel mensalmente e isso precisa ser avaliado com muito cuidado, especialmente dependendo da região”, ressaltou.

Para resumir, a profissional comentou que, às vezes, ocorre a resistência a apenas um anti-helmíntico; em outras a resistência é múltipla e esses casos são mais difíceis de manejar.

Deste modo, independentemente da situação, é necessário realizar um diagnóstico assertivo através de teste de redução da contagem fecal (FECRT), lâmina de McMaster e um microscópio.

“É fundamental que o tutor entenda que esses são casos difíceis e que o tratamento levará de três a quatro meses — não é uma dose única e pronto”, finalizou.

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