Opções
Cursos e Eventos

Anorexia em pequenos roedores é tema da programação científica do VMX 2026

Alteração alimentar em ratos, camundongos, hamsters e gerbos é considerada uma condição grave e de rápida evolução clínica

Anorexia em pequenos roedores é tema da programação científica do VMX 2026
Por Melissa Marques
18 de janeiro de 2026

No segundo dia de palestras da VMX 2026, os roedores também foram destaque. Cheryl Greenacre, médica-veterinária especialista em animais exóticos, abordou os desafios clínicos associados à anorexia em pequenos roedores domésticos.

Durante a apresentação, a palestrante ressaltou que a redução ou ausência de ingestão alimentar nessas espécies não deve ser subestimada, uma vez que pode levar rapidamente à desidratação, perda de peso acentuada, dor e, em casos mais graves, ao óbito.

Particularidades anatômicas e fisiológicas dos roedores

Os pequenos roedores pertencem à ordem Rodentia e apresentam características anatômicas que impactam diretamente sua alimentação e saúde geral. 

Os incisivos possuem crescimento contínuo ao longo da vida, enquanto os molares não se renovam, o que torna a avaliação odontológica essencial nos casos de anorexia.

Além disso, são animais monogástricos e onívoros, com um estômago dividido em porção aglandular e glandular, separadas pelo margo plicatus. 

Segundo Greenacre, essas particularidades devem ser consideradas durante a avaliação clínica e o manejo nutricional.

A curta expectativa de vida dessas espécies também exige atenção redobrada. 

Camundongos vivem, em média, até um ano e meio; ratos, até dois anos e meio; hamsters entre um ano e meio e dois anos; e gerbos podem alcançar até quatro anos.

A importância do monitoramento do peso corporal

Um dos pontos enfatizados pela especialista foi o monitoramento frequente do peso corporal. 

“Em pequenos roedores, variações mínimas de peso podem representar perdas significativas de condição corporal”, explicou.

Mais do que o valor absoluto, a tendência de queda progressiva deve ser encarada como um sinal de alerta precoce, mesmo antes do aparecimento de outros sinais clínicos evidentes.

Condições clínicas associadas à anorexia

Diversas enfermidades podem levar à anorexia nesses pacientes. Em ratos, a pneumonia é uma das causas mais frequentes, frequentemente associada à dor e dificuldade respiratória. 

Tumores mamários, especialmente fibroadenomas, também podem comprometer a alimentação e a mobilidade.

Em hamsters, a ileíte proliferativa é uma condição grave, marcada por diarreia intensa e rápida deterioração clínica. 

Já os hamsters-anões apresentam maior predisposição ao diabetes mellitus, exigindo ajustes nutricionais específicos.

Nos gerbos, inflamações nasais associadas à produção excessiva de porfirina podem causar desconforto e redução do apetite. 

Em todas as espécies, a doença dentária, especialmente a maloclusão, é uma das causas mais comuns de anorexia e dor crônica.

Anorexia em pequenos roedores é tema da programação científica do VMX 2026
Doenças respiratórias, dentárias e gastrointestinais estão entre as principais causas de anorexia em ratos, hamsters e gerbos (Foto: Reprodução)

Dor como fator central no quadro clínico

A dor foi destacada como um fator determinante para a anorexia em pequenos roedores. 

Greenacre recomendou o uso das escalas de grimace facial para ratos e camundongos como ferramenta complementar na avaliação da dor, auxiliando na tomada de decisão terapêutica.

“O controle da dor é essencial. Um animal com dor dificilmente retomará a ingestão alimentar espontânea”, afirmou.

Hidratação e suporte nutricional

No manejo clínico, a fluidoterapia subcutânea é a via de escolha, com volumes de manutenção em torno de 50 mL/kg/dia, ajustados conforme o grau de desidratação. 

A especialista reforçou que a reidratação deve sempre preceder a alimentação assistida.

O suporte nutricional deve priorizar, inicialmente, a ingestão voluntária, com oferta de alimentos familiares, frutas, vegetais e papinhas. 

Quando necessário, a alimentação assistida com seringa deve ser realizada de forma lenta, minimizando o estresse.

Dietas comerciais específicas para roedores onívoros e produtos desenvolvidos para animais de laboratório, como géis hidratantes e alimentos medicados, também foram citados como ferramentas úteis para melhorar a adesão ao tratamento.

Uso criterioso de medicamentos

Quanto ao tratamento farmacológico, Greenacre ressaltou a importância de utilizar referências confiáveis. 

Analgésicos como meloxicam, buprenorfina, tramadol e gabapentina são amplamente empregados, com atenção especial à função renal, sobretudo em ratos machos idosos.

Em relação aos estimulantes de apetite, a palestrante destacou que ainda há escassez de evidências científicas para o uso rotineiro dessas substâncias em pequenos roedores, sendo necessária cautela na prescrição.

Anorexia em pequenos roedores é tema da programação científica do VMX 2026
A fluidoterapia subcutânea e o suporte nutricional são pilares no manejo clínico de pequenos roedores com anorexia (Foto: Reprodução)

Abordagem integrada e precoce

Ao concluir a palestra, Cheryl Greenacre reforçou que a anorexia em pequenos roedores é uma condição multifatorial e que o sucesso do tratamento depende de uma abordagem integrada.

“Controle da dor, hidratação adequada, suporte nutricional precoce e redução do estresse ambiental são fundamentais para a recuperação desses pacientes”, finalizou.

LEIA TAMBÉM: 

Questões éticas emergentes na eutanásia de animais de companhia são debatidas na VMX 2026

Estratégias de manejo nutricional para gatos com DRC são discutidas durante a VMX 2026

Emergências dermatológicas são tema de palestra na VMX 2026