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Questões éticas emergentes na eutanásia de animais de companhia são debatidas na VMX 2026

Palestra aborda tomada de decisão ética, evolução do vínculo humano-animal e novos desafios na prática da eutanásia veterinária

Questões éticas emergentes na eutanásia de animais de companhia são debatidas na VMX 2026
Por Melissa Marques
18 de janeiro de 2026

O segundo dia de programações da VMX 2026 trouxe à tona um dos temas mais sensíveis e inevitáveis da Medicina Veterinária contemporânea: as questões éticas emergentes na eutanásia de animais de companhia. 

A palestra foi apresentada por Kathleen Cooney, médica-veterinária com quase duas décadas de atuação dedicada exclusivamente ao cuidado de fim de vida, eutanásia, cuidados paliativos e Medicina Veterinária Paliativa.

Ao longo da apresentação, a especialista propôs uma reflexão aprofundada sobre como a prática da eutanásia vem evoluindo — e como os profissionais precisam evoluir junto com ela.

Ética como parte indissociável da eutanásia

Conflitos éticos fazem parte da rotina veterinária e não devem ser encarados como falhas profissionais, mas como elementos inerentes ao cuidado com a vida e a morte.

“Se aprendi algo ao longo de mais de 20 anos de carreira é que conflitos éticos fazem parte da Medicina Veterinária. O que realmente importa é como nós os conduzimos para garantir sustentabilidade e realização profissional”, afirmou.

De acordo com a palestrante, o conflito ético surge quando o médico-veterinário é solicitado a realizar — ou deixar de realizar — algo que contraria seus valores, princípios ou julgamento clínico, seja uma eutanásia considerada precoce, seja a manutenção de tratamentos que prolongam o sofrimento do paciente.

Os 14 componentes essenciais de uma boa eutanásia

Um dos pilares da palestra foi a apresentação dos 14 componentes essenciais da eutanásia, desenvolvidos por Cooney em 2017, no momento da fundação da Companion Animal Euthanasia Training Academy (CAETA). 

O material funciona como um guia para equipes veterinárias, contemplando as fases pré, trans e pós-eutanásia.

Entre os pontos destacados estão:

  • preparo adequado da equipe e do ambiente
  • criação de um espaço seguro, acolhedor e compassivo
  • uso de sedação ou anestesia prévia para evitar dor e ansiedade
  • técnica correta
  • acompanhamento e suporte aos tutores após o procedimento

Sempre que algum desses elementos não é cumprido, existe uma obrigação ética de revisar protocolos e procedimentos operacionais, reduzindo a ocorrência de experiências negativas.

Questões éticas emergentes na eutanásia de animais de companhia são debatidas na VMX 2026
Os 14 componentes essenciais da eutanásia funcionam como um guia para garantir procedimentos mais humanizados e tecnicamente adequados (Foto: Reprodução)

Tomada de decisão

A decisão pela eutanásia envolve diversas partes envolvidas, incluindo:

  • o paciente
  • o tutor e seus familiares
  • cuidadores do animal 
  • o médico-veterinário e a equipe que realizarão o procedimento
  • a sociedade e a própria profissão veterinária

Nesse contexto, é fundamental avaliar não apenas o estado clínico do animal, mas também as capacidades físicas, emocionais e financeiras do tutor, suas crenças, experiências prévias e expectativas. 

O objetivo é alcançar uma solução que atenda às necessidades do tutor, seja a melhor possível para o paciente e preserve a integridade ética do profissional.

Beneficência, não maleficência e autonomia do paciente

A palestrante reforçou que os princípios da beneficência e da não maleficência devem nortear todas as decisões, lembrando que a eutanásia é irreversível.

Outro ponto de destaque foi o respeito à autonomia e à vontade de viver do animal. Embora escalas de qualidade de vida sejam ferramentas importantes, Cooney alertou que elas não devem ser utilizadas de forma isolada ou como limites absolutos.

“Um animal pode ter limitações físicas importantes, mas ainda demonstrar interesse, interação e desejo de viver. Isso também precisa ser considerado”, explicou.

Eutanásia domiciliar: avanços e dilemas éticos

A crescente popularização da eutanásia domiciliar foi amplamente discutida. 

Embora Cooney veja a prática como extremamente positiva — por proporcionar conforto ao paciente e à família —, ela alertou para desafios éticos, operacionais e de segurança.

Entre eles estão:

  • custos mais elevados
  • expectativas pré-estabelecidas dos tutores
  • ausência de vínculo prévio com o médico-veterinário
  • riscos associados ao ambiente domiciliar e ao transporte de substâncias controladas
Questões éticas emergentes na eutanásia de animais de companhia são debatidas na VMX 2026
Palestra aborda tomada de decisão ética, evolução do vínculo humano-animal e novos desafios na prática da eutanásia veterinária (Foto: Reprodução)

Utilização da equipe e o papel dos técnicos veterinários

Outro tema de destaque foi a ampliação do papel de técnicos e auxiliares veterinários nos procedimentos de eutanásia. 

Cooney apresentou dados sobre legislações estaduais norte-americanas e defendeu maior utilização da equipe, desde que haja treinamento adequado e protocolos bem definidos.

Segundo a palestrante, cerca de 10 horas de treinamento específico já são consideradas um mínimo razoável para garantir proficiência técnica e segurança emocional, tanto para médicos-veterinários quanto para técnicos.

“Sabemos que a demanda por eutanásia não vai diminuir. Utilizar melhor a equipe pode ajudar a atender pacientes e tutores com mais qualidade”, afirmou.

Cuidados paliativos, morte natural e alternativas à eutanásia imediata

A palestra também abordou a importância dos cuidados paliativos e da preparação do médico-veterinário para lidar com a morte natural quando possível, sem que isso represente negligência ou sofrimento.

Kathleen utilizou a metáfora de dois caminhos até o mesmo destino — a morte:

  • a eutanásia, como um trajeto mais curto e previsível
  • a morte natural, como um caminho mais longo e incerto, mas viável quando há suporte clínico adequado

“O mais importante é prevenir o sofrimento e garantir qualidade de vida até o fim, independentemente do caminho escolhido”, destacou.

Impacto ambiental e alternativas ao pentobarbital

Outro tema emergente foi o impacto ambiental do pentobarbital, especialmente em casos de sepultamento domiciliar. 

Estudos recentes apontam riscos de contaminação do solo, da água e de intoxicação secundária.

Nesse cenário, Cooney defendeu maior flexibilidade nos protocolos e o estudo de alternativas, como lidocaína, mepivacaína, sulfato de magnésio e cloreto de potássio, sempre respeitando segurança, legislação e bem-estar animal.

As melhores práticas em eutanásia continuam evoluindo, impulsionadas por reflexões éticas, avanços científicos e mudanças no vínculo humano-animal.

“Quando tivermos dúvidas, devemos nos perguntar: qual é a atitude mais amorosa que posso tomar neste momento?”, concluiu.

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